51 Corpo Fantasmal (Parte 2)
Assim que estendi a mão e toquei aquela ossada alva e gélida, ela se enroscou no meu braço feito uma serpente viva, subindo velozmente até envolver o meu pescoço.
— Rei dos Fantasmas, isso...
Eu não ousava mover sequer um músculo, pois a cada vez que a coluna trêmula se enrolava, meu corpo inteiro era sacudido por espasmos.
— Este é o eixo vertebral deste corpo fantasmagórico. Agora que tua veia espectral foi exposta, tua vida está fadada à inquietação. Esta coluna te ajudará a manter tua essência antes que o destino fatal se abata sobre ti. Foi também o que prometi à tua avó há muitos anos. Um século de artimanhas se esvaiu em vão; jamais imaginei que ao final perderia para uma jovem.
Enquanto ele falava, a coluna alva atravessou de súbito minhas costas, penetrando diretamente na minha espinha. Estremeci por inteiro, sentindo-me prestes a desmaiar.
A sensação era como se alguém abrisse minhas costas com um golpe certeiro e injetasse nas minhas vértebras um veneno gélido e cortante, tornando impossível manter-me de pé ou cair em desmaio — restava-me apenas suportar a dor em plena consciência.
No meio do sofrimento, vi o Rei dos Fantasmas estender a mão mirrada e pressionar com força uma antiga lamparina solitária. A chama saltou para sua palma e, aproximando-se, ele pressionou a mão ardente contra o centro da minha testa.
Imediatamente, uma onda de calor invadiu meu corpo antes consumido pelo frio e pela dor, como se uma centelha de fogo se propagasse por um imenso iceberg, aquecendo tudo em seu caminho.
Meia hora depois, recuperei a consciência. Sentia-me renovado, com uma energia pulsante em cada músculo.
— Parece que és compatível com esta coluna.
As palavras do Rei dos Fantasmas fizeram um arrepio correr pela minha espinha, mas nada respondi.
— Por ora, a coluna ficará alojada em teu corpo. Se em três meses não superares tua provação, após tua morte virei buscá-la. Mas nesses três meses, tua vida estará garantida.
Assenti. Durante essa dolorosa fusão de meia hora, percebi uma essência vital se espalhando por mim, sensação estranha, porém familiar desde a infância.
— Rei dos Fantasmas, só quero saber por que apostaste com minha avó, como ela planejou tudo isso e, afinal, qual será meu destino?
Todas as minhas suspeitas se confirmavam: minha avó havia orquestrado tudo nas sombras.
Desde que entrei naquele edifício dos mortos invisível aos demais, conheci a Borboleta, depois Zé Meio Santo, Chen Oito, o velho estranho... Tudo parecia manipulado por uma mão invisível. Até mesmo figuras aparentemente aleatórias, como a espírito da bananeira ou Li Tong e o feto demoníaco, pareciam estar sob controle de alguém.
Eu sentia que estava no centro de um grande labirinto e, fora dele, qualquer mínimo movimento podia desencadear um efeito borboleta.
O Rei dos Fantasmas tremeu. Sem a própria coluna, já não ostentava a imponência de antes; curvava-se como um ancião.
— Sobre a aposta, não posso falar. É questão de vida ou morte para mim. Quanto ao teu destino, posso apenas dizer que tua avó dedicou anos de esforços e planos para ti, mas ninguém sabe até onde conseguirás ir.
Ao ouvir isso, não fiquei surpreso, mas sim pensativo. O que significava aquele encontro com meu pai em sonhos? E a visão da desgraça que recaiu sobre a família de Ye Hongmei?
— Sei o que te intriga. Na verdade, quem te guiou até aqui ontem não fui eu, mas sim a lamparina que acabo de inserir em tua testa. Ela se chama Lâmpada do Destino Solitário. Quando tua avó acendeu essa chama, trilhando o caminho entre os vivos e os mortos, foi concebido teu pai. Ela lhe deu o nome de Yang Tianxing: aquele que desafia o céu e o destino. Esta lâmpada foi acesa com o sangue dele. Se a chama se apaga, teu pai desaparece para sempre!
Ao ouvir isso, meu semblante ficou grave.
— Mas já que tua avó apostou tanto em ti, é sinal de que possuis algo que ela jamais teve: a veia espectral, que em ti se intensifica a cada dia.
Eu ouvia as palavras do Rei dos Fantasmas, mas minhas dúvidas só aumentavam.
— Afinal, o que é essa veia espectral?
Ele balançou a cabeça.
— Mesmo tendo recebido este corpo de tua avó, jamais compreendi de fato o que é a veia espectral. Sei apenas que há uma única neste mundo, e quem a detém tem a chance de controlar o destino de todos os seres. Pode parecer incrível, mas quando criança, ouvi de meu mestre a história de um sacerdote com essa veia. Mas, por agora, isso só te traria perigos. Se conseguires superar tua provação, volta a mim e te conto essa história — verdadeira ou não.
— Rei dos Fantasmas, então és ou não aquele Zhu Bai de que falou Wu Yi?
Minha curiosidade crescia. Mas, tendo doado sua coluna para me salvar, não parecia nutrir nenhuma má vontade. Queria entender as razões por trás de tudo isso.
— Em minha memória, esse nome não existe. Talvez eu seja, talvez não. Quando prometi à tua avó entrar neste caixão maldito, adormeci por nove dias e noites. Durante esse tempo, fundi-me ao corpo fantasmagórico e esqueci tudo do passado. Só lembro de ter vivido muito, conhecido muita gente, mas meu único objetivo é atravessar os limites entre vivos e mortos.
Eu não compreendia, nem encontrava explicação. Minha mente era um turbilhão.
— Este lugar é uma cova natural de energia obscura, só acessível à noite por meio de rituais proibidos. O vilarejo existe há milênios, e aqui poderia ter nascido um imperador grandioso, mas a presença desta cova suprimia a energia do dragão por séculos. Quando cheguei com tua avó, nossa primeira tarefa foi transformar a energia do lugar, revitalizar o dragão. Para não levantar suspeitas, fiquei como guardião, reuni sete ou oito sacerdotes, ergui selos e entrei no caixão para conter a energia, esperando o dia em que, ao consumir o dragão, pudesse cruzar os mundos.
— Então, Rei dos Fantasmas, basta absorver a energia do dragão e unir-se ao caixão para atravessar os mundos?
Eu já ouvira falar desse feito, mesmo sem compreendê-lo, sabia ser o maior objetivo dos mestres do oculto.
— Não é tão simples. Mesmo absorvendo toda a energia do dragão e com o caixão, a chance de atravessar os dois mundos não passa de dez por cento.
Dez por cento? Fiquei pasmo. Não era à toa que Zé Meio Santo dizia que os verdadeiros mestres já haviam desaparecido.
— Isso compreenderás no tempo devido. Quando puderes mover o caixão, saberás o que é poder. O tempo urge, o dia está prestes a nascer, e meu ritual só dura três horas. Precisas ir!
Eu ainda queria perguntar, mas vi o Rei dos Fantasmas curvado virar-se. As runas negras em seu corpo brilharam intensamente, como uma teia de energia a aprisioná-lo.
Com um gesto, o caixão de sangue emergiu da escuridão e pairou sobre a ponte da vila, sua tampa se abriu e uma torrente de energia maligna formou um vórtice tremendo.
— Rei dos Fantasmas, e a Borboleta...?
— Ela está bem. Voltou ao edifício dos mortos ontem à noite. Ah, e o espírito em tuas costas pode ser tua grande aliada na provação que virá. Em nome da velha amizade, darei a ela meus olhos infernais. Quero ver até onde chegarás no caminho que uma jovem desconhecida preparou para ti...
Ao terminar, a energia maligna se condensou furiosamente, o caixão emanou um brilho rubro e fui arremessado pelo vórtice sombrio para a superfície. Levantei os olhos e vi duas luas sangrentas estremecerem e voarem para minhas mãos.
Ao segurar as duas esferas vermelhas, as nuvens negras se dissiparam e o primeiro raio de sol da manhã irrompeu no céu.
Abri a mão, espantado ao ver as duas pequenas esferas sanguíneas na palma, o coração acelerado. De repente, os olhos infernais se ergueram e voaram direto em direção aos meus próprios olhos...