50 Corpo Fantasmagórico (Parte I)
O Rei dos Fantasmas vestia uma armadura de madeira de pessegueiro, e ao estar diante de mim, eu podia quase sentir com clareza a intensa aura de morte que emanava de seu corpo. Com algum esforço, virei-me e vi Wu Yi, que antes estava ali trêmulo; aquela espada havia penetrado diretamente em seu centro da testa, o cabo avermelhado fixo como se fosse parte dele, mas o que me surpreendeu foi que de sua testa não escorria uma gota de sangue.
Wu Yi permanecia ali, imóvel, e ainda assim não estava morto.
— Você é Zhu Bai, só pode ser Zhu Bai! — exclamou ele. — Uma espada de madeira de pessegueiro feita com madeira sedenta de sangue, entre todos os mestres do yin-yang que conhecemos, apenas você, Zhu Bai, a utiliza...
Falava com terror, toda a postura de mestre havia desaparecido. Já o Velho Bobo, ao lado, estava numa situação totalmente distinta: nesse momento, ele já havia se largado no chão, talvez porque eu não soubesse ainda o quão assustador era aquele Rei dos Fantasmas, ou talvez porque, já ciente de que minha vida estava chegando ao fim, não sentisse mais medo. Quanto ao motivo de eu ainda não ter morrido, isso eu realmente desconhecia.
— Zhu Bai? — repeti. — Eu me chamo Zhu Bai?
O Rei dos Fantasmas estendeu a mão para Wu Yi, e imediatamente seu corpo voou em sua direção. O Rei agarrou a espada de madeira de pessegueiro. Nesse momento, vi que sua mão estava coberta de inúmeros símbolos rúnicos que eu não conseguia decifrar, mas assim que ele segurou a espada, os símbolos brilharam com uma luz ofuscante.
— Já que você destruiu meus planos, só lhe resta tornar-se mais uma das almas dentro de mim.
Wu Yi não respondeu. Ao mesmo tempo em que a espada de madeira de pessegueiro pulsava, seu corpo foi secando pouco a pouco, até tornar-se uma múmia. Só quando o Rei dos Fantasmas puxou a espada, o corpo de Wu Yi desmoronou em ossos brancos.
Eu não podia acreditar: como alguém podia transformar-se em ossos em tão pouco tempo?
O Rei dos Fantasmas respirou fundo, o rubor começou a voltar ao seu rosto. Parou diante de mim, seus olhos vermelhos me fitavam em silêncio, como se ponderasse algo.
— Quem... quem é você, afinal? — ousei perguntar, afinal Wu Yi estava morto, e talvez eu e o Velho Bobo seríamos os próximos. O Velho Bobo tinha algum domínio da arte, mas perante uma entidade tão poderosa, eu estava indefeso.
O Rei dos Fantasmas retirou a espada do próprio ombro, como se a enfiasse de volta na bainha.
— Você pergunta quem sou eu... Depois de tantos anos, já me esqueci. Só me lembro da primeira vez que vim à Vila do Primeiro-Lugar!
O Velho Bobo se levantou devagar, aproximou-se de mim, deu-me um tapinha no ombro e, tentando sondar, perguntou ao Rei:
— Você não se lembra mesmo de quem é?
O Rei dos Fantasmas balançou a cabeça, ergueu o olhar ao céu e não respondeu. Apenas caminhou em minha direção, cada passo soando como um peso sobre meu coração.
— Você é Yang Sen, filho de Yang Tianxing?
Eu e o Velho Bobo, que havíamos acabado de nos acalmar, estremecemos de medo com a pergunta.
Apressei-me a assentir. Afinal, o Rei dos Fantasmas conhecia meu pai, e no sonho eu também o vi; isso significava que, talvez, ele tivesse tido contato com meu pai no passado.
— Você conheceu meu pai?
O Rei balançou a cabeça, mostrou os dentes avermelhados num sorriso que me gelou a espinha.
— Yang Tianxing, fui eu quem o salvou naquele tempo!
— Na época, meu corpo já não suportava meu destino. Então, procurei alguém com quem pudesse fundir meu ser, mas não encontrei. Foi então que cheguei à Vila do Primeiro-Lugar, onde percebi uma linha de dragão ainda adormecida. Isso me encheu de alegria, pois decidi transformar a vila em meu novo corpo, esculpir uma nova existência. Mas sozinho, isso seria impossível. Procurei vários mestres do yin-yang, mas nenhum quis sacrificar sua vida por isso. Só uma bela mulher aceitou meu pedido. Ela não era uma verdadeira mestra, mas possuía um sangue especial, capaz de conectar yin e yang.
— Essa mulher de quem o Rei dos Fantasmas fala, não seria a avó do Yang Sen, rapaz? — comentou o Velho Bobo sentado, já mais calmo à medida que o Rei falava, e nós também começamos a relaxar.
O Rei assentiu, mas logo negou com a cabeça.
Eu estava confuso; tudo o que ouvia era de difícil compreensão.
— Aquela bela mulher me contou sobre um plano grandioso. Disse que desde meu nascimento eu já fazia parte dos planos deles. Fiquei chocado, não quis acreditar. Então, fizemos uma aposta. E por causa dessa aposta, fui selado aqui na Vila do Primeiro-Lugar por décadas.
— Aposta? Plano? O plano da minha avó? — perguntei surpreso, mas o Rei não respondeu diretamente, apenas olhou novamente para o céu escuro como tinta, onde já não havia luar, apenas ventos frios e sinistros.
Posso garantir: se hoje houvesse alguém na vila, amanhã todos estariam tomados pelo qi maligno, transformados em zumbis.
— Os que saíram daqui ao longo dos anos eram pessoas de grande sorte. Isso não foi apenas por causa das mudanças feitas pelos mestres do yin-yang há dez anos, mas porque aquela bela mulher deixou nove Guardiões do Dragão, que mudaram em segredo o destino dos jovens da vila.
O Velho Bobo assentiu, o semblante sério:
— Rei dos Fantasmas, depois de tudo isso, só quero saber: onde estão os outros oito Guardiões do Dragão?
Olhei para ele; apesar do rosto tranquilo, eu sabia que por dentro estava tão abalado quanto eu.
— Por quê? Quer encontrar os Guardiões e controlar este Caixão Fúnebre Fantasma? Limitar meus movimentos? — a voz do Rei ficou sombria, fazendo o Velho Bobo calar-se imediatamente.
— Vão embora. Vou selar a Vila do Primeiro-Lugar. Quanto às pessoas daqui, deem um jeito para que não voltem mais. Se voltarem, só haverá um destino: a morte!
Concordei logo, temendo que as palavras do Velho Bobo tivessem irritado o Rei e despertado sua desconfiança.
Em seguida, o Rei apontou para o Velho Bobo.
— Você vai embora primeiro. Yang Sen, fica!
Meu semblante mudou. Agarrei a manga do Velho Bobo.
— Certo, certo, garoto. Fique e talvez o senhor Rei dos Fantasmas lhe dê algum tesouro. Se não sair até o amanhecer, volto para Chengdu! — Ele não se preocupou comigo, virou-se e saiu correndo com sua mala. Olhei para trás: sua velocidade nos trilhos da montanha quase podia rivalizar com a de um atleta olímpico.
— Venha comigo! — a voz do Rei voltou a ser rouca, seca e gelada como antes.
Tremendo, não tinha como resistir.
Abri o zíper da mochila, puxando as orelhas da Dodo, esperando que ela me orientasse, pois sentia que ela também não era comum. Mas agora, estava completamente inerte, como um objeto morto.
O Rei dos Fantasmas seguia à frente, e eu o acompanhava, vendo a paisagem mudar rapidamente. O qi maligno formava um redemoinho enlouquecido, e diante do Rei surgiu uma trilha.
Uma trilha, um redemoinho...
De repente, lembrei-me de algo.
— Não se preocupe. Ontem à noite, quando eu o guiei para cá, você trouxe aquela jovem fantasma chamada Borboleta?
Assenti depressa e perguntei:
— E onde está a Borboleta agora?
Se tudo aquilo fora real, meu pai também apareceria aqui?
Enquanto eu refletia, já havíamos chegado à Ponte do Primeiro-Lugar, cenário idêntico ao da noite anterior: uma lanterna solitária, fraca, iluminava a ponte.
Mas, dessa vez, o Rei dos Fantasmas caminhou até a lanterna, pegou-a com uma das mãos e, com a outra, tocou a nuca e puxou para baixo.
Rasgando, rangendo...
Dei alguns passos para trás, o coração disparado, mal conseguindo respirar, tremendo de medo.
Eu vi: o Rei dos Fantasmas arrancava a própria espinha, vértebra por vértebra.
Seu corpo se curvou, mas ele não caiu; seus olhos brilhavam vermelhos.
— Aqui, segure! — O Rei dos Fantasmas estendeu para mim a espinha recém-arrancada...