54 Fenômenos Estranhos (Parte Dois)

Apartamento do Além O jovem senhor da família Yang 3042 palavras 2026-02-09 14:10:34

— Volte!

O Velho Dae resmungou friamente, e aquela sombra fantasmagórica sumiu instantaneamente.

Meu rosto empalideceu. Ao olhar novamente para o Velho Dae, percebi que ele estava diferente, quase irreconhecível; seus olhos estavam arregalados, o olhar tomado por uma aura completamente distinta da habitual.

— Irmãozinho Yang Sen, não fique com medo. Isso é apenas um efeito colateral que sempre me afeta quando gasto parte da minha vida. Logo passa. Por ora, volte para casa e evite sair à noite. Quando encontrarmos o rastro do Caminhante de Madeira, avisaremos para que nos ajude. Lembre-se de trazer a Dodo.

Assenti, observando o Velho Dae diante da janela, sua aura transformada, como um mestre incomparável a desvendar os augúrios do futuro.

Deixei a Companhia Funerária Meio Imortal de Zhao. Ainda era cedo, então liguei para chamar os três irmãos do dormitório.

Ao saber que eu tinha voltado, Xiao Zi Zhuo ficou radiante e nos reuniu para uma farta refeição no restaurante. Quanto às aulas, Xiao Zi Zhuo já havia resolvido tudo para mim; mesmo que eu não aparecesse durante todo o semestre, estaria completamente seguro. Não sei como ele conseguiu, mas isso me poupou do incômodo de pedir licença. Afinal, são apenas seis meses; o último ano é basicamente estágio, algo que acredito que Chen Ba Liang e sua rede de contatos podem resolver facilmente.

Depois do caso de Wu Yi, entendi que pessoas como o Velho Dae e Chen Ba Liang pertencem a uma vasta rede de mestres do Yin e Yang, então não preciso me preocupar com assuntos banais como estágio.

Xiao Zi Zhuo parecia querer me perguntar algo, mas diante de Zhang Liang e Wang Xing Jian, se conteve. Eu sabia o que ele queria saber, mas julguei que, para eles, era melhor permanecer na ignorância. Poderia fornecer material a Wang Xing Jian, mas desisti; percebi que agora me afastava do universo deles.

Passei a tarde deitado na cama do dormitório, rememorando os acontecimentos desses dias, cada palavra dita pelo Rei dos Fantasmas ainda me soava incrível.

Tudo aconteceu tão rápido que mal tive tempo de reagir; mas os fatos não me permitiam hesitar. Só me resta aceitar e adaptar-me sem cessar.

Zhang Liang continuava desperdiçando sua juventude, Xiao Zi Zhuo retornava ao velho hábito de ser contraditório, e Wang Xing Jian seguia diante do computador, teclando incessantemente.

Eu invejava a vida deles: Zhang Liang, mergulhado nos sonhos do mundo virtual; Xiao Zi Zhuo, que convivera com fantasmas por um breve período; Wang Xing Jian, imerso em seu universo imaginário. Todos eles, cedo ou tarde, voltariam à realidade para viver de verdade.

Mas eu, nesse mundo paralelo, sentia-me cada vez mais distante deles.

Fechei os olhos e rememorei meus vinte e quatro anos de vida.

Tudo o que vivi parecia um sonho, e só agora me sentia verdadeiramente real.

Peguei o livro antigo em encadernação de fio, que Chen Ba Liang me dera.

Abri-o e comecei a ler atentamente, decidido a me fortalecer, mesmo que só por três meses, enquanto sobreviver. Desde pequeno, nunca tive muitos amigos, então minha habilidade era ler.

Depois do jantar, coloquei Dodo nas costas, guardei o livro no meu saco, peguei alguns itens essenciais e deixei o dormitório. Ao sair, senti uma dor de despedida que demorou a se acalmar.

Não me despedi pessoalmente dos três irmãos do dormitório; sabia que seguia um caminho diferente do deles. Quanto mais próximos, mais perigo lhes traria, principalmente neste momento crucial, pois pressentia um grande acontecimento.

Depois de afastar-me um pouco da escola, liguei para Xiao Zi Zhuo. Afinal, ele era o chefe do nosso dormitório e sabia da minha situação. Inventei uma desculpa, dizendo que acompanharia meu mestre por um tempo e só voltaria depois.

Ele não disse mais nada, apenas pediu que eu me cuidasse, afirmando que os irmãos do dormitório aguardavam meu retorno.

Assenti, sentindo uma torrente de emoções. Não sabia se voltaria à escola, e ao encarar aquele lugar onde um dia sonhei alto, tudo à minha frente tornou-se incerto.

O céu começou a escurecer. Limpei os olhos úmidos e segui em frente, soltando Dodo, que pousou no meu ombro.

— Irmão, por que está chorando?

Balancei a cabeça e sorri:

— O vento está forte, entrou areia nos meus olhos!

— Está mentindo! Não pense que eu não percebo. Agora posso circular livremente durante o dia, e basta um olhar para saber se você está mentindo!

Enquanto Dodo falava, seus olhos vermelhos reluziam com um brilho carmesim.

— Hehe, só não quero que meus bons amigos sofram por minha causa.

Na verdade, eu precisava conversar com alguém.

Dodo concordou e disse:

— É verdade, irmão. Você possui a veia dos fantasmas; quem se aproxima acaba sofrendo a inveja dos espíritos, e por isso não vivem muito. Está certo em agir assim.

Sorri e passei a mão em sua cabeça:

— Vamos, procurar sua irmãzinha Xiao Die.

Com Dodo, segui pelo caminho familiar dos fantasmas.

Mas ao pisar na estrada dos espectros, percebi uma anomalia: o céu, que deveria estar amarelado, tornou-se vermelho sangue, como nuvens ardentes em camadas, e até o solo parecia tingido de carmesim.

— Irmão, o céu está estranho!

Assenti, cada vez mais preocupado.

Será que o Caminhante de Madeira já refinou aquela gestação maligna e agora ameaça Xiao Die?

Quanto mais pensava, mais assustado ficava, correndo em direção ao apartamento.

De repente, um trovão!

No instante em que corria, um raio dourado caiu do céu vermelho, diante de mim, assustando tanto eu quanto Dodo.

— Irmão, o que está acontecendo? Parece que vai chover muito!

Balancei a cabeça, era a primeira vez que via algo assim. Sem hesitar, corri para o apartamento.

Em poucos passos, o céu vermelho começou a despejar uma chuva negra, cada vez mais intensa; via as gotas formando rios sombrios à minha frente.

Esfreguei os olhos, cuspindo algumas vezes junto à água negra, mas nada mudava.

— Irmão, isso não é ilusão. Com Dodo, nenhum fantasma comum pode te prender.

Tudo era real. Mas o que significavam esse céu sanguíneo, o raio dourado, e a chuva negra?

Não tinha resposta, nem o livro antigo explicava isso.

Corri em direção ao apartamento.

Quando passei pela longa viela, parecia nadar; o lugar estava tomado por um fluxo negro assustador.

Dodo me guiava; o céu vermelho, sob a tempestade, tornava-se escuro como breu. Sem seus olhos carmesim, eu estaria perdido.

Ao sair da viela, a luz melhorou um pouco, mas sobre o crematório pairava uma espessa nuvem de sangue, que se estendia até o apartamento dos mortos. Os espíritos do crematório gritavam, correndo para a nuvem, todos com rostos aterradores.

— Irmão, olha aquela nuvem de sangue, que medo!

Vi então a nuvem girando sobre o crematório, terrível, com a forma de um rosto gigante de fantasma, boca aberta, pronta para engolir tudo num só ataque.

— Irmão, olha aqui!

Ao ouvir Dodo, assustei-me, virei rápido. Sob meus pés, o fluxo negro rolava, mas acima de mim surgiam redemoinhos de ouro escuro, cada vez mais intensos.

Bang!

Um raio dourado caiu do centro do redemoinho diretamente sobre o apartamento dos mortos.

— Ah!

Ouvi um grito de dor, era Xiao Die.

— Xiao Die! — gritei, correndo para a porta do apartamento.

— Venho do apartamento, ele me protege. Apartamento dos mortos, abre-te!

Enquanto outro raio dourado descia, gritei.

Bang, bang!

A porta do apartamento se abriu lentamente. Ao entrar, mais um raio dourado caiu do céu. Eu quase podia imaginar, sobre o apartamento, o redemoinho dourado cercado por relâmpagos carmesim...

Bang!

...