Cinquenta e sete tribulações!
— Pequena Borboleta, o que você acha de darmos que nome ao nosso filho?
Embora já tivesse um nome em mente, senti que deveria primeiro ouvir a opinião de Pequena Borboleta.
Ela sorriu e respondeu:
— Passamos o dia discutindo isso. Cãozinho disse que nosso querido filho foi um dom dos céus, então escolheu um nome que representa a união entre o homem e o céu: propôs que fosse chamado de Tiago Celestino. A irmã Bianca sugeriu que nosso filho será uma estrela em ascensão, iluminando a todos e trazendo luz para nossas vidas, então pensou em Tiago Radiante, pois o nome Radiante simboliza claridade. Já o senhor Tavares, aquele velho vestido à moda antiga que você encontrou no seu primeiro dia no apartamento, disse que o seu nome, composto por três madeiras, forma uma floresta, e segundo as regras dos cinco elementos, a água faz a madeira crescer, por isso nosso filho deveria se chamar Tiago Ribeiro — três vezes água, três vezes madeira, uma relação de crescimento mútuo, e assim ele ajudaria você a conquistar grandes feitos...
Pequena Borboleta ainda citou muitos outros nomes, todos guardados em minha memória. Jamais imaginaria que o nome de nosso filho mobilizaria tantos moradores do antigo apartamento.
— Meu querido, e você, o que acha? Muitos deles estavam brincando, mas a decisão final é sua, afinal, você é o chefe da família.
Senti uma emoção diferente brotar em meu peito ao olhar para Pequena Borboleta, sorrindo:
— Na verdade, não pensei muito nisso. Só desejo que nosso amado filho tenha uma vida tranquila e feliz, simples como qualquer outra criança. Afinal, nossa existência sempre foi alvo de tantos comentários, mas não quero que ele repita nosso destino.
Ao ouvir isso, Pequena Borboleta assentiu, pegou o pequeno nos braços e beijou seu rostinho:
— Escolha o nome, meu amor. Não precisamos seguir essas questões de sorte ou destino. A avó disse desde o início que, se o nosso filho conseguisse nascer em segurança, ela não nos forçaria a nada. Afinal, ele é o bisneto dela. E a avó comentou que este pequeno já estava fora dos planos de todos, e só queria que a linhagem da família Tiago tivesse continuidade.
Ao escutar isso, um pressentimento sombrio se instalou em mim. O nascimento do meu filho já era algo extraordinário, e considerando como ele afastou as forças malignas por Doroteia, talvez desde cedo estivesse nos cálculos da avó.
— O que houve, meu querido...?
Demorei a responder, perdido em pensamentos, até Pequena Borboleta me chamar de volta. Sorri ao olhar para o rostinho fofo e adorável de nosso filho.
— Chamemos de Tiago Simples. Espero que ele tenha uma vida comum, como qualquer criança: estudar, casar, construir uma família, sem se envolver com o sobrenatural ou o destino.
Ao dizer isso, meu coração estava tomado de preocupação. Será mesmo possível?
Talvez desde o princípio estivéssemos todos presos nessa teia de causas e consequências, sem saber o papel desse pequeno nos planos da avó.
— Tiago Simples, Simples, Simplesinho... Que nome bonito! Simplesinho, daqui em diante mamãe vai te chamar assim, tudo bem?
Pequena Borboleta lhe deu mais um beijo, radiante. O pequeno, surpreendentemente, assentiu como um velho sábio, com os grandes olhos curiosos fixos em mim, balbuciando algo que não compreendi, então o tomei nos braços.
— Simplesinho, você é o meu tesouro, ninguém pode te machucar. Se alguém tentar, conte para o papai, que ele te defenderá.
Ele assentiu com seriedade. Fiquei espantado com o quão extraordinário era meu amado filho.
Após a escolha do nome, Pequena Borboleta me contou toda a história sobre o menino, revelando que tudo fora preparado pela avó, seguindo exatamente os caminhos que ela indicara, sem desvios. De repente, senti-me como um marionete manipulado por aquela misteriosa figura.
Depois que Pequena Borboleta morreu, a avó selou sua alma num pequeno colete vermelho. Quando nasci, minha energia espiritual se uniu à dela e surgiu a concepção pelo sangue. Esse filho, na verdade, começou a se formar há vinte e quatro anos, mas Pequena Borboleta não encontrava seu corpo e, por isso, o menino não podia nascer. Quando a levei à Vila do Laureado, o Rei dos Espíritos, que habitava o caixão fúnebre, percebeu sua presença, convocou-a e revelou o local do corpo. Assim, nove horas depois, veio o castigo celestial e Tiago Simples nasceu.
Fiquei ainda mais intrigado: como Pequena Borboleta, já transformada em espírito, engravidou após nove dias de coma, e por que, ao encontrar o corpo, em nove horas veio o castigo? Tudo parecia girar em torno do número nove.
Recordei-me do que aprendi no ensino médio sobre a explicação do “nove”:
“Nove, a transformação do yang, representa o limite das curvas e das formas. Todas as coisas relacionadas ao nove seguem o mesmo princípio.”
Nove é o número máximo do yang, frequentemente associado aos imperadores na antiguidade. Ao pensar nisso, percebi que havia mistérios profundos aqui, além da minha compreensão atual.
— A avó sempre disse que não queria controlar seu destino. Há momentos em que a vida foge de nosso domínio. Ela disse que o destino sempre esteve em suas mãos, e um dia você entenderá tudo.
Assenti, sem palavras.
Juntando tudo o que sabia, percebi que estava no centro de um vórtice de sorte e destino, rodeado de perigos desconhecidos. O caminho traçado pela avó tinha muitas bifurcações, e caberia a mim decidir qual trilha seguir e até onde conseguiria chegar.
De repente, senti que aquela avó, que planejou meu futuro, não era tão assustadora. Ao contrário, o cuidado dela por mim despertava saudade desse alguém que nunca conheci.
Abracei Simplesinho por mais um tempo, enquanto o dia começava a clarear.
— Meu amor, nos últimos tempos o monge da madeira parece estar tramando algo. Tome cuidado, sinto que ele pode ameaçar nosso filho!
Respirei fundo, pensando se Mestre Bobo e o senhor Rocha já haviam encontrado pistas do monge.
O dia despontava. Peguei Doroteia e, com nosso recém-nascido nos braços, deixei o apartamento.
Pequena Borboleta disse que não era bom Simplesinho permanecer ali, pois o ambiente era carregado de energia sombria durante o dia. À noite, ela podia protegê-lo, mas de dia não era possível.
Não perguntei mais, pois sabia que durante o dia o apartamento desaparecia, e Simplesinho, apesar de ser filho de Pequena Borboleta, parecia uma criança comum. Assim, parti carregando-o e levando Doroteia comigo.
Logo que saí, meu telefone começou a tocar sem parar. Olhei: várias chamadas perdidas de Mestre Bobo.
Imaginei que ele havia descoberto algo importante. Apressei-me, ligando de volta, enquanto seguia para a funerária do senhor Meio-Sábio.
Ao entrar, vi Mestre Bobo sentado, com expressão preocupada.
— Mestre Bobo!
Entrei com Simplesinho nos braços.
Ele, ao me ver, ficou visivelmente feliz, mas logo se espantou ao notar a criança em meus braços.
— Esse...?
— Mestre Bobo, este é o filho que tive com Pequena Borboleta. Chamamos de Tiago Simples.
O rosto de Mestre Bobo mudou drasticamente, e ele exclamou:
— Então aquela noite, com aqueles fenômenos assustadores, foi causada por esse pequeno?
Assenti, mas também balancei a cabeça, pois não tinha certeza.
Simplesinho virou-se e, vendo Mestre Bobo, sorriu de forma encantadora.
O mestre franziu ainda mais a testa, e cochichou:
— Esse menino não é comum... Mas quem foi o idiota que deu esse nome? Fugiu completamente do esperado!
Fiquei sem palavras, sorrindo sem graça:
— Mestre, fui eu quem escolheu o nome. Sou o pai, afinal.
Mestre Bobo riu, um pouco constrangido.
— Tiago Simples também não é ruim. Sem envolvimento com sorte ou espíritos, apenas um homem comum.
Fiquei frustrado. O mestre mudava de humor como um ator de teatro.
— Mas sabe como se chama o fenômeno daquela noite?
Balancei a cabeça.
— Só ouvi falar disso por relatos antigos: chuva de sangue sombria, relâmpagos dourados, o extremo dos nove sóis — um evento chamado de “Calamidade dos Nove Dragões”, algo que só acontece a cada dez mil anos!
— Calamidade dos Nove Dragões!
O nome me fez estremecer.
— Porém, ontem à noite, essa calamidade foi controlada por uma força invisível, liberando apenas um décimo do seu poder.
Ao ouvir isso, fiquei ainda mais inquieto. Será que tudo era mais uma vez obra da avó?