Quinquagésimo quinto descenso

Apartamento do Além O jovem senhor da família Yang 2963 palavras 2026-02-09 14:10:34

No instante em que adentrei o apartamento, três ou quatro relâmpagos dourados desceram em rápida sucessão. Cada vez que o trovão caía, eu conseguia ouvir o grito desesperado de Borboleta. Meu coração estava tomado pela inquietação, e em minha alma eu bradava, Borboleta, estou chegando!

— Irmão, o elevador está quebrado, só podemos subir pelas escadas! — disse Dodo.

Mais um estrondo de relâmpago dourado. Os gritos de Borboleta aumentaram, seu sofrimento era evidente. Tomado pela angústia, golpeei a porta do elevador com um soco, o sangue escorrendo silenciosamente. Sem hesitar, empurrei a velha porta de madeira e comecei a subir as escadas às pressas.

O apartamento do Além era um lugar estranho, desconhecido para mim, mas percebia que ele podia transformar o cenário dos andares à vontade, como se moldasse conforme o estado de espírito ou a condição de Borboleta. Naquele momento, tudo parecia decadente, as paredes descascadas, igual àquela manhã em que o vi pela primeira vez.

— Irmão, depressa! Já foram oito trovões! — exclamou Dodo.

Oito trovões? Um tremor percorreu meu peito, recordando algo que lera no antigo livro encadernado, mas aquilo não correspondia ao que estava escrito.

Monstros enfrentam três calamidades: humana, terrestre e celestial. Ao superar a calamidade celestial, tornam-se indestrutíveis. O livro continha poucas informações, e não fosse pela história do velho sobre a serpente demoníaca, eu jamais acreditaria na existência de monstros e espíritos neste mundo.

A presença de fantasmas já havia abalado minha visão da realidade, mas agora, espíritos e demônios se manifestavam juntos, como se fosse uma era de monstros em fúria. O nono trovão era a chamada calamidade celestial; ao sobreviver a ela, o corpo do monstro se transforma, tornando-se indestrutível, e normalmente não revela sua verdadeira forma. No entanto, Borboleta estava sendo submetida ao refinamento do trovão celestial? Isso não fazia sentido para mim, e um pressentimento sombrio tomou conta de minha mente.

Seria Borboleta um monstro, e não um fantasma?

Enquanto corria apressado rumo ao décimo quarto andar, minha mente fervilhava de pensamentos.

— Irmão, você está pensando em algo? — Dodo perguntou, virando-se enquanto subíamos.

Balancei a cabeça, enterrando a suspeita no fundo do coração. Não importava o que Borboleta fosse; eu cuidaria dela. Ela me protegera silenciosamente por vinte e quatro anos. Eu lhe devia esta vida, e mesmo que tivesse de pagar com minha própria existência, assim seria.

Acelerei o passo. Quando cheguei à entrada do décimo quarto andar, já estava coberto de suor. Ao empurrar a porta de madeira, vi Fany agachada diante do quarto de Borboleta, tremendo, coberta de feridas.

— Fany! — corri até ela.

— Irmão Sen, algo terrível aconteceu... — ela começou, mas interrompeu-se. Percebi que o décimo quarto andar era agora o último, e acima de nós girava o mesmo vortex dourado aterrador de antes. Incontáveis sombras de fantasmas estavam envoltas por aquele turbilhão, seus gritos e lamentos ecoando pela noite. Nuvens de sangue eram engolidas pelo redemoinho de relâmpagos dourados.

— Eu sei! — respondi, mantendo Dodo do lado de fora, pois percebia que o relâmpago dourado representava ameaça mortal aos fantasmas. Avancei passo a passo para dentro do quarto, que agora era aberto ao céu.

Tudo dentro fora reduzido a carne despedaçada sob a fúria dos relâmpagos.

Borboleta jazia em meio aos destroços, o corpo inteiro tremendo. Seu belo rosto estava irreconhecível, os braços destruídos, apenas o ventre elevado permanecia intacto.

— Borboleta! — corri até ela e a ergui em meus braços. Seu corpo era incrivelmente real, não fruto de energia espectral, mas de existência autêntica. Não havia tempo para perguntas ou espanto; Borboleta estava à beira da morte em meu colo.

— Marido... — sua voz era rouca, muito diferente da suavidade habitual, como o som de ossos se esfregando.

Assenti, encarando seu rosto mutilado, sentindo o coração dilacerado.

Não havia medo, apenas dor. Naquele instante, eu desejava seguir o desejo da avó: Borboleta era minha esposa. Embora ainda fosse virgem, ela me guardara por vinte e quatro anos. Não importava o que fosse, mesmo uma sombra; eu lhe ofertaria minha vida.

Mas diante do relâmpago dourado, eu era impotente.

— Estou aqui, Borboleta. Diga ao seu marido, o que devo fazer para salvá-la? — minhas lágrimas caíram sobre seu rosto; o som corrosivo era sutil, mas nítido para mim. Apressei-me a limpar os olhos.

— Marido, o filho... — ela murmurou.

Coloquei a mão sobre seu ventre elevado. Borboleta vestia o traje profissional que usava quando a conheci, mas a pele estava rachada, marcada por cicatrizes.

— Nosso filho está bem, Borboleta. — tentei tranquilizá-la, olhando para o redemoinho de relâmpagos sobre nossas cabeças, tomado de medo.

— Marido, vá embora, leve nosso filho. Esta punição celestial é só para mim. Fuja depressa, leve nosso filho — pediu Borboleta, sua mão ossuda, com fragmentos de carne, pressionando a minha.

Balancei a cabeça com firmeza.

— Borboleta, não acredito que essa maldita punição celestial possa nos ferir. Antes eu não sabia que você estava comigo, agora sei, e não permitirei que nada lhe faça mal, nem mesmo o céu!

Não sei de onde me veio tanta coragem. Apertei Borboleta ensanguentada em meus braços e bradei para o alto:

— Venha! Se for capaz, mate-nos juntos, quero ver se o céu é realmente cego, quero ver se existe mesmo um destino. Se existe, escute: hoje eu desafiarei o céu!

Era como se uma vida de repressão estivesse sendo liber