31 - Transformando o Ressentimento em Libertação (Parte Final)
Zás! A espada de madeira perfurou instantaneamente a palma da mão de Li Tong, que soltou um grito lancinante antes de desaparecer diante dos meus olhos. Um calafrio percorreu meu peito, e sem hesitar, agarrei Xiao Zizhuo e corri escada abaixo.
Meu pensamento girava em torno de uma única questão: onde estava Li Bing? E aquela energia sinistra e aterrorizante de antes, o que seria de fato? Seria mesmo o espírito que morreu neste corredor?
Quando cheguei ao patamar entre o primeiro e o segundo andar, percebi, para meu espanto, que minhas mãos estavam vazias. Foram apenas alguns passos, como poderia eu não estar mais segurando Xiao Zizhuo? Ou será que, desde o início, aquela mão não era dele, mas de... Não quis terminar o raciocínio. Num impulso, brandi a espada de madeira: diante de mim, tudo clareou, a luz fria do sensor de presença iluminou a escada.
A preocupação me sufocava, corri de volta escada acima. Foi então que vi Li Tong agarrando o pescoço de Xiao Zizhuo com suas unhas afiadas, enquanto Dodo mordia sua orelha, puxando com força.
— Pare já!
No instante em que as garras de Li Tong começaram a crescer de forma assustadora, gritei e, com o dedo médio, fiz um corte na lâmina da espada, cravando-a em sua cabeça.
Nesse exato momento, Li Tong teve um espasmo violento, virou-se, largou Xiao Zizhuo e agarrou a espada de madeira.
Chii, chii, chii! As mãos de fantasma de Li Tong eram corroídas pelo sangue na espada, mas ela, estranhamente, sorriu para mim com um leve levantar de lábios.
Fiquei alarmado. Antes que ela pudesse sorrir de fato, desferi-lhe um soco que a lançou longe.
— Xiao, lembra do mantra de passagem que te pedi para decorar? Como está?
Xiao Zizhuo encolheu-se num canto, tremendo, e assentiu.
Dizem que é preciso aproveitar quando o inimigo está doente — e, contra este espírito vingativo, não havia momento melhor.
Aproximei-me depressa; Li Tong mal se levantara e já cravei outra estocada em seu peito. Um fedor pútrido subiu e a energia gélida me fez estremecer.
Abri a mochila, tirei uma grande rede embebida previamente em sangue de galo colorido e a lancei sobre Li Tong, que se debatia e uivava no chão. Da rede, subiam sons de carne corroída, tal qual ácido sobre pele de frango.
A energia de ódio que ela emanava era refinada pela rede; pude ver, quase como numa visão, a nuvem de vingança que antes se condensava sobre ela fugir apressadamente pela janela.
Fiquei estupefato — aquela cena me era familiar. Um arrepio percorreu minha espinha: era o mesmo que vi no telhado, quando o feto morto apareceu. Se não tivesse ativado o ponto de exorcismo a tempo, não sei que desgraça aquele espírito teria causado.
Pensar nele me trazia dor de cabeça. Será que o pote conseguiria contê-lo? Ao menos confiava que Chen Ruowei, após tantos anos com Mestre Zhao, teria meios para lidar com aquilo. Agora, meu objetivo era libertar de vez a alma de Li Tong. Afinal, Xiao Zizhuo estava ali, não havia motivo para despedaçá-la completamente. Antes talvez eu não tivesse força contra ela, mas, por algum motivo, o poder sombrio que a envolvia desaparecia rapidamente; de um espírito terrível, tornava-se agora apenas um fantasma comum.
— Xiao, recite o mantra de passagem, vamos ajudá-la a partir.
Xiao Zizhuo assentiu. O vestido vermelho sangue de Li Tong desbotava, tornando-se cinzento. Eu sabia que ela, agora, estava completamente enfraquecida, como um fantasma recém-transformado, fácil de conter.
Xiao Zizhuo sentou-se de pernas cruzadas, ainda assustado, e olhou para Li Tong presa na rede.
Apertei Li Tong com força e gritei:
— Xiao, rápido!
Ele respirou fundo e começou a recitar:
— Mantra divino da terra pura que elimina a raiz de todos os carmas! Namo Amitabha, Tathagata... — Xiao Zizhuo tremia, mãos postas, parecendo um monge em oração. O mantra da passagem é, afinal, um dos mais importantes do budismo da Terra Pura, e ele o entoava com devoção, apenas não em sânscrito.
Mesmo assim, à medida que recitava, a rede embebida em sangue de galo começou a emitir um brilho avermelhado, e Li Tong, lá dentro, fechou suavemente os olhos. Vi então uma forma prateada e etérea erguer-se do corpo, era o espírito de Li Tong, bela como antes.
Aquelas silhuetas prateadas giravam ao meu redor quando, de repente, um choque percorreu meu corpo...
Li Tong sempre fora uma moça apaixonada pela vida, embora vinda de família desfeita e de parcos recursos, o que a tornava insegura. No primário, por vestir-se mal, era a “Cinderela cinzenta”, mas sempre limpa, orgulhosa dos remendos que sua mãe costurava a cada noite.
No ensino médio, destacou-se nos estudos, era retraída e mantinha distância dos colegas. Ambicionava a perfeição e não pegava nada dos outros, mas lutava pelo que era seu. Desde o primeiro ano, seu nome figurava em todas as bolsas de estudo da turma.
Muitos a cortejaram, mas para ela, o essencial era estudar e entrar na universidade — única saída para quem nascera pobre. Era, no fundo, o medo de não ser suficiente.
No primeiro dia de faculdade, conheceu Fan Ming, um homem maduro e encantador. O sentimento foi instantâneo, amor à primeira vista, como só o primeiro amor pode ser: sem razão, sem explicações. Foram quatro anos juntos. Ele sempre solícito, ela, entregue. Mas, no último ano, percebeu que não saberia mais viver sem ele. Deu-lhe seus “primeiros” momentos, mas ele tinha esposa, família, e nenhum filho.
Tudo o que queria era um filho dele, simples assim. Mesmo sabendo que talvez ele não aceitasse, desejava criar aquele filho sozinha. Parou de tomar pílulas, engravidou e contou-lhe a novidade, certa de que ele se alegraria.
Mas Fan Ming reagiu com raiva, exigiu o aborto. O mundo de Li Tong desabou. Depois, ele passou a evitá-la, e ela tornou-se instável, ligava sem parar, foi até sua casa fazer escândalo. Ele só a afastava, até que ela perdeu qualquer sentido para viver e se atirou do alto de um prédio.
Naquele dia, bastaria que Fan Ming aparecesse para ela desistir da ideia. Só queria dizer que desejava o filho, que queria fugir com ele daquela cidade fria. Mas ele nem lhe deu a chance...
“O mundo é frio, todos são frios. Então me tornarei um espírito vingativo e farei todos que me enganaram, desprezaram, feriram, morrer... morrer...”
Naquele turbilhão de ódio em dissolução, vi toda a história de Li Tong, seu alívio ao saltar do prédio — como se renascesse.
Toda a dor enfim se esvaía, e junto dela a raiva. Seu vestido cinzento, antes manchado de vermelho, tornou-se inteiramente prateado. Ela estava, enfim, em paz.
Xiao Zizhuo sorriu para Li Tong e disse:
— Xiao Tong, no outro mundo, cuide-se bem. Espere por mim.
Virou-se, sem olhar para ela de novo.
Fiquei sensibilizado. Jamais imaginei ver tamanho afeto em Xiao Zizhuo, o galanteador incorrigível.
— Obrigada! — Li Tong olhou para Xiao Zizhuo, a voz agora suave, envolta em pontinhos prateados. Era possível ver a culpa em seu olhar.
— Li Tong, você sabe sobre o filho que carregava...
Antes que eu terminasse, uma onda de energia negra irrompeu ao redor do vestido prateado.
— Yang, cuidado, há uma invasão de energia maligna! Use a espada para dispersá-la!
Dodo voou, a cabeça sugando vorazmente a energia que nos envolvia.
Trriiim...
O telefone tocou.
— E aí, rapaz, por que não consigo falar com Ruowei? O telefone dela está fora de área!
A voz de Mestre Zhao me gelou, mas não havia o que fazer. Resumi rapidamente a situação.
— Abra o ponto de exorcismo, ou teremos grandes problemas!
— Mas, Mestre Zhao, como faço isso?
— Você não sabe? Espere aí...
Eu estava aflito. Dodo agora estava totalmente envolta em energia negra, e Li Tong, antes luminosa, voltava a ostentar manchas vermelhas.
— Yang, o que fazer agora? O quê?
— Morda a língua, use sangue da ponta para banir a energia!
Sem hesitar, mordi a língua, a dor me fez estremecer. Com um salto, avancei, brandindo a espada enegrecida enquanto cuspia sangue em meio à névoa escura.
— Xiao Yang, fure o dedo médio, desenhe um círculo na mão direita e derrame uma gota de sangue no ponto negro da palma!
Era a voz grave de Chen Balian.
Sem hesitar, mordi de novo o dedo já ferido, quase gritei de dor, mas me contive. Apertei os dentes, tracei rapidamente um círculo e pressionei o centro negro com o dedo ensanguentado.
Zás!
Zum!
Tudo escureceu diante de mim, quase caí.
Ondas geladas e sombrias invadiram minha mão, senti que ia desmaiar.
— Yang! — gritou Xiao Zizhuo, segurando-me. Mordi a língua de novo, a dor me manteve desperto.
A energia maligna invadia sem cessar a minha mão, sentia um caos de presenças estranhas e perturbadoras em meu corpo.
— Céus e terra sem extremos, virtude da vida, retorno dos mortos ao destino, nada é maior que a bondade, receba!
A voz de Chen Balian soou forte pelo viva-voz. Quando terminou, estremeci e cambaleei.
A energia sombria que invadia pela janela desapareceu num instante, e, esgotado, desabei no chão.
Dodo caiu exausta no meu colo, fechando os olhos.
Li Tong, agora pura e luminosa, olhou-me cheia de remorso:
— Desculpe, tudo isso foi culpa minha. Obrigada por me libertar do laço com meu filho. Se um dia o encontrar, por favor, poupe-lhe a vida, permita-lhe reencarnar. Xiao Zizhuo, se houver outra vida, quero ser tua mulher. Nesta, fiquei te devendo.
— Se puderem, entreguem minhas cinzas à minha mãe. Agora é tarde para me arrepender, só peço o perdão dela. Mais uma vez, obrigado...
Xiao Zizhuo permaneceu imóvel, como um toco.
Vi o corpo de Li Tong dissipar-se aos poucos, e um sentimento indefinível apertava meu peito.
— Terminou, enfim — murmurei, pegando o celular já desligado e destravando-o com dificuldade.
Nesse momento, outro telefonema entrou — era Chen Ruowei.
— Yang Sen, venha rápido, o feto maligno está prestes a romper o selo...