O sexto fantasma cria outros fantasmas.
— Vivo é yang, morto é yin! — disse-me subitamente a Pequena Borboleta, com uma seriedade incomum.
Eu, claro, não compreendia. Meu conhecimento sobre os mestres de yin e yang se limitava aos antigos especialistas em feng shui do campo; quando criança, o terceiro avô contava histórias sobre eles, quase sempre relatos dos mais velhos da aldeia.
Balancei a cabeça.
Pequena Borboleta não se irritou, ao contrário, consolou-me:
— Na verdade, eu também não entendo muito. Tudo isso ouvi da minha avó, enquanto ela falava casualmente. Mas agora, marido, você precisa prestar atenção. Apesar de eu querer que venhas logo me fazer companhia, sei que não desejas morrer tão cedo.
O que ela disse me deixou apreensivo. Se alguém soubesse que eu conversava há tanto tempo com um fantasma, seria imediatamente internado como louco. Afinal, neste mundo de avanços tecnológicos e econômicos, falar de fantasmas tornou-se motivo de escárnio.
Eu, universitário, não deveria acreditar nessas coisas, mas tudo aconteceu tão depressa de ontem para hoje que fui forçado a aceitar.
— Então... o que devo fazer agora? — mal pude acreditar que perguntava isso a um espírito.
Pequena Borboleta balançou a cabeça.
Toc, toc, toc...
Nesse momento, ouvi batidas na porta.
Meu rosto empalideceu; estava convencido de que a velha proprietária e a velha guia haviam chegado.
— Não temas, marido, é só a vovó Sun! — tranquilizou-me Pequena Borboleta.
Assenti, mas me encolhi sob o cobertor, tremendo.
Pequena Borboleta levantou-se e abriu a porta.
Não vi ninguém entrar, apenas senti um vento gelado, acompanhado de um odor pútrido.
— Humano... ou fantasma? — perguntei, trêmulo.
— Ora, não está ao seu lado? — respondeu, provocando-me um novo arrepio; encolhi-me ainda mais, examinando o quarto, mas não vi ninguém.
— Usa o ramo de salgueiro! — lembrou-me Pequena Borboleta.
Peguei então o ramo e esfreguei os olhos. Ao abri-los novamente, fiquei completamente estarrecido.
Diante de mim, estavam quatro ou cinco pessoas. A velha proprietária, entre elas, vestia um traje fúnebre, os olhos vazios e sem vida. Ao seu lado, reconheci figuras do meu passado.
Os pais e o irmão de Pequena Flor.
Senti alguém mexendo nos meus dedos e, ao virar a cabeça, vi uma menina agachada junto a mim.
Era Pequena Flor.
Estremeci de medo.
— Irmão Sen, assustei você? —
A voz de Pequena Flor era tão doce quanto na infância, mas agora ela estava pálida, vestida de vermelho, olhos rubros e sangrentos, com traços de sangue escorrendo.
— N-não... — mal contive o choro; confesso que, naquele momento, urinei nas calças.
Chi, chi, chi, chi!
Só então percebi que, na cama onde eu estava deitado, havia vários cadáveres, e o cobertor era feito de peles humanas costuradas com costelas.
Ah!
Gritei, suando em bicas, e corri para junto de Pequena Borboleta; diante dos outros, ela parecia quase normal.
— Pequena Borboleta, esconde logo teu marido, senão quando Zeng Daniu chegar será um desastre! —
Uma voz vinda da janela me fez olhar.
Quase tive um ataque; os pelos do corpo se arrepiaram, o suor escorria.
Aquele vestido vermelho agora era usado por uma mulher cujo peito estava afundado, os olhos pendiam das órbitas ensanguentadas, o rosto banhado em sangue, o pescoço torto, a hemorragia tingindo novamente o vestido.
— Não temas, marido, vou proteger-te! —
Neste momento, Pequena Flor aproximou-se de mim e falou suavemente:
— Irmã Borboleta, quer que a irmã Yang Xue venha também?
Fiquei confuso. Yang Xue? Seria a moça da minha aldeia que se enforcou?
Olhei para Pequena Borboleta, tentando decifrar os pensamentos por trás de suas sobrancelhas franzidas.
— Não é necessário, Pequena Flor. Leva Sen para o quarto ao lado. Vovó Sun, fecha logo o portão de ferro do primeiro andar. Zeng Daniu é perigoso, mas não creio que consiga passar pelo corpo do meu pai.
Vovó Sun assentiu e saiu.
Agachado, observei nitidamente seus movimentos: o corpo curvado parecia uma folha ao vento, flutuando para fora da porta.
Não ousava pronunciar palavra, pois vi que os olhos rubros da janela me observavam.
— Cada um ao seu posto! Certamente há um fantasma traidor avisando. Vou encontrá-lo! —
Pequena Borboleta encarava a janela, voz gélida, e percebi sua fúria. Toda a sensação de segurança que ela me transmitia desmoronou.
O que estava acontecendo?
Em meio ao pânico, Pequena Flor puxou-me para fora, levando-me ao quarto 14-1 do outro lado.
Lá fora, o vento era cortante, assustador.
— Irmão Sen, chega mais perto. Pequena Flor não vai te machucar.
Assim que entrei, agachei-me num canto, sem sequer analisar o ambiente, enterrando a cabeça entre os joelhos, olhos fechados.
Se soubesse, preferia não ter visto nada disso.
Vendo que eu não me movia, Pequena Flor flutuou ao meu lado, agachando-se e falando baixinho:
— Irmão Sen, há tantos anos quero te encontrar, mas irmã Borboleta disse que só poderia depois que a velha Zhang te trouxesse. Ontem, quando te acompanhei para fora, percebi que ainda eras o mesmo Sen da infância.
Apesar do medo, tentei manter a calma. Queria entender o que se passava, por que todos os conhecidos mortos estavam ali.
— Pequena Flor, pode me explicar como vieram parar aqui?
Ela abaixou a cabeça, pensativa; ao ouvir minha pergunta, ergueu-a rapidamente. Naquele instante, engoli as palavras, pois vi que ela brincava com seus próprios olhos, colocando-os de volta nas órbitas e apertando-os.
— Bem... viemos para esta cidade há dois anos, junto contigo. Este prédio foi comprado pela irmã Borboleta, que decidiu viver aqui por três anos.
— E, veja, Er Gouzi mora no décimo sexto andar; sua esposa é daqui e seu filho nasceu há dois ou três meses, chamado Gou Dan.
Er Gouzi?
Não era aquele garoto travesso com quem fui nadar no rio antigamente e que morreu afogado?
Na infância, eu e Er Gouzi éramos inseparáveis, mas ele partiu cedo.
Pequena Flor contou-me ainda sobre Yang Xue, Da Kang e outros, todos mortos da aldeia nos últimos vinte anos. Quanto mais ouvia, mais suava frio.
Yang Xue sempre foi estudiosa como eu, morava na aldeia vizinha. Era pobre, passou no vestibular para uma universidade de prestígio em Pequim, mas não pôde ir. No verão, foi trabalhar e foi violentada por um marginal. Tentaram denunciar, mas nada aconteceu. Até os pais de Yang Xue, ao irem à cidade comprar produtos, foram agredidos; ao voltar, toda a família se enforcou na velha árvore da aldeia. Agora, todos eram fantasmas enforcados.
Da Kang, de nome completo Zhang Da Kang, era o açougueiro da aldeia; há quatro anos, numa noite, caiu no rio e morreu.
— Irmão Sen, estás assustado? —
Nem precisava dizer; ouvir tudo aquilo me deixou completamente em choque. Imagine ver, numa noite, todos os conhecidos mortos reunidos diante de ti. Que estado de espírito terias? Duvido que conseguirias manter a calma como eu.
— Não temas, Sen, somos todos fantasmas criados pela irmã Borboleta!
Fiquei surpreso. Pequena Borboleta tinha tanto poder? Criar fantasmas?
Fantasma criando fantasmas?
— Neste prédio vivem muitos fantasmas salvos por irmã Borboleta. Ela disse que, daqui em diante, serás nosso líder. Quem ousar me assustar será punido com rigor pela irmã Borboleta.
— Rigor? —
Pequena Flor assentiu e explicou:
— Aqui, irmã Borboleta manda. Fantasma que não obedece é expulso, e quem comete grandes erros, ela devora!
Devora?
Quase caí de susto.
Ainda não entendi o conceito de fantasma criando fantasmas, e agora fantasma devorando fantasma.
— Mas irmã Borboleta é muito boa para todos. Nestes dois anos, não puniu ninguém.
Engoli em seco.
— E aquele fantasma de vestido vermelho na janela, Zeng Daniu, quem é? Fantasma? —
Lembro que ouvi o nome citado com apreensão pela fantasma de vermelho, parecendo haver um conflito entre ele e Pequena Borboleta.
— Zeng Daniu é o chefe do crematório em frente. Ele é um fantasma local, dizem que em vida era um marginal e foi morto por atropelamento, acumulando muita raiva. Vive no crematório; irmã Borboleta não é páreo para ele.
Um fantasma maligno do crematório?
Estremeci, gelado, quase perdi o controle novamente.