105 Quem mexeu no caixão!
Olhei o relógio; já passava das sete e o céu começava a escurecer.
— Apressem-se para encontrar alguém que possa cavar a sepultura e fazer o translado imediatamente. Caso contrário, teremos um problema gravíssimo! — Virei-me para Liu Fu com uma expressão solene.
Ao ouvir minhas palavras, o rosto de Liu Fu empalideceu. Com um ar de impotência, ele respondeu:
— Mestre Yang, veja bem, já está muito tarde. Não poderíamos deixar para amanhã? Além disso, consultei o calendário astrológico antes de sair, e amanhã é que é o dia auspicioso para isso!
Balancei a cabeça e insisti:
— É hoje, agora mesmo. Vá logo buscar homens e ferramentas. Se demorar, quando a noite cair completamente, a situação ficará incontrolável!
Percebendo que eu não estava brincando, Liu Fu assentiu e saiu para pedir ajuda e equipamentos aos vizinhos.
Entrei na sala principal. Meu filho, sentado em meus ombros, sussurrou:
— Papai, o corpo que está aqui dentro mudou!
O quê?!
Meu rosto se transformou. Apertei com força o pezinho do meu filho.
— É verdade, papai! Se não acredita, olhe ali!
Segui a direção apontada pelo dedinho dele. Ao redor da sepultura, vi várias raízes de árvore grossas e robustas. Lá fora, sob a luz fraca, eu não as tinha notado. Aproximei-me e puxei uma das raízes mais finas. Estava seca, com a seiva vital completamente drenada. Senti um frio cortante emanar dela, envolta em densas correntes de energia negativa.
Parecia que o que estava naquela tumba não apenas mudou, mas tornou-se algo extremamente perigoso. Franzi a testa, observando as raízes que brotavam incessantemente do solo.
Quando entrei nesta casa antiga, não reparei se havia árvores cobrindo-a. Nos rituais funerários, o maior tabu é enterrar alguém sob árvores. Após a morte, o corpo apodrece, liberando nutrientes que atraem as raízes ao redor. Se enterrado sob uma árvore, ela absorverá esses nutrientes, perfurará o caixão e secará o cadáver. Isso não apenas destrói o Feng Shui, mas, em casos graves, provoca uma transformação cadavérica maligna.
Peguei meu filho e corri para os fundos da casa. Lá, encontrei três árvores grandes dispostas em linha. Ficou claro que aquilo fora feito propositalmente; embora estivessem a menos de cem metros da casa, seus galhos bloqueavam toda a luz solar. Aquilo confirmou o que meu filho disse. O destino tinha sua parte, mas a mão humana era a principal responsável.
Quando voltei, Liu Fu já havia trazido três homens fortes com enxadas.
— Irmão Fu, diga como quer. É só dar a ordem que a gente faz! — disse um dos homens, musculoso, carregando a enxada para dentro da sala.
Fiquei ali parado, observando os galhos nos fundos, que começavam a balançar violentamente sob um vento gélido.
— Caramba, Irmão Fu, você instalou ar-condicionado na sala? Está um frio de arrepiar! — exclamou um dos trabalhadores.
Liu Fu franziu a testa e aproximou-se de mim:
— Mestre Yang, o céu vai escurecer a qualquer momento, e eu estou sentindo...
Eu sabia que ele também sentia o vento sombrio e estava com medo.
— Se não movermos esta tumba antes da escuridão total, duvido que você sobreviva até amanhã de manhã. Acredita em mim? — disse com frieza.
Eu não estava exagerando. Sentia que algo grande aconteceria; a coisa na sepultura já havia sentido o perigo, e o balançar das árvores era um aviso.
— Vocês, entrem logo! Lembrem-se: não importa o que vejam, não entrem em pânico. Apenas cavem!
— Irmão Fu... — Os homens hesitaram, olhando para Liu Fu na porta.
Liu Fu assentiu:
— Podem começar. Abram o caixão do meu pai. Pagarei mil para cada um, em dinheiro vivo, agora mesmo.
Ao ouvirem a quantia, não perderam tempo e começaram a cavar.
Fiquei diante da lápide, desenhei rapidamente um talismã de supressão de espíritos e colei três talismãs de dispersão de energia sobre ela. O vento gélido amainou um pouco.
Enquanto observava os homens cortarem as raízes secas — das quais escorria um líquido negro e viscoso —, minha preocupação aumentava.
— Papai, não vamos conseguir segurar esse zumbi. Melhor a gente ir embora! — sussurrou meu filho.
Balancei a cabeça. Afastei-me para ligar ao Tio Bayang. Eu sabia como proceder, mas precisava de uma confirmação; era minha primeira vez lidando com um translado desse tipo, e um erro não significaria apenas perda de reputação, mas a perda de vidas.
Quando voltei, a cova já estava aberta. Todos ficaram chocados: o caixão de mogno estava completamente envolto por raízes entrelaçadas de cânforas. As raízes haviam perfurado profundamente o solo.
— Por isso o Irmão Fu ficou rico nos últimos dois anos! Essa tumba ancestral estava conectada às veias da terra, protegendo a fortuna da família! — elogiou um dos homens, tentando bajular.
— Besteira! — retruquei rispidamente.
Fang You e Liu Fu viram aquilo e seus rostos mudaram.
— Mestre, o que é isso?
— Isso é o "caixão carregado por árvores", e não é qualquer uma. Vejam, essas raízes vêm das três grandes cânforas atrás da casa!
— As cânforas atrás da casa? — Liu Fu empalideceu.
— Não me diga que foi você quem as plantou! — respondi, sem palavras.
Liu Fu confirmou:
— O mestre de Feng Shui da época disse que, para segurar a fortuna, eu deveria plantar algumas árvores. Fiz exatamente como ele pediu. Em poucos anos, elas cresceram demais. Achei que quanto mais viçosa a árvore, mais sorte eu teria, então plantei mais algumas na frente da casa!
— Você foi enganado! — respondi.
Felizmente, ele tentou aquela pequena trapaça; embora as árvores na frente fossem pequenas, elas começaram a consumir parte da energia da terra, o que, de certa forma, limitou os movimentos do cadáver. Mas isso não era garantido. O Feng Shui é volátil; o movimento de uma pequena pedra ou árvore pode alterar todo o padrão.
— Mestre, o que quer dizer? — perguntou Liu Fu, tremendo.
Olhei para o caixão quase exposto:
— Continuem cavando, removam a terra ao redor, mas não derrubem a lápide que ancora a energia da terra.
Saí com Liu Fu e perguntei:
— Você conhece o mestre de Feng Shui que organizou o enterro do seu pai?
— Conheço. Era um grande amigo do meu pai, sócio nos negócios. Depois que os negócios dele faliram, ele começou a estudar Feng Shui para sobreviver.
Entendi tudo na hora. Disputas comerciais. O sucesso de um homem raramente agrada a todos, e ele certamente tinha inimigos. O pai de Liu Fu, sem dúvida, ofendera esse homem.
— Mestre, por que o caixão do meu pai está cheio de raízes? Ele morreu há mais de dez anos, já deveria ter se decomposto.
— O Feng Shui desta casa é excelente, especialmente esta sala. Ela está conectada às veias da terra da vila. Vocês ocuparam toda a sorte do lugar. Por acaso, vocês são a única família da vila que se deu bem lá fora?
Liu Fu pensou e assentiu:
— É verdade. Somos os únicos de Shangxigou que prosperaram. Outros jovens tentaram, mas nunca conseguiram nada, alguns até morreram longe de casa.
— Exato. Este é um "lugar de acumulação de tesouros". Aquele mestre de Feng Shui sabia disso e criou este arranjo, chamado "Acúmulo de Destino". Nos últimos dez anos, você não teve sorte constante? Ganhando na loteria, lucrando na bolsa? Nunca perdeu, não é?
A situação era mais complexa do que eu pensava. Esse padrão de Feng Shui era uma armadilha fatal: abrir o caixão significava morte certa. Ninguém faria algo tão cruel a menos que houvesse um ódio profundo.
Liu Fu assentiu, cada vez mais pálido e confuso.
— Mestre, continue. Isso tem algo a ver com o que está acontecendo? — apontou ele para os três homens que cavavam.
Suspirei fundo:
— Francamente, temo que seu pai já tenha se transformado. Não sei o estágio da mutação, mas quando tirarmos o caixão, esqueça o translado. Queime-o imediatamente. Se não, esta noite ele saltará do caixão!
Enquanto eu falava, o céu, que já estava escuro, tornou-se um breu absoluto. Vislumbrei as três cânforas balançando violentamente.
— Quem tocou no caixão?! — rugi, segurando meu filho e correndo para dentro.
Liu Fu, aterrorizado, seguiu-me. Fang You acendeu a lanterna. Os três homens estavam parados ao lado do caixão. As raízes haviam sido cortadas, mas, não sei como, alguém havia aberto uma pequena fenda na tampa do caixão...