A saliva do filho de oitenta e seis anos
Um estrondo retumbante ecoou e, de repente, uma língua de fogo surgiu diante dos meus olhos, lançada diretamente da palma da mão de Irmã Yang contra o homem de sobretudo. Num instante, o homem recuou bruscamente, agarrando um grande jarro ao seu alcance. Sem hesitar, despejou o conteúdo sobre si mesmo, extinguindo com sangue toda a chama que o consumia. Agora, ele estava encharcado de sangue, parecendo uma criatura saída de um lago carmesim.
— Então você conhece a antiga arte do Yin e Yang... Vejo que é descendente dos Antigos! — Sua voz carregava uma fúria letal, algo ausente até então.
Percebendo o perigo, agarrei Irmã Yang e corri em direção à porta.
— Fugir? Voltem aqui! — O tom rouco e cortante de sua voz penetrou meu corpo como uma lâmina. De repente, fiquei paralisado, pois uma mão esquelética e ensanguentada apertava com força meu pescoço.
No mesmo momento em que a mão me agarrava, Irmã Yang fincou com força um objeto cilíndrico, já preparado em sua mão, no braço do homem de sobretudo.
— Exploda!
O estrondo me lançou metros adiante. Por sorte, meu filho saltou no ar, evitando que eu o esmagasse na queda.
— Papai, está tudo bem? — perguntou ele.
Balancei a cabeça, levantei-me e o abracei. Ele, então, mordeu meu dedo, sugando com força.
— Yang Sen, está esperando o quê? Vamos logo! — exclamou Irmã Yang. Fiquei sem palavras; como fugir assim, com meu filho sugando minha energia a ponto de tudo ficar turvo e minhas pernas fraquejarem?
Mordi a língua, forçando-me a ficar alerta.
— Cadáver maligno, quebre o destino, transforme o sangue em espada! — bradou Irmã Yang. — Caminhe triunfante e dissipe todo o mal!
No instante em que meu filho largou meu dedo, recuperei a consciência e ouvi a voz de Irmã Yang. Avancei alguns passos e a vi ofegante, empunhando uma longa espada vermelha, gotejando sangue.
— Interessante... — murmurou o homem de sobretudo negro. Então, meu filho sussurrou ao meu ouvido: — Papai, agora é nossa vez de brilhar! Deixa comigo, vou mostrar como se faz!
Fiquei perplexo com a capacidade de imitação do meu filho. Talvez fosse melhor não deixá-lo sozinho com ninguém...
Levantei-me e, do fundo da mochila, retirei uma espada de pessegueiro, simples e comum. Dei alguns passos à frente e a brandi com força.
— Papai, é isso! Continue assim! — incentivou meu filho.
Respirei fundo e avancei, desferindo um chute que lançou o homem de sobretudo vários metros adiante. Em seguida, segurei Irmã Yang.
— Você está bem?
Ela me olhou, surpresa, depois gritou: — Cuidado!
Virei-me e, com a espada de pessegueiro, desferi um golpe contra o homem de preto.
— Filho, pare de olhar! Use seus truques, não era você quem queria mostrar serviço? — gritei, meio desesperado. O homem de preto parecia imune até à espada de sangue, e tudo que eu tinha era aquela simples espada.
— Força, papai! Acabe com ele! — respondeu meu filho, entusiasmado.
Não havia mais como recuar, então avancei, gritando, e ataquei sem hesitar.
Bum! Para meu espanto, ao desferir a espada, o homem de preto foi arremessado por mais de dez metros, rachando a parede ao bater.
Olhei surpreso para ele, que me devolveu um olhar igualmente atônito.
Meu filho então puxou minha orelha e perguntou: — Papai, consegui impressionar?
Apertei suas bochechas gordinhas e disse, rindo: — Filho, fale direito daqui pra frente.
Ele resmungou e voltou a insistir: — Papai, termine de golpeá-lo com a espada de pessegueiro!
Assenti, sentindo-me confiante. Não sabia por que aquela espada funcionava tão bem em minhas mãos, mas era suficiente para lidar com o inimigo. O motivo, por ora, não importava.
Antes que o homem de preto se levantasse, dei-lhe um chute no rosto e desci a espada de pessegueiro, decapitando-o.
Continuei a pisotear seus ossos, quebrando-os, e só depois fui ajudar Irmã Yang.
— E a Duoduo...? — lembrei, ficando pálido. Entreguei rapidamente a espada para Irmã Yang, peguei meu filho no colo e corri para dentro da casa.
Diante do grande jarro de vidro, agarrei um osso ensanguentado e bati contra o vidro até quebrá-lo. As vísceras apodrecidas rolaram para fora e, entre elas, agarrei a cabeça de Duoduo, procurando água ao redor.
— Ali... — disseram, apontando para uma porta fechada, Gou Xiaoxiao e sua amiga, encolhidas num canto.
As duas se abraçavam, trêmulas de medo. Não havia tempo a perder, arrombei a porta com um chute.
Ao abrir, não pude evitar um palavrão. O pequeno banheiro estava lotado de cabeças humanas, masculinas e femininas, todas mutiladas, olhos arrancados, ouvidos ausentes, mandíbulas arrancadas...
Enfurecido, arrombei ainda mais a porta e entrei. Abri a torneira e lavei os restos de vísceras e o fedor do rosto de Duoduo. Depois, despejei água em sua boca.
Duoduo tossiu violentamente, cuspindo algo escuro.
— Irmão... — disse ela, chorosa.
Acariciei sua cabeça encharcada e a tranquilizei: — Está tudo bem. Depois de lidarmos com esse doente, em casa vou lavar seus cabelos e passar um perfume bem cheiroso.
Duoduo assentiu e pousou no meu ombro.
— Papai, vamos sair logo! Sinto que um fantasma poderoso está chegando, parece o Taoísta de Madeira!
Meu rosto empalideceu. Se fosse mesmo ele, as coisas se complicariam. Ao menos, se o Taoísta de Madeira viesse, poderia pedir ajuda ao Tio Oito. Se fosse outro, seria ainda pior.
Peguei Duoduo e corri para fora, chamando as duas fantasmas:
— Sigam-me, vou levá-las ao Apartamento do Além!
As duas ainda hesitavam, mas meu filho resmungou: — Venham se quiserem, são só fantasmas de baixo nível.
Gou Xiaoxiao e sua amiga acenaram rapidamente.
— Mestre, pode recuperar minha roupa? Sem ela, esse monstro sempre me encontrará, não importa onde eu vá.
Assenti. Era uma boa ação e acumular méritos sempre faz bem.
Gou Xiaoxiao explicou que o maníaco vestia sua roupa. Dei mais alguns chutes no corpo dele.
— Hehehehe... Acham que vão escapar? Não há saída! Meu mestre está chegando, todos vocês vão morrer!
— Quem é seu mestre? — perguntei, esmagando sua cabeça quase solta. — Fale logo ou acabo com você de vez!
Aquele que antes era arrogante agora se via indefeso e à mercê de nossa vontade.
— Yang Sen, vamos sair logo! Tenho um pressentimento ruim! — disse Irmã Yang, levantando-se com esforço.
— Papai, deixe que Fanner cuida disso. Ele é especialista! — sugeriu meu filho.
Eu também estava curioso para ver como Fanner resolveria.
Fanner puxou minha orelha, se levantou trêmulo, olhou de cima para baixo para o maníaco e disse, com voz infantil:
— Agora só precisa fazer duas coisas: diga o nome do seu mestre e tire imediatamente essa roupa ensanguentada!
— Bah! Quem você pensa que é? — retrucou o homem, mesmo com a cabeça esmagada.
Sem dizer nada, meu filho cuspiu nele.
O crânio começou a derreter, enquanto meu filho se preparava para cuspir novamente.
O maníaco gritou de dor, tentando fugir com a própria cabeça nas mãos.
— Rápido, não temos tempo! — apressou meu filho.
Nesse momento, entendi por que minha espada funcionou tão bem: era graças à saliva do meu filho! Um verdadeiro tesouro—preciso guardar um pouco para emergências.
Desesperado, o maníaco tirou a roupa ensanguentada e revelou o nome do seu mestre.
Ao ouvir o nome, um calafrio percorreu minha espinha. Não era o Taoísta de Madeira, mas outro: Ventofalha.
Não sabia quem era, mas Irmã Yang, ao ouvir o nome, ficou aterrorizada:
— Yang Sen, precisamos sair agora!
Assenti. Quando ia me levantar, meu filho saltou do meu colo e, com um único golpe, esmagou a cabeça do maníaco.
— Ousou chamar Yang Fanner de insignificante? Morra!
...
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