O Rei dos Mortos número noventa brandiu sua foice de vento.
— Desta vez, encontramos um verdadeiro adversário. Se esse zumbi for mesmo como Sen disse, temo que não seremos páreo para ele! — comentou Chen Balio, olhando para a vala repleta de corpos decapitados, enquanto acendia um cigarro. Deu uma tragada profunda. Ao lado, Xiang Wenti permaneceu em silêncio, mas ao ouvir as palavras de Chen Balio, seu rosto ficou ainda mais carregado.
— Faça todos se afastarem, pelo menos cem metros daqui. E limpe todos esses objetos espalhados. Depois, espalhe sangue de galinha, pato ou porco ao redor. O restante, não se preocupe — disse Zhao Banxian, ao ver Chen Balio acender o cigarro, voltando-se então para Xiang Yangtian.
Xiang Wenti acenou com a cabeça e se virou para partir.
— Além disso, ordene a seus homens que fechem bem o perímetro. Depois das oito da noite, ninguém entra aqui — acrescentou Chen Balio, virando-se.
Xiang Yangtian imediatamente concordou e saiu junto de Yang Jie. Pelo olhar de ambos, era evidente que tinham noção da gravidade da situação: afinal, havia ali novecentos e noventa e nove corpos decapitados, o peso da responsabilidade era imenso. Eles, sendo experientes, logo perceberam a gravidade e começaram a preparar tudo.
Chen Balio e Zhao Banxian acenderam mais um cigarro cada um e ficaram observando, absortos, o covil de cadáveres. Eu, por minha vez, procurei um canto menos imundo para descansar. Não havia dormido na noite anterior e hoje passara o dia todo andando. Mesmo tendo tomado leite de espírito, sentia-me esgotado.
Sem perceber, adormeci ali, com a cabeça apoiada nas mãos.
— Sen, acorde, acorde! Já são oito horas, temos que começar! — ouvi a voz do tio Balio, meio sonolento. Sentei-me de imediato.
Ai, meu pescoço... Provavelmente por ter ficado muito tempo naquela posição, não consegui levantar de primeira, sentindo dores no pescoço e na cintura.
Já era noite cerrada, e além da luz da lua, que emprestava um brilho pálido a Mu Bai, não havia cor alguma. O tio Balio me entregou uma garrafa de água quente e alguns pedaços de pão seco.
— Coma um pouco, senão não terá forças para o que vamos enfrentar.
Agradeci com um aceno e comecei a comer com voracidade — realmente estava com fome. Depois de comer, já me sentia melhor e movimentei o corpo para espantar o torpor. Olhei ao redor, notando as mudanças: o chão, antes coberto por cal e cinábrio, agora estava encharcado de sangue de animais, com vísceras e restos espalhados aqui e ali.
A enorme fossa permanecia coberta por uma lona espessa de pelo menos um metro, sob a qual havia arroz glutinoso embebido em água de talismã e cinábrio. Cordas presas aos quatro cantos convergiam para uma estaca central — no momento certo, bastava cortá-las para que todo o arroz caísse de uma só vez, enchendo a vala de imediato.
— Agora precisamos posicionar estes oito bonecos de papel nos oito pontos cardeais. Se o zumbi aparecer esta noite, quero garantir que jamais saia daqui! — disse Chen Balio, fitando a lua minguante no céu.
Dividimos as tarefas e logo tudo estava pronto. Por precaução, Zhao Banxian ainda traçou linhas de água de talismã com tinta de caligrafia.
Já eram dez horas da noite. Sentamo-nos em posição de lótus, aguardando o aparecimento do zumbi.
— Tio Balio, e se o zumbi não vier hoje? — perguntei, já entediado com a conversa entre eles, enquanto eu dialogava só com Dodo.
Chen Balio esboçou um raro sorriso frio:
— Se ele não vier hoje, esperamos. Se não aparecer hoje, amanhã virá com certeza.
— Fique atento, rapaz. Se meu irmão disse que virá, virá mesmo. Quando examinei o corpo fresco da mulher decapitada, percebi que a formação do campo de energia cadavérica havia sido concluída há poucos dias. Estes próximos dias são cruciais para que a criatura ganhe força, por isso estou certo de que aparecerá esta noite. Se ousar vir, vamos capturá-lo — declarou Zhao Banxian, levantando-se, jogando fora a bituca e acendendo outro cigarro, oferecendo também um a Chen Balio.
— Capturar? — indaguei, incrédulo. As conversas deles sempre pareciam fantasiosas. Se esse zumbi realmente enfrentou o mestre insano, Feng Lian, ontem à noite, seria realmente complicado. O senhor Liu disse que o tal Feng Lian é perigosíssimo.
— Exatamente. Caso contrário, não teríamos montado tudo isso. Bastaria usar o Canhão Esmagador de Cadáveres do Dai Ye e explodir o zumbi em pedaços! — resmungou Zhao Banxian, ao que lancei um olhar de reprovação. Ele adorava exagerar, mas eu duvidava que esse tal canhão fosse suficiente para eliminar um zumbi desse tipo; para mortos-vivos comuns, talvez, mas zumbis são outra história. Ontem mesmo, Yang Jie usou armas parecidas e não obteve sucesso.
— Não acredita? Pergunte ao meu irmão. Já lhe disse por telefone que, se conseguirmos capturar esse zumbi, estaremos feitos. Você sabe o quanto um zumbi pode ser poderoso? Se conseguirmos controlar um com técnicas secretas e treiná-lo, caçar fantasmas e matar monstros será fácil como tirar doce de criança!
Zhao Banxian falava cada vez mais entusiasmado, mas eu só sentia que a noite seria perigosíssima para mim. Será que pretendiam me usar como isca, para atrair o zumbi? Lancei um olhar desconfiado para Chen Balio, que pensativo, fumava ao lado.
Percebendo meu olhar, ele respondeu de imediato:
— Consultei imediatamente nossos superiores e outros colegas da agência. Todos concordaram com o plano. Inicialmente, Cong Feng e Dai Ye viriam comigo, mas acabaram sendo enviados para uma missão urgente em Shanxi.
Dei de ombros, trocando um olhar surpreso com Dodo.
Foi então que Dodo, de repente, mudou de expressão. Pousou rapidamente em meu ombro e sussurrou:
— Irmão, ele chegou. É exatamente a mesma presença imensa e assustadora de ontem à noite.
Meu rosto se contraiu. Então era o próprio Feng Lian.
Ao mesmo tempo, Chen Balio e Zhao Banxian também se puseram de pé. Zhao Banxian abriu a mochila e tirou três espadas feitas de moedas de cobre, entregando uma para mim e outra para Chen Balio.
Peguei a espada e me coloquei ao lado do tio Balio, enquanto Zhao Banxian se posicionou na linha de frente.
O chão estava coberto de sangue seco e o cheiro fétido era quase insuportável.
A luz da lua, fria e pálida, tingia tudo de uma penumbra sinistra.
Foi então que senti uma onda de energia sinistra e violenta se aproximando. De uma árvore próxima, um vulto saltou — não era um homem, mas um zumbi.
O som de sua respiração era como o bufar de um boi, cada inspiração acelerando meu coração.
Gradualmente, avistei o zumbi avançando pelo chão encharcado de sangue.
Diferente dos zumbis de pelos vermelhos que já vi, este parecia um vampiro. Não vestia as roupas típicas da dinastia Qing que costumamos ver em filmes, mas sim um sobretudo vermelho sangue. Seu cabelo estava eriçado para cima, lembrando o personagem Benimaru Nikaido daqueles jogos de luta, exceto que seus fios eram da cor do sangue. Sob a capa, quase não restava carne, apenas ossos expostos como o do homem que vi ontem, mas envoltos por uma camada viscosa de pele.
— Que criatura é essa? Não se parece em nada com os zumbis que vimos antes! — murmurou Zhao Banxian, visivelmente menos confiante do que antes.
Chen Balio também estava tenso e ordenou em voz baixa:
— Banxian, recue!
Zhao Banxian assentiu, mas antes que pudesse se mover, o zumbi atacou. Sua velocidade era impressionante. Nem mesmo o tio Balio conseguiu reagir: ele apenas piscou e já estava de volta ao mesmo lugar, enquanto Zhao Banxian era agarrado pelo zumbi, que já cravava suas garras afiadas perto da garganta do exorcista.
— Nada mal, conseguiu escapar da minha primeira investida — disse o zumbi de sobretudo vermelho. Sua voz não era desagradável, era encorpada, diferente da rouquidão daquele homem da noite anterior. Só ao falar ele abriu os olhos, mostrando um vermelho pálido; se olhássemos só o rosto, até poderíamos considerá-lo atraente.
Fiquei atônito. A velocidade era absurda, sequer consegui reagir. Num piscar de olhos, senti uma rajada de vento gélido e, ao abrir os olhos, Zhao Banxian já estava preso nas garras do zumbi.
Ele permanecia imóvel, sem ousar mexer um músculo.
— Quem é você? Pelo que vejo, é um zumbi com pelo menos quinhentos anos — disse o tio Balio, postando-se à minha frente.
Apesar de parecer calmo, eu sabia que ele já calculava um modo de escapar.
— Vejo que tem olhos atentos. Sou chamado Feng Lian.
Era mesmo Feng Lian! Eu já suspeitava, mas ouvir o nome me deixou gelado.
— Feng Lian... — repetiu o tio Balio, balançando a cabeça. Ele claramente não conhecia a fama desse rei zumbi — um verdadeiro fóssil.
— Não importa que não me conheçam. Quando todos estiverem mortos pelas minhas mãos, lembrarão. Quem se atreve a me atrapalhar, morre! — e, dizendo isso, ele moveu os dedos, prontos para atravessar o crânio de Zhao Banxian.
Nesse momento, Chen Balio avançou, largando a espada de moedas e sacando uma espada flexível da cintura, apoiando-a sobre a corda esticada.
— Solte-o, ou destruirei todos os cadáveres deste covil!
O rei zumbi chamado Feng Lian estremeceu, e o brilho vermelho em seus olhos intensificou-se.
A energia sinistra me atingiu violentamente; quase perdi o equilíbrio, mas o tio Balio permaneceu firme diante da estaca, espada flexível em punho, como um espadachim lendário, imóvel diante da tempestade.