Perseguindo Vestes
No dia seguinte, bem cedo, peguei meu filho nos braços, levei Duoduo e deixei o crematório, mas não voltei para a escola. Em vez disso, fui para um lugar nos arredores de Chengdu chamado Vila da Família Luo.
Na noite anterior, depois de descansar um pouco no apartamento, chamei Li Da e perguntei sobre sua família. Ao ouvir sua história, fiquei profundamente tocado.
Li Da era bombeiro e atuava frequentemente na linha de frente. Nove anos atrás, numa ocorrência de incêndio, havia dezenas de botijões de gás no local que não foram retirados a tempo. Uma nova explosão ocorreu. Apesar dos esforços de Li Da para salvar sua vida, ele não resistiu ao acidente. Tinha apenas vinte e seis anos quando morreu, ainda não era casado, acabara de começar a namorar.
No início, ele até tentou aparecer em sonhos para sua mãe, pedindo que ela cuidasse da saúde. Mas percebeu que isso faria com que a energia negativa tomasse conta dela, então passou a apenas ficar parado todas as noites na porta de casa, observando. Com o tempo, como permaneceu muito tempo no mundo dos vivos, sua essência espiritual se dissipava cada vez mais. Depois de muito procurar, encontrou um apartamento no mundo dos mortos, onde se juntou a esta nova família. Esse apartamento abria todas as noites, das onze até uma da manhã. Nesse horário, muitos novos espíritos entravam e foi nesse momento que Li Da chegou.
Chengdu é uma cidade muito grande. Fui até a rodoviária, peguei um ônibus e só cheguei à Vila da Família Luo perto do meio-dia. A vila é relativamente próxima de Chengdu, provavelmente como a Vila do Campeão. Assim que desci, perguntei onde era a casa da família de Li Da.
A maioria dos habitantes da Vila da Família Luo tem o sobrenome Luo. A família de Li Da mudou-se para lá na geração do avô, cuja origem era de Hubei. O avô era médico, estabeleceu-se na vila e tornou-se o médico local, formando família ali. Mas a sorte da família não era das melhores: os avós de Li Da morreram cedo e tiveram apenas uma filha, que acabou se casando com um camponês da vila. O casal trabalhou duro para que Li Da estudasse na cidade. Quando ele estava no último ano da universidade, pronto para se formar, seu pai morreu num acidente no canteiro de obras. Pela tragédia, sua mãe chorou tanto que ficou cega. Mesmo tendo conseguido um emprego estável, o trabalho de Li Da era perigoso e tinha pouco tempo livre. Por isso, sua namorada da época terminou com ele. Mas, quando finalmente encontrou uma nova companheira, planejando apresentá-la à família no Ano Novo, foi chamado para uma missão e acabou morrendo no incêndio, tornando-se um espírito errante.
Várias vezes ele poderia ter seguido as lanternas do Festival dos Fantasmas para reencarnar, mas não quis. Esperava que alguém pudesse aliviar completamente o ressentimento em seu coração, permitindo-lhe seguir o caminho da reencarnação, ainda que renascesse como um animal, só para ficar ao lado da mãe.
Mais tarde, a Pequena Borboleta explicou-me que apenas quem realmente segue o caminho da reencarnação pode escolher sua próxima vida. Para renascer como humano, é preciso esquecer a vida passada, mas quem acumulou virtudes e deseja renascer como animal pode escolher se bebe ou não a sopa do esquecimento. Por isso, tantos espíritos ressentidos não conseguem atravessar o túnel da reencarnação.
Quando cheguei à casa de Li Da, vi sua mãe sentada no batente da porta, já um pouco gasto.
Esse tipo de casa só via em minha terra natal: paredes de terra, batente alto. E ali estava a mãe de Li Da, sentada, como se tivesse ouvido minha chegada.
— É você, irmã Luo? — perguntou ela, inclinando a cabeça e encostando a mão no ouvido, tentando ouvir melhor.
Não respondi. Caminhei até ela. Vi aquela mãe de olhos semicerrados, o rosto profundamente marcado pelo sofrimento, a expressão de quem viveu tantas agruras. Suas mãos trêmulas estavam cheias de cicatrizes, e ela, tentando ouvir melhor, quase usava o nariz para perceber minha presença.
— Senhora, sou grande amigo de Li Da!
— Li Da! — A expressão da mãe mudou de repente. Aquela face sofrida mostrou surpresa e incredulidade. — Amigo do meu filho? Também é do corpo de bombeiros?
A voz dela era surpreendentemente calma. Fiquei imaginando quanta coragem era necessária para uma mulher que viveu uma vida de tanto sofrimento dizer isso. Nove anos... talvez todos já tivessem esquecido Li Da, menos uma pessoa: sua mãe. O sofrimento de uma mãe que enterra o próprio filho só quem passou pode entender.
— Sim, senhora. Chamo-me Zhang Fa, sou grande amigo de Li Da. Logo depois de conhecê-lo, fui transferido para outro estado. Só agora estou de volta. Li Da apareceu em meus sonhos há poucos dias, pedindo que viesse ver como a senhora está.
Diante daquela mãe, tive de inventar uma bela mentira. Nessa mentira, cabia meu afeto por Li Da e sua mãe, e também o vazio que sinto por ele.
— Está bem, está bem. Meu filho se foi há nove anos, dez meses e nove dias. No início, ainda podia encontrá-lo em sonhos. Depois, ele foi deixando meus sonhos. Sei que ele foi reencarnar. Desde pequeno era obediente, nunca fez mal a ninguém. No fim, ainda servia ao povo. Morreu por uma causa justa. No começo, eu não aceitava, mas aos poucos entendi — era o destino. Talvez eu seja uma pessoa infeliz, mas é assim: o que está destinado, acontece; o que não está, não se força.
Falava com resignação, mas reparei em suas mãos trêmulas. Cada vez que pronunciava o nome do filho, seus lábios estremeciam, tentando se conter.
Naquele instante, vi Li Da, também com o rosto tomado pela dor, parado no interior escuro da casa.
Suspirei e disse: — Senhora, vamos entrar, está ventando aqui fora.
Na verdade, não havia vento. Eu só queria ampará-la até dentro, para que Li Da pudesse ver a mãe de perto. Durante todos esses anos, ninguém o levou para fora do apartamento dos mortos, pois ele não podia sair. Se o fizesse, sua energia se dissiparia rapidamente. Só estava ali porque eu carregava o talismã dele comigo.
Ela nada disse, deixou-se conduzir até dentro.
A casa era simples, mas limpa, sem cheiro algum. No centro, encostados na parede, estavam os altares de Li Da, seu pai e seus avós. Li Da estava parado ao lado de seu altar, o rosto tomado pela tristeza; parecia que chorava sangue.
— Senhora, como passou todos esses anos sozinha?
Olhei ao redor, nem cozinha havia. Fiquei pensando como ela sobrevivera nesses nove anos.
Vi Li Da ao lado dela, passando a mão nos cabelos brancos e secos da mãe.
Não sei por que, mas meu coração estremeceu de repente.
— Meu filho, é você? Voltou? — Um brilho de alegria surgiu no rosto dela.
Li Da ficou em silêncio atrás da mãe e me disse: — Mestre Yang, poderia tirar uma foto minha com minha mãe?
Assenti. Sabia que os equipamentos modernos de projeção podiam captar fantasmas, mas isso prejudica muito sua essência. Mesmo hesitante, peguei o celular e tirei uma foto de Li Da junto à mãe. Assim que bati a foto, a imagem de Li Da desapareceu.
Nesse instante, uma mulher de meia-idade entrou, falando alto:
— Senhora Li Da, venha comer...
Aproveitei e, sem ser visto, escondi-me atrás da porta. Quando a mulher entrou, saí rapidamente da casa.
— Senhora Li Da, por que está chorando?
— Vi meu filho... Ele disse que vai reencarnar e pediu que eu cuide bem de minha saúde. Disse que vai voltar para ficar comigo para sempre... — Ao dizer isso, aquela mulher de pouco mais de cinquenta anos, mas com a tristeza de uma octogenária, desabou em lágrimas.
Naquele momento, já estava fora do quintal, mas podia imaginar a cena. Olhei para a foto no celular: na penumbra, Li Da aparecia com um semblante de alívio. Eu sabia que ele finalmente poderia seguir o caminho da reencarnação.
Afastei-me bastante, olhei de volta para aquela vila simples. O sol ainda brilhava na tarde. Camponeses já voltavam dos campos.
Quando voltei a Chengdu e almocei, já passava das quatro da tarde. Peguei um ônibus e fui até o escritório de Zhao, o Mestre Meio Imortal, para falar sobre o caso da roupa ensanguentada. Ele me deu uma longa lição, dizendo que eu me metia demais em assuntos alheios e só fazia coisas que não davam lucro. Não retruquei. Sabia que ele temia que eu me envolvesse em muitos karmas e tivesse um fim trágico.
Peguei algumas ferramentas com ele e saí da funerária. Assim que saí, recebi uma ligação da policial Yang, que ontem havia me procurado. Ela contou que naquela manhã houve outro caso de suicídio na escola técnica de Gou Xiaoxiao.
A vítima era a melhor amiga de Gou Xiaoxiao. Encontraram o corpo completamente nu, gelado como gelo, sem alma — que fora levada por alguém.
Fiquei chocado. Perguntei detalhes. Yang disse que já tinha pistas sobre o horário e região onde aparecera a roupa ensanguentada, pedindo que eu fosse ajudá-la imediatamente.
Ser comandado por uma mulher que só vira uma vez era estranho, mas, para resolver logo o caso, levei meu filho ao distrito policial. Na porta, Yang já me esperava. Assim que desci do carro, ela me puxou para o seu veículo e partiu rapidamente.
— Yang, para onde vamos com tanta pressa?
— Atrás da roupa ensanguentada!