O oitenta e oito sem cabeça
O último capítulo de Penhasco Negro já foi atualizado. Assim que ouvi a notícia, senti um pressentimento ruim, e Zhao, o Meio-Imortal, também ouviu a voz ao telefone.
— O que aconteceu para ser tão urgente?
— Tio Zhao, vamos deixar a refeição para depois. Precisamos ir até a delegacia primeiro, no caminho eu te explico.
Na noite anterior, havia deixado meu filho sob os cuidados de Xiaodie, então ele não estava comigo nesse momento. Se algo inesperado acontecesse, eu teria ficado inseguro, por isso preferi chamar Zhao, o Meio-Imortal, para me acompanhar.
Sem hesitar, ele concordou e juntos pegamos um táxi. Fomos direto para a delegacia.
Na porta, tal como da última vez, vi a irmã Yang com uma expressão de grande ansiedade. Mas agora ela parecia ainda mais aflita.
— Quem é este…?
— É meu tio Zhao, também é do ramo!
Ela assentiu e nos chamou para entrar no carro. Assim que entramos, explicou:
— Yang Sen, hoje cedo recebemos uma denúncia de um local chamado Vale da Família Zhang, nos arredores de Chengdu. Encontraram uma quantidade enorme de cadáveres!
— Uma quantidade enorme de cadáveres? — Senti um calafrio percorrer meu corpo.
— Exato. Aqui estão as fotos que meu pai me enviou hoje de manhã. Ele disse que, assim que receberam a denúncia, foram imediatamente ao local. O caso já está sob sigilo absoluto. Isso não foi obra de humanos!
Peguei o celular da irmã Yang e, ao olhar as fotos, meu rosto mudou drasticamente. O Penhasco Negro é nosso maior apoio, obrigado!
Nas imagens, vi que todos os corpos estavam mumificados. Além disso, todos haviam sido decapitados. Havia, ao menos, centenas de cadáveres. O que me deixou ainda mais perplexo foi que todas as cabeças eram de mulheres — não vi um só homem.
Passei o celular para Zhao, o Meio-Imortal, que franziu o cenho ao ver as imagens.
— Meu pai já analisou o caso hoje cedo. Ele acha que foi obra de zumbis!
— Zumbis? — Senti um novo calafrio. Lembrei-me do que o senhor Liu me dissera na noite anterior sobre alguém chamado Foice de Vento, um homem da dinastia Qing. Se ele realmente ainda estivesse vivo, certamente seria uma existência sobrenatural — um zumbi.
— Isso mesmo, só um zumbi seria capaz de sugar o sangue dessas pessoas de forma tão completa. Tenho certeza de que esse zumbi já existe há muitos anos para ser capaz de cortar as cabeças e selar todo o qi da morte nelas, evitando que os sugados se transformem em zumbis. Não é um zumbi qualquer! — disse Zhao, devolvendo-me o celular.
Assenti. Se tudo aquilo realmente fosse obra de um zumbi, a situação era muito mais complicada do que eu imaginava, já que eu não tinha experiência alguma em lidar com criaturas assim.
Durante o trajeto, ninguém disse palavra. Minha mente girava em torno do tal Foice de Vento mencionado por Liu. Dentro de Chengdu, os únicos zumbis de que eu tinha notícia eram o próprio Foice de Vento e seu mestre, Wang Qian, que soubera apenas na noite anterior. Mas, pelo que Liu explicara, aquele zumbi provavelmente era mesmo Foice de Vento, pois Wang Qian era uma existência absolutamente misteriosa — para alguém como ele, um caso desses seria trivial.
Duas horas depois, chegamos ao destino: Vale da Família Zhang.
Esse local era diferente das duas aldeias das redondezas que eu já visitara. O Vale da Família Zhang estava visivelmente mais desenvolvido, abrangido pelo projeto da Nova Zona Rural; todas as casas tinham acesso a estradas pavimentadas e eram casarões modernos.
O desenvolvimento do projeto levou inúmeros empreiteiros de fora a erguerem construções no vale. E foram justamente esses operários que, ao cavar os alicerces de um prédio, encontraram os cadáveres.
Quando chegamos, a polícia já havia isolado toda a área. Sem a presença da irmã Yang, não teríamos conseguido entrar. Um caso assim, se vazasse para a imprensa, seria notícia de capa — prejudicaria o desenvolvimento local e faria a população temer ainda mais a cidade de Chengdu. Por isso, logo que a denúncia chegou, o sigilo foi absoluto. Felizmente, tudo aconteceu ao amanhecer, e a notícia foi abafada a tempo — quase nenhum morador sabia do ocorrido.
Ao entrar, a primeira coisa que vimos foram círculos de cal espalhados no solo, exalando um cheiro estranho.
— Vamos, precisamos ver de perto! — disse Zhao, o Meio-Imortal, com as sobrancelhas cerradas, tomando a dianteira.
Logo avistei o policial de meia-idade, Xiang Wentian, que viera ao nosso encontro. Ao ver Zhao, o semblante sombrio se iluminou e ele estendeu a mão:
— Mestre Zhao, que alívio que veio!
Senti um certo desdém — Zhao, o Meio-Imortal, era famoso, mas eu achava que ele ficava atrás de Da Ye e Tio Oito Liang.
— Xiang, se você assumiu esse caso, como eu poderia faltar? E te digo: essa situação não é fácil. Já me informei por alto com sua filha no carro.
— De fato, é um caso complicado…
— Não se preocupe, farei o possível para te ajudar — disse Zhao, apertando finalmente a mão do policial.
Xiang sorriu, e cochichou algo no ouvido de Zhao, que assentiu e respondeu:
— Entre nós, tudo se resolve, basta transferir para a minha conta.
Ao ouvir isso, entendi o teor da conversa.
A irmã Yang parecia acostumada, mas não conhecia bem Zhao. Virou-se e perguntou:
— Yang Sen, seu tio Zhao é tão competente assim?
Assenti — afinal, o prestígio dele agora era também o meu.
— Então está ótimo. Confio em você. Mas, por que seu filho não veio?
Sorri:
— Ele saiu para brincar com a mãe!
Ela assentiu e nos conduziu até o local do crime.
Chegando lá, ninguém se aproximava a menos de dez metros do buraco, que estava todo cercado de cal. Nas bordas, uma camada espessa de cinábrio chamava atenção. Admirei a coragem da polícia — não economizaram nem no cinábrio, que é o melhor para conter o qi dos mortos, mais eficaz até que arroz glutinoso. Claro, dentro do buraco também haviam despejado cerca de cem quilos de arroz.
No início, achei tudo aquilo exagerado e um desperdício. Mas, ao ver o buraco com cerca de cem metros de diâmetro, meu coração apertou. Quando percebi os corpos amontoados, fiquei arrepiado.
No buraco, de cerca de três metros de profundidade, só havia corpos — amontoados em todas as direções. Pelo que dava para perceber, eram todos de mulheres, de idades variadas — até bebês. Senti revolta ao notar que até os recém-nascidos foram sugados e decapitados.
Diante do buraco, só conseguia sentir o mau cheiro nauseante — alguns corpos já apodreciam, outros ainda estavam “frescos”.
A irmã Yang teve que se virar e apoiar-se, tentando controlar o enjoo.
— Xiang, quando chegou, o buraco já estava assim?
— Não — respondeu ele. — Recebemos o chamado às seis e cinquenta. Logo percebi que era um caso grave e trouxe a equipe. O dono da obra estava em choque, os operários também, mas conseguimos contê-los. Para limpar a área, chamei gente do nosso grupo especial. O estranho é que, ao cavar, não havia tampa alguma sobre o buraco, nem terra dentro dele. Quando abrimos por completo, percebi uma barreira de energia mágica sobre os corpos. Da primeira vez que joguei arroz glutinoso, ele ficou flutuando no ar!
Fiquei impressionado com a eficiência da polícia, mas o que realmente me espantou foi ouvir falar em barreira de energia mágica.
— Xiang, você se meteu numa enrascada! — exclamou Zhao, o Meio-Imortal, ao ouvir o relato.
— Por quê? — Xiang, claramente também um mestre de Yin-Yang, embora de habilidade inferior a Zhao, pediu explicação.
— Veja o número de corpos. Se não me engano, trata-se de um túmulo de mil pessoas. Este buraco tem nove metros de diâmetro, e, pelo número de corpos, são novecentos e noventa e nove — o número nove usado em rituais para forjar artefatos malignos. Alguém muito poderoso estava criando um artefato sinistro aqui. Como você disse, já havia uma barreira mágica: isso significa que o número estava completo. Bastaria aguardar oitenta e um dias para concluir o ritual. Agora, ao abrir o local, todo o esforço do responsável foi por água abaixo. O que você acha que ele fará?
— Vai tentar de novo?
— Tentar de novo? Xiang, acha fácil arranjar quase mil cadáveres? A primeira coisa que fará será vir atrás de você e dos trabalhadores da obra, para matá-los a todos! — Zhao não estava exagerando. Foi assim com o Feto Maligno: ao despertar, sua primeira ação foi procurar Li Tong. Depois de nove vidas de reencarnação, finalmente conseguira uma chance de nascer, mas foi impedido e só pensava em matar.
Quem consegue forjar um artefato tão aterrador certamente não é alguém comum.
Zhao, o Meio-Imortal, abaixou-se e pegou um dos corpos mais recentes. O sangue ainda estava fresco, o corpo seco como lenha. Ele mordeu o próprio dedo e pressionou o corte sangrento no pescoço do cadáver — imediatamente, uma fumaça negra começou a sair do ferimento.
— Xiang, desta vez, o caso é realmente grave!
— Eu diria que esses pescoços não foram cortados por lâminas, mas arrancados à dentada! — Zhao examinou o pescoço do cadáver sem cabeça, depois o jogou de volta ao buraco. — E foi uma mordida só. A situação é terrível, preciso telefonar ao meu irmão para que volte logo!
Acompanhe o próximo capítulo no endereço habitual para saber mais. O Penhasco Negro traz a atualização mais rápida da web.