Sangue sombrio surge, o feto espectral desperta
Na infância, o travesso Zé Duas, que brigava comigo todos os dias, agora se agarrava desesperadamente à perna amputada do velho Tadeu, abocanhando pedaço por pedaço, tal qual fazíamos nos natais da infância, roendo o pernil de porco. Mas atrás do velho Tadeu, uma horda de espectros ensanguentados do crematório avançava, dilacerando os corpos de anciãos que me pareciam ao mesmo tempo familiares e estranhos.
“Fátima, larga isso!”
Entre soluços, ela me implorou: “Corre, irmão Sérgio, não olhe para trás!”
Fátima continuava agarrada à minha perna, e vi em seu rosto banhado de lágrimas a mesma expressão de quando, na escola, era intimidada por outros meninos. Meu coração se partiu de dor e medo, não do sobrenatural, mas do temor de perder novamente aqueles que eu apenas começava a entender.
“Fátima, me diz o que fazer! Você já é fantasma há mais de dez anos, deve saber!”
Passei a mão em sua cabeça. Ela continuava com aquele ar meigo da infância, apenas com um toque espectral.
“Irmão Sérgio, você... você consegue me ver?”
Ela se mostrou surpresa, mas logo apertou ainda mais minha perna.
“Rápido, entra! Este portão de ferro foi criado pelo pai de Marília. Nem Tadeu ousaria cruzá-lo. Logo vai amanhecer. Se resistir até lá, estará a salvo!”
“A salvo? Fátima, crescemos juntos, sabe bem quem sou. Mesmo que escape esta noite, acha que dormirei em paz? E amanhã, Tadeu me pouparia?”
Ela não respondeu, continuando a me apertar com força.
Não sei por que de repente comecei a ver outros fantasmas, mas até achei bom. Com esforço, puxei seus dedos, chegando a quebrá-los. Fátima chorava cada vez mais desesperada.
No instante em que Tadeu erguia a espada de madeira, prestes a acertar Zé Duas na cabeça, avancei como uma flecha, acertei-lhe um soco no olho ensanguentado e arranquei-lhe a espada das mãos.
O objeto, agora em minhas mãos, não me afetava. Mas, nesse momento, Marília agarrou meu pulso e, com as unhas afiadas, perfurou a espada.
“Larga!”, ordenou, irritada.
Imediatamente obedeci. No momento em que a espada caiu ao chão, transformou-se em um pedaço de esterno, coberto de símbolos rubros.
“Amor, pisa logo!” — gritou Marília.
Assenti, ergui o pé e esmaguei o osso. O estalido foi seco e o rosto de Tadeu mudou de expressão.
“Hahaha! Então é verdade o que dizia o Monge de Madeira: você é mesmo precioso, não é à toa que Marília se interessou por você. Mas hoje vou devorá-lo. Ao fazê-lo, me tornarei o Rei dos Fantasmas do Sul, controlando todas as almas!”
Tadeu apanhou do chão um olho, coberto de carne, e enfiou-o na órbita vazia.
Apesar do nojo, a mente se acostuma; já não sentia tanto terror ou repulsa. Não tive tempo de refletir sobre as palavras de Tadeu, pois logo vi uma cena que não compreendi: ele, de súbito, disparou em fuga, mergulhando no meio da multidão de espectros do crematório. Muitos fugiram, mas uma boa parte — membros decepados, cabeças rolando — foi agarrada e devorada por Tadeu, que os enfiava goela adentro.
Vi claramente a aura de rancor crescendo ao seu redor.
“Corram, todos!”, gritou Marília, apavorada, tentando conter as próprias feridas enquanto guiava as pessoas para dentro do prédio.
“Amor, entre também! Depressa!”
Não me movi. Permaneci ao lado de Marília, segurando sua mão ensanguentada.
“Se você diz que sou seu, tenho o dever de protegê-la!” — falei, tentando soar corajoso, embora o velho Zé Paranormal já tivesse me alertado: esta noite seria decisiva; se escapasse, viveria, senão, morreria.
Sabia que fugir só adiaria o inevitável. Se Tadeu devorasse todos aqueles espectros vingativos, Marília jamais encontraria paz, e mesmo que escapasse hoje, o que seria do amanhã? Quem me protegeria na próxima noite?
Não podia recuar. Era hora de lutar.
Dizem que o homem teme o fantasma, mas o fantasma teme o homem ainda mais. Quando demonstrei coragem, Tadeu hesitou por um instante, mas logo voltou a devorar freneticamente os espectros menores.
“Amor, desse jeito não temos a menor chance!” — disse Marília, jogando um balde de água fria no meu ânimo. Mas, se ela falou assim, é porque tinha um plano.
“Diga o que fazer para acabar de vez com esse Tadeu!”
Eu sabia que aquele era um fantasma de ódio profundo, impossível de convencer ou exorcizar por meros rituais como nos dramas da TV. Era preciso destruí-lo completamente, do contrário ele nos atormentaria para sempre.
“Amor, quer arriscar tudo?”
Sua voz trazia uma centelha de esperança.
“Amor, tem medo da morte?”
Quando eu ia responder que sim, ela completou a pergunta. Engoli as palavras. Quem não teme a morte? Eu ainda era virgem, morrer assim seria um desperdício.
“Não há mais tempo. Decida logo! A energia de rancor de Tadeu está quase plena. Se isso acontecer, nem o dia o deterá. Então estaremos perdidos!”
Um arrepio percorreu meu corpo.
“O que quer dizer com arriscar tudo?”, perguntei, já sem coragem alguma.
Fazer trato com fantasmas normalmente é vender a alma; ou seja, fim de linha.
“Amor, só lhe restam pouco mais de três meses de vida, e mesmo esse tempo me pertence — é emprestado. Se aceitar o risco, poderá recuperar seu destino. Você nasceu sem tempo de vida, mas, tornando-se um verdadeiro xamã das sombras, poderá desafiar o destino, matar espectros e conquistar anos de vida!”
Não compreendi, balancei a cabeça.
“Hahaha! Eu disse que serei o Rei dos Fantasmas do Sul! E o Monge de Madeira jamais poderia me deter!”
Talvez por devorar tantos espectros, Tadeu tinha agora um corpo enorme, cercado por uma nuvem de ódio. Seu rosto, desfigurado, exibia oito presas afiadas, atravessando a mandíbula superior e inferior, de onde escorria sangue. Sob seus pés, jaziam restos de carne, como se tivesse devorado vários bois vivos.
“Vamos arriscar!”, decidi. Não havia tempo a perder. Se hesitasse, seria apenas mais um cadáver. Não sabia ao certo o que Marília pretendia, mas ao menos havia uma chance.
“Ótimo, amor, dê-me a mão!”
Sem entender, estendi rapidamente a mão direita por instinto.
Num movimento ágil, Marília abriu a boca e cravou os dentes em minha artéria principal.
O sangue jorrou como uma torneira rompida, direto para a boca de Marília, que sugava com avidez, como alguém morrendo de sede no deserto encontra uma fonte de água pura.
Aos poucos, minha visão tornou-se turva, mas os fantasmas ao redor se tornaram ainda mais nítidos.
Os cabelos antes secos de Marília agora brilhavam, macios, e os ferimentos causados pela espada de madeira estavam completamente curados. Seus olhos, antes opacos, tornaram-se vivos e negros como a noite.
“Resista, amor!”
Marília arrancou a própria pele do braço e a enrolou no meu. Vi claramente o sangue vivo escorrendo de sua pele, diferente do sangue dos mortos — um tecido macio e vermelho que fazia o couro cabeludo formigar.
A perda de sangue me deixou fraco, mas insisti em me manter de pé.
“Tadeu, você me forçou a este ponto. Não deixarei que saia impune!”
Enquanto falava, vi Marília, agora revigorada pelo meu sangue, avançar como um raio, agarrando a cabeça disforme de Tadeu, coberta de feridas, como se fosse um sapo monstruoso...