Os cadáveres do crematório número 34
Algo terrível aconteceu!
Em um instante, meu coração disparou na garganta. O que vi diante de mim foi um cenário de devastação: sangue espalhado por toda parte. O corpo de Chen Ruowei jazia a pouca distância da porta. O antigo lampião amarelo, que antes ali estava, encontrava-se em cacos. Todo o terraço mergulhava num silêncio mortal; além da minha respiração ofegante, nenhum outro som se fazia ouvir.
Aproximei-me rapidamente do corpo de Chen Ruowei, levantei-a cuidadosamente e, ao mesmo tempo, mantive o olhar atento ao redor. Nesse momento, Dodo agitava-se incessantemente nas minhas costas. Abri minha mochila e a soltei. Assim que saiu, Dodo deu uma volta voando pelo terraço, retornando surpresa: “Sumiram! Tanto o feto demoníaco quanto aquele espírito aterrador desapareceram!”
“Sumiram? Dodo, olha com mais atenção! Se esse feto demoníaco se fortalecer, as consequências serão inimagináveis!” Um pressentimento sombrio tomou conta de mim. Eu já sabia que o problema estava longe de terminar.
Dodo assentiu e sumiu pelo terraço.
Peguei o corpo de Chen Ruowei nos braços. O cheiro de sangue me fazia lacrimejar. Não sabia o motivo, mas naquele momento as lágrimas não paravam de cair. Passo a passo, desci as escadas. A fraca luz iluminava o rosto de Chen Ruowei, e me lembrei da primeira vez que a vi. Mal a conhecia há alguns dias, mas já deixara em mim uma marca profunda.
No segundo andar, deitei Chen Ruowei numa cama de madeira. Já passava das três da madrugada. Esmigalhado, escorei-me na parede e deslizei até o chão. Dodo voltou voando, confirmando que todos os rastros haviam desaparecido.
Quando pensei em ligar para o Mestre Zhao, recebi uma chamada de Chen Baliang.
Assim que atendeu, perguntou: “Ruowei morreu?”
Respondi com um murmúrio grave e desanimado.
Do outro lado, ouvi o longo suspiro de Chen Baliang: “Xiao Yang, este não é momento para tristeza!”
Ele continuou: “Vá imediatamente ao crematório. Isso não é simples. Estou voltando agora para Chengdu, devo chegar à tarde. Encontre o corpo do feto demoníaco no crematório, é imprescindível! Caso contrário, algo terrível pode acontecer esta noite.”
“O crematório?”
Fiquei intrigado. Será que Chen Baliang tinha olhos que tudo veem, e sabia que o infante morto fora levado para lá?
“Sim, o crematório. O feto demoníaco foi levado por alguém, e o único lugar onde poderia estar é lá. Vá agora! Tem que impedir a pessoa de selar o feto! Ele é uma criatura de nove vidas, sempre aprisionada, e a cada novo selo, seu poder aumenta. Da última vez não sabíamos disso. Se não fosse pelo que aconteceu esta noite, talvez o selássemos de novo, e isso só o fortaleceria, não o confinaria.”
“Tio Baliang, quem é essa pessoa? Você sabe?”
Se Chen Baliang e o Mestre Zhao sabiam tanto, era porque estavam a par de tudo, inclusive de quem levara o feto ao crematório.
“O Monge de Madeira!”
Chen Baliang não hesitou. Ao ouvir esse nome, estremeci. Eu já ouvira sobre ele: era da mesma época que o avô enigmático de Chen Baliang, o que significava que devia ter mais de noventa anos.
“Enfim, Xiao Yang, vá logo! Antes do amanhecer, o Monge de Madeira selará o feto. Não teme o poder crescente dele. Com o dia, ninguém mais saberá onde está!”
“Mas... o corpo de Chen Ruowei...”
“Deixe por ora! Cubra-o com selos amarelos e crave uma espada de madeira de pessegueiro no centro da testa, na ‘janela da alma’. Assim, sua alma ficará presa até voltarmos à tarde. Vá agora e impeça que o Monge de Madeira sele o feto!”
Assenti em silêncio. Guardei Dodo na mochila, espalhei generosas folhas de papel amarelo sobre o corpo de Chen Ruowei e, em seguida, peguei a pequena espada de madeira. Inspirei fundo e, mirando o centro escuro de sua testa, cravei a lâmina.
Pus a mochila às costas e saí correndo. Não havia como pegar táxi àquela hora, então fui a pé. Por sorte, a funerária de Mestre Zhao não ficava longe do crematório. Corri, sem parar, por mais de vinte minutos, até avistar a estrada fantasmagórica já conhecida.
À beira da estrada, a senhora Zhang não acenava mais. Virei-me e entrei na estrada dos fantasmas. O caminho sombrio tornava meu ânimo cada vez mais pesado.
Não era só porque nunca entrara no crematório, mas o feto demoníaco já me deixava inquieto, sem falar do Monge de Madeira. Não sabia se ele machucaria Xiaodie.
Quanto mais pensava, mais ansioso ficava. Apressei o passo. Dez minutos depois, estava diante do prédio do crematório, que mergulhava em silêncio mortal. Um calafrio percorreu meu corpo e, sem hesitar, aproximei-me da porta principal.
Xiaodie mencionara antes que a porta do crematório fora transformada por seu próprio pai, tornando impossível para espíritos comuns atravessá-la — só entidades do nível de um rei fantasma.
Lembrei-me então do que Dodo dissera sobre a aura terrível de um fantasma.
O Monge de Madeira? Seria ele o espírito aterrador mencionado por Dodo?
Soltei Dodo, que repousou sua cabeça semi-severa sobre meu ombro, olhando assustada para o crematório. Por fora, o local parecia calmo, nada se ouvia, mas ao entrar, deparei-me com uma cena de cortar o coração.
Embora já tivesse visto o crematório algumas vezes, nunca entrara. Não fazia ideia de como era por dentro, mas, neste momento, não tinha escolha. Dodo confirmara que a aura terrível estava ali, mas não sabia onde exatamente, pois, segundo ela, o local estava repleto de fantasmas.
Um calafrio gelou minha alma, mas eu não podia recuar. Eu sabia do terror que representava o feto demoníaco. Restava pouco mais de uma hora até o amanhecer; precisava encontrá-lo e impedir o Monge de Madeira de selá-lo.
Logo na entrada, vi manchas de sangue fresco no chão, pedaços de carne, mãos e braços decepados, globos oculares, orelhas e vísceras espalhadas por toda parte.
Adentrei lentamente. Havia muitos cadáveres no crematório, todos de olhos abertos, perambulando sem rumo.
“Maninho, essas pessoas tiveram suas almas sugadas. Agora são apenas zumbis sem vida!”
Assenti. Percebia em seus olhares o vazio absoluto. Moviam-se lentos, como mortos-vivos.
“Dodo, precisamos encontrar logo o feto demoníaco, ou será tarde demais!”
Ela concordou e voou adiante. Dodo, por ser um espírito, atravessava os fantasmas sem ser notada, mas eu não podia fazer o mesmo. Não sabia o que aconteceria se tentasse. Aqueles corpos, agora sem alma, eram zumbis, provavelmente controlados pelo Monge de Madeira. Isso significava que ele estava ali.
Dez minutos depois, Dodo voltou apavorada, escondendo-se no meu peito.
“Maninho, está lá dentro... lá dentro tem...”
Ela não terminou. Seu pavor era evidente. Guardei-a na mochila e tentei contornar os mortos-vivos com extremo cuidado.
Mas parecia que esses fantasmas tinham uma programação: assim que me notaram, começaram a uivar e avançaram contra mim em fúria.
Empalideci. Não havia como resistir a um exército de fantasmas tão numeroso — contei por alto, eram mais de cinquenta ou sessenta.
Não podia ficar parado. Num salto, corri em direção ao interior do prédio. Restava pouco mais de uma hora até o amanhecer; se conseguisse impedir o ritual, haveria chance de escapar.
A espada de pessegueiro não surtia efeito contra aqueles corpos; só me restava usar os punhos. Se soubesse, teria trazido um facão.
Eles avançavam furiosos, impedindo minha passagem. Pude ouvir um urro sobrenatural, que só podia ser do feto demoníaco. Fiquei ainda mais ansioso. Derrubei vários mortos-vivos a socos, abrindo caminho aos poucos. Só depois de mais de meia hora consegui alcançar uma porta, com dezenas de cadáveres ainda me perseguindo, uivando tão alto que meus tímpanos doíam.
Agarrei a maçaneta e abri a porta de uma vez. Uma onda violenta de energia maligna explodiu, e os cadáveres fugiram em pânico, como ratos diante de um gato.
Diante da energia assassina, mordi a língua até sangrar e cuspi o sangue de uma só vez, saltando para dentro do cômodo.
O lugar estava abarrotado de corpos amontoados. No centro, havia um enorme recipiente de vidro do tamanho de um tonel, cheio de vísceras putrefatas e, por cima, uma camada de larvas brancas se contorcendo.
De costas para mim, um velho em trajes de linho azul desenhava símbolos no ar, murmurando palavras ininteligíveis.
Eu sabia: era o Monge de Madeira. Mas o que me espantou foi não ver ali o feto demoníaco.
“Você chegou. Digno herdeiro do Caixão de Sangue, impatiente como sempre.”
A voz do velho era rouca, como se não falasse há muitos anos, e provocava arrepios.
Fiquei parado, sem que ele se virasse. À medida que falava, a luz do cômodo se acendeu, fraca como o crepúsculo ao fim do dia.
Diante de mim, uma montanha de cadáveres — a maioria incompleta, alguns sem cabeça, outros sem braços, muitos eviscerados... Ao menos estavam apenas amontoados, não como os outros, transformados em zumbis pelo Monge de Madeira.
“Você... você é o Monge de Madeira!”
Minha voz traía o medo. Era a primeira vez que o enfrentava de verdade, e não tinha tempo a perder. Se selasse o feto demoníaco, o poder dele aumentaria, e eu, atado ao seu destino, não teria como escapar.
“Ke, ke, ke...”
O Monge de Madeira virou-se. Ao ver aquele rosto envelhecido, empalideci imediatamente.
“Você... é você...”