Trinta e Cinco Golpes Contra os Mortos-Vivos (Parte Um)

Apartamento do Além O jovem senhor da família Yang 3596 palavras 2026-02-09 14:10:23

Ao deparar-me com o ancião à minha frente, o rosto dele pálido como a morte, meu coração disparou violentamente. Não era ele o mesmo velho que encontrei na saída do apartamento naquele dia, parado diante do prédio? Já suspeitava então que talvez fosse também um mestre das artes ocultas, mas o que me surpreendeu foi descobrir que ele era o próprio Daoísta de Madeira.

— Surpreso, rapaz?

Na mão do Daoísta de Madeira havia um coração fétido, seus grossos dedos com unhas de quase quinze centímetros, tingidas de vermelho vivo.

Não respondi às suas palavras. Meus olhos estavam fixos no jarro de vidro atrás dele, repleto de vísceras e banhado em um tom carmesim. Lá dentro, só ví órgãos partidos, intestinos, corações — nem precisava pensar para perceber que tudo aquilo fora arrancado dos cadáveres espalhados pelo chão.

— Interessou-se pelo jarro, pequenino?

Ao notar meu olhar insistente, um sorriso sutil e tenebroso surgiu no rosto do Daoísta de Madeira. Ele virou-se, abriu o jarro de vidro e atirou dentro o coração pútrido que segurava.

Meu semblante mudou; nesse instante, percebi o que ele pretendia.

— Veio atrás do feto maligno?

Continuei em silêncio. Havia sacrificado um mês de vida ao recorrer ao talismã, lutando por quase meia hora contra os mortos-vivos controlados pelo Daoísta. Meu corpo já estava no limite; se não fosse pelo talismã que usei no momento de maior perigo, teria sido dilacerado sem piedade.

O Daoísta lançou três perguntas seguidas, mas não respondi, apenas observei o cenário aterrador diante de mim.

Atrás dele, uma centena de cadáveres empilhados. O cheiro de sangue já não me afetava mais.

— Se virar as costas agora, poupo-lhe a vida. Afinal, um velho amigo me disse que tinha fé em você. Considero isso um favor a ele.

As palavras dele me deixaram intrigado, mas não perguntei nada. Eu estava tenso, e Duoduo agarrava-se às minhas costas, tremendo sem parar — era um medo instintivo. Eu sabia, aquele Daoísta de Madeira era o terrível grande fantasma de quem Duoduo tanto falara.

Ele parecia não se importar com minha presença. Enfiou a mão no jarro, retirou alguns corações ensanguentados e jogou-os para mim.

— Não resista. Coma alguns, recupere-se. Sei que você tem ligação com Chen Oito Onças. Na verdade, não vim apenas atrás do feto maligno, mas de você, para atrair Chen Oito Onças até aqui!

Meu rosto mudou drasticamente, tomado de surpresa.

— Atrás de mim?

Enquanto dizia isso, vi o Daoísta cravar os dentes em um coração rubro, devorando-o com voracidade.

— Irmão, coma logo também — sussurrou Duoduo às minhas costas —. Ele ainda não selou o feto; só o prendeu por ora. Comer corações serve para restaurar seu qi fantasmagórico. Coma também, assim recupera suas forças e poderá enfrentá-lo!

Olhei para os corações no chão. Só de imaginar engolir aquilo, o estômago revirou de náusea.

Não sabia exatamente por que comer o coração dos mortos supria minha energia, mas já passara por essa experiência duas vezes. Apesar do aparente sossego, percebi que ambos só esperavam o momento certo — o Daoísta não era alguém que eu pudesse enfrentar de igual para igual.

Abaixei-me, apanhei o coração que ele havia lançado.

O cheiro forte de sangue subiu, causando-me ânsias. O Daoísta, ao ver minha hesitação, riu malignamente, deixando escapar uma gargalhada aguda, e mordeu outro coração, manchando o rosto inteiro de sangue, a imagem do puro terror.

Reuni coragem. Não me restava muito tempo de vida; Xiaodie já me alertara: depois que ele bebesse meu sangue, minha vida entraria em contagem regressiva. O ritual de abrir o ponto fatal já me custara dois meses; depois, mais um ao usar o talismã. Restava-me menos de um mês. Se não encontrasse um modo de prolongar a vida, não viveria para ver meu vigésimo quarto aniversário.

Cerrei os dentes, abri a boca e mordi com força.

O sabor pútrido quase me fez vomitar, mas forcei-me a engolir a carne fria.

Depois da primeira mordida, não queria repetir, mas o Daoísta devorava corações como se fossem maçãs vermelhas. Em pouco tempo, já havia engolido mais de uma dúzia, tornando-se um homem-coração, especialmente pela boca — quando sorria, exibia dentes rubros e pedaços de carne que faziam qualquer um estremecer.

Fechei os olhos, prendi a respiração e enfiei mais um pedaço goela abaixo.

Aos poucos, senti minhas energias retornando, como um atleta desperto pela manhã após uma noite de repouso. Engoli o último pedaço, atento ao Daoísta à minha frente.

Nesse instante, o telefone tocou.

Era a voz de Chen Oito Onças:

— Encontrou o Daoísta de Madeira? E o feto maligno, como está?

— Tio Oito Onças, não vi o feto maligno. Não sei onde está, mas vi o Daoísta, está bem à minha frente, devorando corações como um louco!

— Impeça-o logo! Ataque! Está quase amanhecendo, as forças dele se esvaem, por isso devora os corações para manter seu poder. Ataque agora, não desligue, coloque no viva-voz!

Assenti, tomado de espanto.

— Daoísta de Madeira, entregue o feto maligno e pouparei sua vida!

Empunhei a espada de pessegueiro, cortei o dedo e deixei o sangue escorrer sobre ela, investindo contra o Daoísta.

— Garoto, quer mesmo morrer?

O Daoísta sumiu diante dos meus olhos, como uma sombra. Percebi então o perigo: a espada atingira um cadáver, cujos olhos vermelhos se abriram, sedentos por sangue, mirando-me.

— Apareça!

Gritei, chutando o jarro de órgãos.

Vísceras e corações voaram pelo chão.

— Hehe, você tinha potencial, mas se escolheu o caminho da morte, transformarei seu corpo em minha arma mais fiel e poderosa!

No instante em que a voz sumiu, senti o frio do além se adensar ao redor. Os cadáveres antes inertes começaram a se mexer, todos abrindo olhos rubros.

Senti um calafrio.

— Irmão, fuja, eles vão se levantar e atacar!

Assenti e corri para a porta.

BAM!

Quando estava para sair, uma mão ensanguentada fechou a porta de uma vez. Lá fora, vi o Daoísta de Madeira, entre as mãos um nevoeiro vermelho de energia demoníaca.

— Levantem-se!

Não ouvi tudo o que ele disse, apenas a última palavra. Imediatamente, ouvi a movimentação atrás de mim; ao virar, vi todos os cadáveres se erguerem, até os sem cabeça.

— Aaah!

Num impulso, atirei-me contra a porta trancada.

— Irmão, depressa, os mortos-vivos vão nos alcançar!

Eu sabia disso, a urgência pulsava. Era questão de vida ou morte; se não abrisse aquela porta, jamais enfrentaria mais de cem mortos-vivos, nem no meu auge.

BAM! BAM!

Bati na porta com o corpo várias vezes.

— Xiao Yang, pare! Coma mais corações e prepare-se para abrir o ponto fatal!

A voz de Chen Oito Onças mudou meu semblante.

— Tio, vou tentar a sorte primeiro!

Sabia o preço de abrir o ponto fatal, e depois de duas vezes sentia a morte cada vez mais próxima, uma sensação que me perseguia desde criança.

— Sorte coisa nenhuma! Se não ouvir seu mestre, não dura meia hora!

Zhao Meia-Vida praguejou ao telefone, depois gritou:

— Droga, a rua está bloqueada, estou avançando!

Ouvi Chen Oito Onças concordar, e ele insistiu:

— Xiao Yang, depressa, coma mais corações, recupere as forças, abra o ponto fatal e quebre o feitiço de controle dos cadáveres!

— Mas...

— Sem "mas"! Rápido! O Daoísta quer te prender com os mortos-vivos, o alvo principal desta vez é você!

Senti-me sufocado, irritado, como se fosse uma peça num tabuleiro, sem qualquer escolha. Murmurei um "uhum" e desliguei.

Naquele instante, não queria mais seguir ordens. Se tivesse de abrir o ponto fatal, mesmo que morresse em seguida, lutaria até o fim; precisava destruir o feto maligno, caso contrário, nem a morte me traria paz.

Soltei Duoduo, pedi que trouxesse mais corações, enquanto eu continuava a forçar a porta. O cômodo era pequeno demais; se todos aqueles mortos-vivos se erguessem, não teria chance, espaço nenhum para lutar. Precisava abrir aquela porta!

BAM!

Bati de novo, o braço dormente, mas a dor de cada impacto me mantinha desperto.

Agarrei o coração que Duoduo trouxera, mordi com decisão.

— Irmão, eles estão vindo!

Vi que o cômodo, antes espaçoso, agora era tomado pelos cadáveres, alguns pegando corações do chão e pressionando-os contra o peito.

— Duoduo, tem medo?

— Não tenho, irmão. Vamos lutar juntos!

Assenti, devorei o resto do coração, encostei-me à porta, empunhei a espada de pessegueiro, mordi a língua e cuspi sangue sobre a lâmina.

Os mortos-vivos avançavam, olhos rubros fixos em nós.

Não sabia se sairia vivo, mas naquele momento, estava decidido: lutaria até o fim, sem arrependimentos!

Um estrondo ecoou...