Fan Fan

Apartamento do Além O jovem senhor da família Yang 2970 palavras 2026-02-09 14:10:35

Em meio à confusão dos meus sentidos, senti uma dor lancinante nos dedos, como se alguém os mordesse com fúria e sugasse com força. Despertei num sobressalto e, ao abrir os olhos, fiquei completamente atônito.

Diante de mim, sentado ao meu lado, estava um bebê. Ele segurava minha mão ensanguentada com suas pequenas mãos gordinhas, sugando avidamente o corte que eu abrira ao socar a parede do elevador.

Ao redor, o quarto havia retomado sua aparência original, idêntica à que vi ao entrar, como se nada tivesse mudado. Sentei-me, tentando puxar a mão de volta, mas o pequeno segurava-a com tal força que, embora pudesse forçar para soltar, não o fiz. Desde o primeiro momento, senti uma estranha e profunda afeição por aquela criança.

O bebê, percebendo que eu despertara, parou de sugar meu sangue e levantou a cabecinha rosada, fitando-me. Confesso que, ao vê-lo pela primeira vez, senti uma alegria inesperada. Era rechonchudo, vestia apenas um avental vermelho, os olhos grandes e escuros giravam curiosos, e a boquinha balbuciava sons estranhos. Mas, ao notar o tom rubro intenso de sua língua, assustei-me e puxei a mão rapidamente.

Com o movimento, ele tombou de bruços no chão e percebi, horrorizado, que ao seu redor havia pedaços de carne e sangue. A cena era tão macabra que era impossível associar aquele bebê a uma criança comum.

Sentado no chão, observei enquanto ele se arrastava lentamente em minha direção. Meu coração era tomado por uma mistura de medo, alegria, curiosidade e dúvida...

Enquanto eu refletia, o pequeno já escalara minha perna, sentando-se sobre ela. Ergueu os braços gordinhos e tentou agarrar minha orelha. Não desviei, permitindo que puxasse minha orelha gelada. Um calafrio percorreu-me ao notar o quão frias eram suas mãos.

Antes que eu afastasse suas mãozinhas, ouvi a voz de Fernanda:

— Irmão Sen, quem diria que esse pequeno seria tão travesso assim logo ao nascer.

Ao escutá-la, meu coração gelou.

— Fernanda, você quer dizer que esse bebê... — não terminei, pois vi os olhos grandes e expressivos do pequeno, que me fitava com uma pontinha de desagrado. Perdi-me em pensamentos ao encará-lo.

Estava claro o que Fernanda queria dizer: aquele era o filho de minha querida Borboleta. Embora me espantasse o fato de Borboleta ter engravidado de mim de forma tão confusa, não podia esquecer que ela era um espírito, e talvez a gestação entre fantasmas fosse diferente. Borboleta só começou a mostrar sinais da gravidez após beber meu sangue—o que me incomoda, pois tanto Florzinha quanto o Cachorrinho também beberam meu sangue.

Além disso, o bebê parecia perfeitamente normal, não fosse por eu mesmo presenciar tudo, jamais o tomaria por algo diferente.

— Onde está Borboleta? — perguntei a Fernanda.

Nesse momento, Florzinha entrou voando pela porta, fez caretas para o bebê, que caiu na gargalhada.

— A irmã Borboleta foi até a casa do Cachorrinho para pedir conselhos à esposa dele sobre como cuidar de crianças — respondeu Florzinha, apressando-se antes de Fernanda.

Assenti, sentindo-me estranho por dentro.

— Ia, ia, ia... — o bebê não parava quieto em meu colo, puxando meus cabelos e orelhas com suas mãozinhas gordinhas. Doía um pouco, mas me mantinha bem desperto.

— Pare com isso! — reclamei, tentando entender que situação absurda era aquela. Olhei pela janela e vi chamas-fantasma tremulando no céu noturno. Não era há pouco que eu sentira o trovão me atravessar, a separação entre vida e morte?

— Uááááá... — de repente, o bebê sentou-se em minha perna e começou a chorar alto. Fiquei desesperado; seu choro me partia o coração, e soava exatamente como o de uma criança comum, nada de gritos fantasmagóricos.

Naquele instante, fui tomado por um calafrio: será que meu filho era normal, e não um espírito?

Abracei-o rapidamente, encostando meu rosto em sua bochecha fofa, e falei com doçura:

— Não chore, meu amor, o papai vai levar você para ver a mamãe!

Quando me levantei, vi Borboleta parada à porta, radiante de felicidade, vindo ao meu encontro.

Ela estava novamente tão bela e nobre quanto antes, vestida com um elegante conjunto preto, meias escuras e, curiosamente, chinelos cor-de-rosa no lugar dos saltos altos, o que só realçava sua maturidade.

— Meu amor, nosso filho já nasceu faz um dia, e você ainda não lhe deu um nome — comentou ela com um sorriso.

— Um dia? — perguntei, surpreso. Teria eu ficado deitado ali tanto tempo?

Olhei para Borboleta, sem compreender. Ela acariciou a bochecha fofa do bebê e explicou:

— Sim, depois da punição divina anteontem à noite, achei que morreríamos, mas no fim esse pequeno nasceu e absorveu o último raio que caiu. Se não acredita, veja a marca dourada na testa dele.

Aproximei-me e, de fato, havia uma leve marca dourada entre as sobrancelhas do bebê, discreta mas visível de perto.

— Não sei ao certo o que isso significa, mas minha avó me disse que haveria um benfeitor para me salvar da punição divina. Agora vejo que esse benfeitor é nosso filho.

Com um sorriso cheio de ternura, ela acariciou o rosto do bebê:

— Não é verdade, meu querido?

Se não fossem os móveis de couro humano ao redor e os pedaços de carne e vísceras no chão, eu quase acreditaria que éramos uma família feliz e comum.

— Ia, ia, ia! — o pequeno continuava a balbuciar, incapaz de articular palavras, mas, à minha vista, não parecia um recém-nascido.

Ele largou minha orelha e escalou meu braço até o ombro. Com medo de que caísse, inclinei a cabeça para ajudá-lo. Florzinha, que queria pousar ali também, levou um tapa de sua mão rechonchuda e se afastou, claramente temendo o pequeno. Franzi a testa e disse:

— Não seja mal-educado com a irmã Florzinha, este lugar era dela antes!

O bebê soltou minha orelha, apontou para Florzinha com o dedinho e balbuciou sons ininteligíveis. Ela, por sua vez, escutava com atenção, mas parecia não entender nada, olhando para mim, confusa.

Sorri, resignado. Que criança extraordinária eu tinha!

— Florzinha, ele quer que você se aproxime — expliquei.

Ela arregalou os olhos, mas se aproximou cuidadosamente. E então, vi o pequeno sorrir de forma estranha, um sorriso que misturava mistério e alívio.

Aquilo fugia completamente ao que eu sabia sobre bebês. Não deveriam ser curiosos e inocentes ao nascer? Por que o filho de Borboleta era tão diferente? Seria por ela ser um espírito?

Assim que Florzinha se aproximou, o bebê tocou com o dedo sua testa. Ela gritou e seus olhos ficaram vermelhos como sangue.

— Florzinha! — exclamei, alarmado.

Ela sacudiu a cabeça e, olhando para mim com entusiasmo, disse:

— Obrigada, pequeno. Antes eu não conseguia ativar este par de olhos de demônio, mas você é mesmo um dedo de ouro!

Suspirei aliviado e sorri.

— Amor, você ainda não deu um nome ao nosso filho, olha como ele está descontente! — disse Borboleta, enquanto o bebê, sentado em meu ombro, puxava minha orelha e cabelo, reclamando.

— Está bem, está bem, o papai já vai pensar em um nome!

Mergulhei em pensamentos. Dar nome a um filho exige atenção ao tempo de nascimento e às energias do destino, mas eu já tinha meus próprios planos. A arte de nomear segundo a tradição envolve harmonia e auxílio ao destino; enquanto calculava rapidamente os horários, reunia em mente todos os caracteres e atributos possíveis.