Sessenta múmias

Apartamento do Além O jovem senhor da família Yang 3259 palavras 2026-02-09 14:10:38

Minha mão estremeceu bruscamente.

— Irmão, essa criança não tem mais salvação!

As palavras de Dodo me despertaram instantaneamente. Apressei-me em pegar o telefone e disquei para Velho Dai.

Velho Dai devia estar dirigindo naquele momento, pois eu podia ouvir o vento entrando forte no carro.

— Velho Dai, o corpo dessa criança já virou palha!

Do outro lado da linha, ele soltou duas risadas secas antes de dizer:

— Eu te avisei há muito tempo, essa família não tem salvação, é melhor sair daí o quanto antes. Se a criança já virou palha, o feiticeiro que fez isso deve estar chegando logo. E, se não me engano, às seis horas a vida daquele Boi Gordo também começará a contagem regressiva!

Quanto mais ouvia, mais o medo crescia dentro de mim. Apesar de ter Dodo ao meu lado, a ideia de alguém capaz de, sem sequer aparecer, transformar uma criança em boneco de palha me deixava inquieto.

— Eu te disse para sair daí logo! — Velho Dai insistia ao telefone.

— Velho Dai, não tem mesmo nenhum jeito de salvar o mais velho?

No final das contas, eu tinha recebido um bom dinheiro deles e fugir agora me deixaria com a consciência pesada.

— Você está maluco? O mais velho é ainda mais impossível de salvar. Se não acredita, fique aí e veja por si mesmo. Daqui a três ou quatro horas, vai ser um espetáculo. Só espero que até lá você ainda esteja vivo para contar a história. Quem é capaz de lançar uma magia tão cruel não vai ter piedade de você. Meu último conselho: vai ou fica? Se decidir ir, eu volto para te buscar!

Dei um sorriso amargo.

— Velho Dai, volte para casa. Vou esperar mais um pouco, se não der certo, eu fujo.

No fundo, sentia que, tendo aceitado o dinheiro, não era certo cruzar os braços, então decidi ajudar como pudesse. Se não conseguisse, ainda poderia escapar a tempo. Com Dodo comigo, acreditava que não teria problemas para sair.

— Então se cuida. Hoje à noite, seja esperto. Assim que sair da mansão, me liga. Se eu puder, passo para te buscar!

Pelo tom de Velho Dai, percebi que ele realmente se preocupava comigo. Sorri e respondi:

— Está bem.

Desliguei o telefone e retirei todas as folhas de bananeira do corpo da criança. A porta do quarto estava fechada e não havia ninguém mais ali. Observei, pesaroso, enquanto a pele da criança era aos poucos engolida por brotos de palha que surgiam por todo o corpo, inclusive na cabeça, que já começava a se transformar.

Não pude deixar de lamentar a crueldade daquele feiticeiro. Essa técnica, chamada “Ceifar Vidas como Palha”, utilizava a data de nascimento e algum pertence pessoal da vítima para lançar um feitiço venenoso. Por ser tão maligno, o preço era a própria longevidade do feiticeiro, razão pela qual poucos ousavam utilizá-lo. Mas, uma vez lançado, a vítima estava condenada a morrer em até seis horas.

A única forma de salvação era encontrar o feiticeiro nesse intervalo, destruir o boneco de palha e, em seguida, usar uma lanterna celeste para chamar de volta a alma perdida. Quando chegamos, já haviam se passado mais de cinco horas, restando menos de uma antes que a criança se transformasse por completo. Por isso Velho Dai mandou que buscassem folhas de bananeira, pois envolvê-lo nelas só serviria para atrasar o inevitável.

E assim, depois do almoço, enquanto ainda era início da tarde, a criança se tornou completamente um boneco de palha.

Cobri o corpo da criança com um cobertor, tomado por uma tristeza imensa.

Apesar de Boi Gordo ser realmente detestável e merecer o que lhe cabia, por que envolver o filho? Sentia-me inconformado, mas não explodi: era o ciclo do karma, a retribuição inevitável. Ninguém pode fugir dele. Acredito que até Velho Dai se retirou cedo por não querer presenciar esse desfecho.

Olhei mais uma vez para o garoto, suspirei levemente e saí do quarto.

Boi Gordo estava na sala assistindo TV enquanto, ao seu lado, uma jovem de uns vinte anos, vestida de forma provocante, fazia-lhe uma massagem nas costas. Não pude evitar um sorriso cínico: seria esse seu último prazer antes da morte? Ao notar minha aproximação, Boi Gordo despachou a jovem e, de pé, perguntou respeitoso:

— Mestre, como está meu filho?

Apenas assenti, sem dizer palavra.

Ele indicou um assento ao lado:

— Mestre, por favor, sente-se. Quando meu filho acordar, à noite, faço questão de levá-lo para se divertir. Pode deixar tudo por minha conta!

Sorri, mas não respondi.

Meu gesto foi entendido por ele como um sinal de que o filho estava melhor, quando na verdade já não havia salvação. E ele ainda planejava diversão para mais tarde... Se soubesse o que o aguardava, sua reação seria bem diferente.

Meu filho dormia nos meus braços. Olhei para sua boquinha rosada, sentindo-me tomado por mil pensamentos. Quem diria que, em poucos dias, minha vida mudaria tanto e eu ainda ganharia esse pequeno e misterioso tesouro, tão cativante?

No relógio da parede, já passava das quatro.

— Pode ir cuidar dos seus assuntos. Vou ficar aqui um pouco. Acho que esta noite não será tranquila.

Boi Gordo assentiu rápido e foi direto ao quarto da mulher. Nem precisava perguntar o que ele pretendia.

Deitei no sofá, olhando para o teto elegante. Dodo começou a se mexer dentro da minha barriga, pois eu abraçava a mochila junto ao filho adormecido.

Abri um pouco o zíper.

— Irmão, temos problemas! Chegou alguém igual a Velho Gordo, também é um mestre das sombras!

Meu rosto ficou pálido, mas recuperei a calma rapidamente ao sentir passos atrás de mim.

— Já que chegou, sente-se.

Sabia que não era páreo para aquela pessoa e nem cogitava enfrentá-lo. Só queria entender como ele havia conseguido tudo aquilo.

— Não imaginei que ainda houvesse quem aceitasse serviço para Boi Gordo.

A voz era rouca, de um velho, mas ao sentar-se diante de mim, fiquei chocado: parecia um jovem de não mais que dez anos, embora falasse como um ancião.

A imagem daquele mestre sombrio me lembrou Mestre Zhao, mas havia diferenças. O envelhecimento de Zhao era causado pelo desgaste do corpo ao usar certos feitiços, enquanto o jovem à minha frente parecia não ter mudado fisicamente. Só isso já mostrava sua complexidade.

— Permita-me apresentar: sou Li Jian, feiticeiro andarilho.

Aquele estranho Li Jian se apresentou. Assenti e respondi, sorrindo:

— Yang Sen, ainda sou apenas estudante.

Assim que terminei de falar, um som de suspiros e gemidos ecoou na casa silenciosa.

— Vamos lá, baby... mais...

Fiquei constrangido. O isolamento acústico daquela mansão era péssimo. Li Jian, ao meu lado, apenas soltou uma risada fria. Estendeu a mão, na qual apareceu um verme branco e pulsante. Assim que o inseto surgiu, senti o ambiente ficar mais tenso.

— Isso não é assunto seu. E minha maior vontade sempre foi a vingança. Dei a ele dez anos de vida boa, agora é hora de morrer.

Na voz de Li Jian não havia nenhum traço de emoção. Percebi que, ao longo dos anos, seu coração devia ter se tornado insensível.

O verme em sua mão parecia-se com algo que eu tinha visto em um antigo livro: um gu.

Isso explicava por que Velho Dai fugiu tão rápido.

— Não vou impedir você. Só quero saber como pretende lidar com eles.

Não era que eu não quisesse intervir, cheguei até a considerar, mas desisti. O adversário era misterioso demais, impossível de enfrentar. Mestres das sombras evitam ao máximo se envolver em karmas alheios — agora entendi por que Velho Dai insistiu tanto para que eu fosse embora.

A roda do karma gira, e nada pode detê-la.

Li Jian sorriu, acariciou de leve o pequeno gu, e vi que ele voou diretamente para o quarto onde vinham aqueles sons excitados.

— Não é nada demais, chegou a hora de pagar a dívida. Esse tipo de gu, chamado gu sedento de sangue, serve só para sugar sangue. O que acabei de soltar é capaz de drenar os dois completamente.

Assenti em silêncio, mas por dentro estava atônito.

Logo depois, ouvi gritos de dor cada vez mais fracos, até sumirem por completo após dez minutos.

Quando vi Boi Gordo novamente, já não passava de uma múmia ressequida.

Li Jian aproximou-se do corpo, tocou-lhe o centro da testa e, ao dizer "Rápido!", Boi Gordo ergueu-se e seguiu Li Jian para fora da mansão.

Levantei-me e observei, pensativo, enquanto ambos desapareciam sob o entardecer.

Soltei um longo suspiro, arrumei minhas coisas e também deixei a mansão. Assim que cruzei o portão, meu telefone tocou: era Velho Dai.

— Volte depressa, hoje à noite teremos uma grande missão!