Capítulo Onze: Um Estranho no Caminho

Vamos nos encontrar pessoalmente Beije a irmã. 2631 palavras 2026-03-04 14:57:00

A chuva fina começou a cair do céu, e uma névoa espessa surgiu do nada, envolvendo-nos, submergindo-nos, apagando nossas formas. Se existisse um deus, certamente não conseguiria nos enxergar neste momento; não veria nosso desconforto e tristeza, tampouco nossa força e otimismo. Se, por acaso, um deus visse o que se passava, ficaria intrigado com a cena diante de seus olhos. Éramos todos estranhos, quatro pessoas que, em circunstâncias normais, jamais teriam cruzado os caminhos, unidas por dois amores virtuais que colidiram inesperadamente e, depois, por uma calamidade que nos trouxe até ali. Nosso destino parecia-se com aquela terra árida, que um dia foi exuberante e agora jaz abandonada, dominada por ervas daninhas. Ainda assim, acreditávamos num amanhã melhor; aquela terra, mais cedo ou mais tarde, voltaria a florescer.

Quando finalmente deixamos o descampado e avistamos a estrada, já eram três horas da tarde. O tempo permanecia péssimo, a rua estava deserta e silenciosa, sem uma alma ou loja à vista. Pelo mapa, percebi que era uma estrada que circundava o lago, e que só haveria uma pequena vila do outro lado, depois de contornar toda a margem. Se não conseguíssemos uma carona, teríamos de passar a noite lá.

Ao chegarmos ali, todos pareciam mais tranquilos do que antes; talvez já tivessem aceitado a realidade. O silêncio tomou conta do grupo. Após ponderarmos prós e contras, decidimos seguir pela calçada à esquerda, pois ela ficava na parte interna da estrada ao redor do lago, permitindo que aproveitássemos a vista durante o caminho.

O lago ornamental ainda não estava totalmente desenvolvido, e a ponte que levaria à ilha central estava inacabada. Víamos as estacas de concreto erguidas solitárias na água, transmitindo uma sensação de melancolia. Sobre a ponte interrompida, alguém estava sentado, com uma enorme mochila vermelha às costas; poderia ser um aventureiro ou um viajante voltando para casa após as festas.

Ninguém queria puxar conversa com um estranho; afinal, não nos conhecíamos e não havia motivo para procurar contato. Porém, ao passarmos por ele, o homem nos olhou por um tempo e, então, resolveu nos seguir.

Ser seguido por um desconhecido causou certo incômodo. Era impossível não olhar para trás, uma vez, depois outra. E o homem se aproximava cada vez mais.

— Ei...! — chamou de repente, sem muita firmeza, e então perguntou educadamente: — Com licença, de onde vocês estão vindo?

Trocamos olhares e fingimos não ouvir. Vendo nossa indiferença, ele não insistiu, mantendo uma distância de dez metros. Só quando paramos para observar uma placa de advertência, ele aproveitou para se juntar a nós.

Naquele momento, percebi que ele era um rapaz de pouco mais de vinte anos, alto e robusto, com o porte de um instrutor de academia. Usava máscara, então não dava para saber se era bonito, mas seus gestos denunciavam certa timidez, contrastando fortemente com a autoconfiança de Zhao Ziwú.

— Para onde vocês estão indo? — perguntou ele, atrás de nós. Notei que ele franzia o cenho, talvez inseguro, forçando coragem para puxar conversa.

— Xishui — respondi distraidamente, mas notei que Hu Shanshan me lançou um olhar reprovador, não aprovando minha atitude.

— Sério? Eu vou para Zhouzhuang, é no caminho! — exclamou ele, animado.

Não respondemos, trocamos olhares e seguimos caminhando, deixando que ele nos acompanhasse.

— Que intrometido! — murmurou Hu Shanshan, descontente.

Pensei comigo mesmo: quando estávamos no Restaurante Garça, não era você quem puxava conversa com estranhos? Por que, quando eu faço o mesmo, se torna um problema?

Ao chegarmos à pequena vila, já era quase noite. Idosos e crianças caminhavam pelas ruas, triciclos passavam levantando lama pelas calçadas enlameadas.

Zhao Ziwú ainda tentava resolver tudo da forma mais rápida, perguntando a todos se havia algum carro disponível para nos levar a Xishui, mas sem sucesso. Até que um senhor nos indicou uma casa ao fundo de uma rua de cimento: — Aquela família, de sobrenome Cao, perguntem lá.

Agradecemos muito e logo encontramos a casa indicada. Em frente a um casarão de tijolos vermelhos, vimos um Santana preto; o motorista, com uns cinquenta anos, lavava o carro com um palito de dente na boca, talvez recém-saído do jantar, pronto para mais uma jornada.

A figura familiar cantarolava enquanto limpava as portas e os vidros do carro, torcia a toalha e despejava a água suja. Observamo-lo à distância, trocando olhares.

— Não dizem que o mundo tem quinhentos milhões de quilômetros quadrados de terra? — comentou Hu Shanshan, cerrando os punhos e rindo ironicamente diante do Santana. — Por que, então, sinto que o mundo é tão pequeno?

Eu e Zhao Ziwú trocamos um olhar e, num gesto simbólico, ajeitamos as mangas dos casacos: — Professora Hu, excluindo oceanos e os polos, a terra habitável não passa de cem milhões de quilômetros quadrados. Já está bem apertado!

Se não estivéssemos no território de outros, provavelmente teríamos descontado nossa raiva naquele motorista inescrupuloso. No fim, chamamos os vizinhos e quase viramos o jogo. Nesse momento, o rapaz que nos acompanhava foi fundamental para recuperarmos a mala de Hu Shanshan e sairmos ilesos.

Como agradecimento, decidimos convidar o rapaz para jantar. Porém, era véspera de Ano Novo e ninguém quis nos atender. Rodamos pelo vilarejo duas vezes e não encontramos lugar algum para comer.

As pousadas estavam fechadas ou sem quartos. Depois de muito procurar, achamos uma casa de hóspedes, mas havia somente dois quartos.

— E agora? — perguntei, já sem opções, olhando para todos.

Diante do impasse, Zhao Ziwú também deixou de lado a ideia de sua privacidade e declarou, com nobreza: — As duas moças ficam em um quarto, nós três nos apertamos no outro. — E, então, olhou para Wang Yuqing com ternura: — Querida, vamos nos adaptar um pouco.

Wang Yuqing assentiu, segurou o braço de Hu Shanshan e a puxou: — Irmã Shanshan, vamos para o quarto.

À noite, o dono da hospedaria preparou alguns pratos para nós e, enfim, tivemos um jantar quente e digno da véspera de Ano Novo.

O rapaz, chamado Zhou Jie, era bem comunicativo e não parou de conversar durante o jantar. Só então soubemos seu nome, que tinha 27 anos e era operário da construção civil. Por conta do atraso no pagamento, perdeu o horário de partir de Wushi e, como Zhouzhuang não era longe, decidiu voltar a pé, o que levou ao nosso encontro.

— Irmão, um brinde! Amanhã seguimos juntos! — Zhou Jie, já alterado, levantou o copo, trôpego: — Vou contar pra vocês, conheço bem esse caminho. Quando eu era pequeno...

Também bebi um pouco de aguardente, fiquei tonto e nem sei quando o jantar terminou. Sem tomar banho, fui direto dormir.

No meio da noite, acordei com o toque do telefone de Zhao Ziwú. A ressaca me deu sede, então levantei para beber água. Após meio copo de chá frio, ao voltar ao quarto, vi Zhou Jie encostado na cama, fumando. Ao me ver, indicou com os olhos a direção do banheiro.

— Canalha!

— O quê? — perguntei, sem entender. Olhei para a cama e percebi que Zhao Ziwú não estava lá; devia estar, como eu, sentindo os efeitos do álcool. Acompanhei o olhar de Zhou Jie e vi uma luz fraca no banheiro, de onde vinha a voz de Zhao Ziwú.

— Por que não dorme logo? Vai dormir! — Não era da minha conta bisbilhotar a vida dos outros. Zhou Jie podia ser imprudente, ter caráter duvidoso, até ser uma má pessoa, mas isso não me dizia respeito. Ele, por acaso, invadiu meus direitos?

— Minha resistência ao álcool é melhor que a de vocês, hein... — Zhou Jie gabava-se, dando tapinhas na barriga e soltando uma fumaça com ar de superioridade.

— Pois sim! — ri, sacudi os lençóis e afastei a fumaça com a mão. Não tínhamos intimidade para pedir que parasse de fumar, mas, refletindo um pouco, pedi que não o fizesse. Virei de lado e disse: — Ei, sobre o gerente Zhao, não deixe que aquela moça saiba, entendeu? Finja que não ouviu nada.

— Entendi! — respondeu Zhou Jie, distraído, afagando o estômago em meio ao torpor.

Naquele dia, todos nós recebemos incontáveis ligações dos familiares, especialmente Hu Shanshan, cujo celular só parou de tocar quando a bateria acabou. Depois daquela noite, um novo ano se iniciaria, trazendo renovação. Talvez, finalmente, nossa má sorte chegasse ao fim.