Capítulo Vinte e Cinco: Preparando Bolos de Arroz
Dois meses depois, voltei a Cidade de Rao. O céu ainda permanecia incrivelmente azul, o vento continuava suave e a luz do sol, radiante e cálida, revestia tudo de uma atmosfera acolhedora. Ao respirar fundo diante das ruas movimentadas, parecia que o aroma dos cabelos dela voltava a envolver-me.
“Você realmente não vai conosco?” perguntou Lúcia, com um olhar cheio de mágoa, espiando pela janela do carro.
“Tenho mesmo algumas coisas a resolver.” Pegando a mochila do porta-malas, acenei para o grupo. “Divirtam-se! Não esqueçam de me buscar depois.”
“Mentiroso!” Lúcia exclamou, irritada. Franziu o nariz para mim, fechou a janela e murmurou: “Se eu soubesse que ia ser assim, não teria insistido tanto para você vir.”
Vendo o carro se afastar, finalmente liguei para Susana. O som do telefone tocando deixou-me inquieto.
“Oi? Cheguei à Cidade de Rao.”
“Meu Deus, você veio mesmo!”
“Como faço para chegar até aí? Me envie sua localização.”
“O lugar onde trabalho é bem afastado. Vá até a rodoviária e pegue o ônibus para Geoyan,” explicou Susana.
“Geoyan?”
“Sim, estou na Escola Central de Geoyan. Quando chegar, me liga de novo. Estou dando aula.”
Susana desligou após falar, e era dez da manhã; decidi não incomodá-la mais. Seguindo suas instruções, fui à rodoviária e, depois de perguntar a vários transeuntes, consegui encontrar o ônibus para Geoyan. O ônibus partia a cada meia hora, com horário fixo, e calculei que encontraria Susana por volta do meio-dia.
Quando o ônibus entrou roncando na estrada estadual, senti uma onda de emoção incontrolável, como se estivesse pilotando um tanque rumo à linha de frente. Não nego que sou alguém que não consegue ficar preso em casa—em termos modernos, tenho o espírito livre. Apesar de ter viajado pouco, sempre fui leitor assíduo de revistas de geografia, e já conhecia bem as belezas naturais únicas da região de Rao. Contudo, até então, eram apenas imagens idealizadas em revistas e programas de TV; não sabia como seria vê-las ao vivo. Comecei, inclusive, a sentir um medo inexplicável.
Depois, pensei que Susana provavelmente não teria tempo para me acompanhar; nossos períodos de férias não coincidiam. Senti certa decepção.
O ônibus balançava lentamente, e a luz do sol filtrava-se pelas cortinas e pelas árvores à beira da estrada, lançando fios dourados sobre meu rosto e me aquecendo a ponto de provocar sono. Como a viagem até Rao levava seis horas, Lúcia me acordara de madrugada, e como dormira tarde na véspera, só consegui descansar duas horas no total.
O ônibus não era direto; temia perder a parada caso adormecesse, então forcei-me a ficar acordado. O método mais eficaz para lutar contra o sono é conversar com alguém, focando a atenção. Mas ao meu lado estava apenas uma senhora, abraçada a um cesto de bambu coberto por uma toalha grossa, cujo conteúdo era um mistério. Por várias vezes, a curiosidade quase me levou a levantar a toalha, mas a senhora, ainda marcada pela menopausa, olhava para todos como se cada um lhe devesse oito sacos de arroz, o que me intimidava e impedia de agir.
Demoraria quase duas horas até chegar a Geoyan; esse tempo, embora não fosse longo, parecia sufocante. Por fim, não resisti e puxei conversa com a senhora. Foi a abordagem mais estranha que já fiz—ela não era cliente nem uma bela moça, nem tinha um objetivo claro, apenas queria trocar palavras.
A senhora era desconfiada, talvez pelas muitas histórias de golpes contra idosos, e os filhos sempre ficavam atentos a isso. Mas, sendo vendedor, acostumado à arte da comunicação, com um pouco de observação e jogo de cintura, consegui fazê-la soltar a língua.
Logo descobri que ela também ia para Geoyan, e, coincidentemente, seu destino era a Escola Central, o mesmo lugar que Susana.
“Senhora, o que tem nesse cesto?” perguntei, curioso.
Ela retirou camadas da toalha, revelando bolos brancos e macios.
“São bolinhos de arroz,” respondeu.
Assenti, vendo o cesto recheado de bolos arrumados, cada um com um pontinho vermelho no centro, muito apetitoso.
“Ouvi dizer que os bolinhos daqui são deliciosos. Nunca tinha visto como eram.”
Ao ouvir isso, a senhora franziu a testa, demonstrando hesitação. Por fim, com determinação, pegou uma pilha e me ofereceu: “Pegue, a vovó quer que você experimente.”
Fiquei surpreso, recusei rapidamente, percebendo que minhas palavras haviam sido mal interpretadas. Sentia certo arrependimento e uma ponta de emoção.
“Não, não, não posso levar,” disse.
Ela olhou para minha mochila e perguntou: “Você não está com uma bolsa?”
“Senhora, minha mochila está cheia,” expliquei, abrindo o zíper para mostrar.
Ela esticou o pescoço para olhar e, ao me encarar, um sorriso astuto surgiu em seu rosto.
“Vai a Geoyan ver sua namorada?”
Enquanto recolocava os bolinhos no cesto, perguntou rindo: “Não se engane, eu entendo de tudo!”
Depois, contou que seu neto mais velho, da minha idade, também trabalhava na Escola Central de Geoyan. Ela aproveitava a entrega dos bolinhos para visitá-lo.
“Meu neto, desde pequeno, sempre foi muito romântico. No ensino médio já namorava, de vez em quando levava uma moça para casa.”
“Que incrível!” elogiei. “Seu neto deve ser muito querido pelas meninas.”
“É mais ou menos,” disse, com orgulho. Suas mãos ossudas acariciavam o cesto. “Ele gasta sem dó. Coisas como essas, ele já comprou muitas vezes. Culpa minha, sempre que pede dinheiro, dou, seja muito ou pouco.”
Ao ouvir isso, senti um aperto no coração. Minha avó também me mimava e dava dinheiro de tempos em tempos. O carinho das avós é universal: economizam a vida toda, mas não hesitam em dar até o dinheiro do caixão ao neto.
“Ser seu neto deve ser uma felicidade,” comentei.
“Ele não pensa assim!” riu. “Logo vai querer que eu vá embora, acha que atrapalho.”
Sorri, conversando sobre temas diversos e perguntando sobre Geoyan, até que chegamos à rodoviária.
Ao descer, segui a senhora até o colégio. Era meio-dia, e os alunos estavam saindo, brincando em pequenos grupos pelo pátio. A bandeira vermelha tremulava acima, exalando aquele aroma de livros típico dos ambientes escolares.
A senhora, habituada a visitar o neto, entrou sem ser questionada pela segurança, mas fui barrado. Não havia necessidade de entrar; enviei uma mensagem para Susana e sentei-me junto ao canteiro de flores para esperar. Quando passavam alunos, eu os chamava e perguntava sobre a professora Susana, colhendo informações sobre ela.
Logo Susana apareceu, procurando ao redor da portaria e me enviando uma mensagem: “Onde você está?”
Ao ler, lembrei-me da primeira vez que a vi em Cidade de Wu: aquele meio-dia ensolarado, ela debaixo de um grande arco de flores, parada com as mãos sobre o ventre, segurando uma bolsa branca. Aquela cena era de uma beleza pura, quase etérea.