Capítulo Dez: Ceia de Ano-Novo
Continuamos seguindo pela estrada principal, desviando apenas quando era necessário corrigir a direção pelas trilhas do interior. À medida que nos afastávamos cada vez mais do centro da cidade, a paisagem tornava-se desolada, sem vilarejos ou fábricas à vista, apenas campos abandonados cobertos por ervas daninhas.
— Não tem mais estrada à frente? — Olhei para o celular e depois para o caminho à frente. Mesmo a velha estrada de cimento, cheia de buracos, terminava abruptamente ali. Restos de tijolos vermelhos e telhas estavam espalhados entre os matagais.
Zhao Ziwú empurrou os óculos na ponta do nariz, a testa franzida.
— Aqui antes era uma aldeia, mas foi demolida.
Eu e Shanshan olhamos instintivamente para trás, sentindo um desânimo impossível de conter.
— Não podemos voltar, e agora? — Wang Yuqing perguntou, com o rosto carregado de preocupação.
Hu Shanshan engoliu em seco, e seus olhos mostravam agora uma mistura de dureza e raiva.
— Só nos resta seguir em frente!
Não achava que essa fosse a decisão mais sensata, mas tinha razões para apoiá-la. Ampliei o mapa no celular: fora daquela área, havia um lago, parecia ser uma região turística.
— O navegador não cobre esta zona, mas a direção está certa! Se continuarmos andando, em duas horas chegaremos à estrada principal.
— Então, o que estamos esperando? Vamos! — Hu Shanshan demonstrou ainda mais coragem, afastando as ervas daninhas, que chegavam à altura da cintura, e tomou a dianteira. Imaginei que realmente devia ter algo importante que a fazia querer voltar para casa, e não estava mais se preocupando com nada.
Aquele foi sem dúvida o trecho mais difícil. Não havia caminho, apenas mato alto por todo lado. Ninguém sabia se à frente haveria poças d’água ou valas. As roupas ficaram cobertas de sementes e as gotas de chuva presas nas folhas logo nos deixaram encharcados. Para piorar, entre as ruínas de antigas casas, Hu Shanshan tropeçou e abriu um corte profundo no pulso ao bater em uma telha quebrada, um ferimento sangrento e assustador.
Não tínhamos nenhum material de primeiros socorros. Imaginando as cenas que víamos na televisão, tentei improvisar um curativo, mas naquele momento Hu Shanshan parecia uma criança teimosa, empurrou-me para longe, limpou a sujeira das roupas e continuou andando, deixando o sangue escorrer pelos dedos.
— Não pode continuar assim! — Corri atrás dela, chamando, aflito.
Hu Shanshan massageava o ombro, sem olhar para trás, seguindo em frente. Ao perceber que eu a seguia, tagarelando sem parar, ela se virou subitamente, lançando-me um olhar feroz e disse, fria:
— Para de reclamar! Não sou tão frágil assim.
Dito isso, voltou a avançar, ignorando qualquer palavra minha. Wang Yuqing e Zhao Ziwú lançaram-me olhares solidários, mas nada podiam fazer.
Não sei por quanto tempo mais caminhamos. Contornando um lago coberto de juncos, encontramos uma clareira nivelada, cheia de tijolos vermelhos. Sentamos para descansar. As guloseimas que havíamos comprado na noite anterior finalmente serviram de alguma coisa e as repartimos como almoço.
Mas ninguém tinha apetite. Zhao Ziwú fumou dois cigarros seguidos. Usei a cinza para estancar o sangue do ferimento de Hu Shanshan. Agora ela não mostrava mais a resistência de antes; ficou quieta, observando-me enfaixar seu pulso, e seus olhos perderam a impaciência, tornando-se serenos.
— Ainda bem que o corte não é profundo, mas precisa ser tratado logo, pode infeccionar — disse, entregando-lhe um pedaço de tofu seco. — Quer comer mais um pouco?
Hu Shanshan balançou a cabeça e afastou, talvez percebendo que seu comportamento anterior fora rude. Olhou para meu rosto por um instante e murmurou:
— Obrigada, Lyu Xia.
— Ora, agradecer por quê?
Ao ver meu sorriso, ela também sorriu, levantando o rosto ao céu e soltando um suspiro:
— Tenho que ser humilde! Vai que você é rancoroso, se irrita e me deixa aqui sozinha?
Wang Yuqing, que flertava com Zhao Ziwú, largou a coxinha de frango e, lambendo os dedos, falou:
— Se ele te abandonar, nós cuidamos de você, irmã Shanshan.
— Cuida de você mesma primeiro — respondeu Zhao Ziwú, pegando um lenço para limpar as mãos dela, atencioso como quem cuida de uma criança.
Eu e Hu Shanshan olhamos para eles, encantados com aquele instante de paz. Às vezes invejava o afeto deles. Se pudessem ser sempre assim, talvez isso fosse o tal da felicidade.
Quando Zhao Ziwú jogou fora o lenço, notou o tofu seco que eu tinha aberto e pegou um pedaço, surpreso ao gostar do sabor:
— Hmm?
— Gostoso? — Wang Yuqing ergueu o rostinho, abrindo a boca como um gato pidão.
Zhao Ziwú colocou um pedaço na boca dela e ofereceu mais para nós:
— Comam mais um pouco! Esta é nossa “ceia de Ano Novo”.
Os três se espantaram, só então percebendo que aquele era nosso jantar de Ano Novo. Quem imaginaria comer assim, naquele lugar, aquelas coisas? Não pudemos deixar de nos sentir emocionados.
Percebendo o clima estranho, Hu Shanshan quebrou o silêncio com um sorriso, pegando um pedaço de tofu com os dedos delicados:
— Em casa, também são só algumas pessoas à volta da mesa. Assim também é divertido, não acham?
— Sim, tem seu charme! — Sorri, mastigando o tofu. — E este aqui está ótimo, perceberam? Tem gosto de costela ao molho.
— Sério? Tem mesmo? — Wang Yuqing acreditou e, arrependida de ter engolido tudo depressa, inclinou a cabeça, tentando sentir o sabor. — Acho que tem mesmo!
— Não é? — Vasculhei o saco de guloseimas e entreguei outro a Wang Yuqing. — Olha só! Este é sabor carne de porco ao molho.
Hu Shanshan espiou e resmungou, fazendo pouco caso:
— Ficou maluco de fome? Carne de porco ao molho, que frescura!
Ignorei e abri o outro pacote de tofu seco:
— Ops! Errei, é sabor peixe agridoce!
Wang Yuqing esticou o pescoço, animada:
— Eu quero o de peixe agridoce!
— Vamos brindar? — Zhao Ziwú abriu uma garrafa de água mineral, dando um tom cerimonioso ao gesto. — Pequeno Xia, um brinde entre nós dois?
Só então percebi que “Pequeno Xia” era comigo. Abri minha garrafa e brindamos.
— Senhor Zhao, meu nome é Lyu Xia, o sobrenome é Lyu, não Xia.
Bebemos como se fosse vinho e, antes que pudesse enxugar as gotas de água do queixo, Hu Shanshan também se sentou ereta:
— Pequeno Xia, nós também brindamos?
— Eu também quero brindar com o Pequeno Xia! — Wang Yuqing entrou na brincadeira.
— Está bem, está bem! Um brinde a todos vocês...
...