Capítulo Doze: Febre
No dia seguinte, o dono da pousada preparou ovos cozidos em água vermelha para nós, como se cuidasse de familiares. Os costumes variam de lugar para lugar; ali, cozinhar ovos também é chamado de cozinhar “moedas de ouro”. Dizem que quanto mais “moedas de ouro” se come, mais dinheiro se ganha no ano novo. Hu Shanshan, sempre gananciosa, serviu uma tigela cheia, seis ou sete ovos, mas não conseguiu comer nem três e insistiu em me oferecer. Eu, por minha vez, achei que podia com tudo, mas ao encarar aquela tigela cheia de ovos brancos e vermelhos, percebi que havia superestimado minha capacidade.
Como o dono não cobrou por aquele café da manhã, sentíamos a obrigação de comer até o fim; primeiro, os ovos foram devorados até que não sobrasse nada na tigela, depois esperávamos o proprietário abrir a porta para receber o deus da fortuna. Ninguém podia abrir a porta antes dele, ou isso desmancharia a sorte da casa.
Sem fogos de artifício, o ano novo parecia menos festivo, mas sabíamos que era o primeiro dia do ano e ainda sentíamos um pouco de entusiasmo e alegria.
Seguimos viagem como de costume, sem alternativa a não ser avançar. Em mais um ou dois dias de caminhada chegaríamos a Xi Shui. Apesar do medo, o desejo de voltar para casa nos deu coragem para continuar.
Ao sair da pousada, o dono foi muito atencioso, querendo que o ano começasse bem; deu-nos um punhado de doces. Mas Zhao Ziwu, pouco agradecido, assim que ficamos fora de sua vista começou a reclamar dos preços.
— Podia ao menos parar de reclamar, já é bom ter onde dormir, não nos deixou sob uma ponte — Wang Yuqing, mais otimista, tentou acalmar Zhao Ziwu. — E, além disso, você não está pagando sozinho, não é tudo dividido igualmente?
Zhao Ziwu pensou, ainda achando injusto, e cochichou ao lado de Wang Yuqian: — Você é boba, originalmente o dinheiro era fixo para um quarto só. Agora, para acomodá-los, dividimos e pagamos mais, mas as condições pioraram. Deveríamos pagar um quarto, não dois.
Wang Yuqing não entendeu bem a lógica, mas preferiu não discutir. — Qual a diferença? É muito dinheiro?
— Não é uma questão de dinheiro! — Zhao Ziwu resmungou, mas logo percebeu que, se não era sobre dinheiro, então sobre o quê? Seus olhos giraram inquietos e suspirou resignado: — Deixa pra lá, é ano novo.
Zhou Jie ia à frente guiando o caminho, seu passo era rápido, frequentemente precisava esperar por nós e, com o tempo, começou a reclamar. Mas não queria caminhar sozinho, então se adaptou. Eu empurrava a mala ao lado de Hu Shanshan, ficamos para trás e, ao perceber a distância, Hu Shanshan me falou baixinho:
— Lu Xia, preciso te contar uma coisa, não sei se vai se assustar.
— O quê? — Senti um nervosismo estranho, pois vi os lábios de Hu Shanshan pálidos, o rosto abatido, a voz séria.
Hu Shanshan olhou para frente, depois virou-se para mim, encarando meus olhos, e disse pausadamente:
— Acho que estou com febre.
— O quê?
— Estou doente.
Seus olhos brilhantes fitavam os meus, demoradamente, como se procurasse qualquer sinal de medo.
— Você está com medo? A febre é um dos sintomas daquela doença contagiosa, posso ter sido infectada!
— Não pode ser! Não se assuste assim... — Instintivamente toquei sua testa, mas ela afastou minha mão e desviou o rosto: — Não deixe que eles vejam.
Nesse momento comecei a ficar apreensiva, sentindo um medo que me fazia querer recuar um passo.
Zhou Jie chamou-nos à frente, apressando-nos.
Respondi, silenciosamente envolvi o ombro de Hu Shanshan, caminhando e dizendo:
— Não pense besteira. Se for aquela doença, ninguém escapa. Mas estamos bem, deve ser só um resfriado. Talvez o ferimento de ontem, não tratado, tenha causado uma febre leve. Vou comprar remédio para febre, vai ficar tudo bem.
Hu Shanshan, meio desconfiada, olhou para o próprio pulso, depois para mim, perguntando:
— Um ferimento pode causar febre? Não está inventando?
— É comum, e você sabe qual foi meu curso na universidade. Tenho conhecimento disso.
— Lembro que era agropecuária.
— Pecuária e aquicultura!
Hu Shanshan ergueu o rosto, perplexa:
— E o que isso tem a ver com medicina?
— Animais também ficam doentes!
Hu Shanshan parou abruptamente e me deu um chute:
— Vai morrer, veterinário!
Ao vê-la ainda capaz de me chutar, fiquei aliviada; os sintomas daquela doença eram tosse, febre e fadiga. Mas, em tempos assim, era melhor não confiar na sorte. Então disse:
— Avalie como se sente, se piorar, temos que ir ao hospital!
— Estou bem! — Hu Shanshan mordeu os lábios, tentando se animar. — Só estou um pouco tonta. Se vir uma farmácia, compre remédio pra mim.
Assenti:
— Vamos evitar comentar, Zhao Ziwu não parece ser alguém confiável.
— Hehe — Hu Shanshan riu de si mesma. — Em situações assim, todo mundo pensa em si. Não tenho medo, só quero voltar para casa logo.
— Vai ser rápido, logo estaremos em casa.
As farmácias da vila estavam todas fechadas, então fomos ao posto de saúde do distrito. Devido à epidemia em Wu Shi, o médico olhou para mim com cautela, primeiro pediu para medir a temperatura.
— De onde você vem? Para quem é o remédio? Quem está com febre? — A médica, com seus quarenta anos, fez várias perguntas, e ao terminar ainda advertiu: — Se alguém em casa tiver febre, leve ao hospital, sabe que há uma doença contagiosa, não sabe?
— É só para prevenir resfriado. Quem se arrisca a ficar doente agora?
Achei meu argumento fraco, mas a médica compreendeu e assentiu, aliviada:
— É verdade! Melhor não adoecer agora.
Ela me deu um remédio para resfriado, dizendo que era mais eficaz para prevenção.
Agradecendo muito, saí do posto de saúde. Hu Shanshan, temendo ser vista pelo médico e levada para isolamento, esperava a alguns metros, apoiada na mala. Quando me viu, sorriu radiante, acenando.
— E os outros? — Entreguei o remédio para Hu Shanshan, olhando ao redor.
— Estão à frente — ela respondeu, engolindo o comprimido e tomando água.
— Fizeram muitas perguntas?
— Eu disse que você foi comprar máscaras.
— Ah.
— O melhor seria comprar um termômetro — Hu Shanshan disse, meio distraída.
...