Capítulo Sete: O Motorista Sombrio
Um Santana velho e desgastado parou diante de nós. O motorista nem abriu a porta, apenas ergueu os dedos e mostrou um número.
— Setecentos? — Os olhos de Zé Meio-dia quase saltaram.
— Vai ou não vai? Se for, paga quinhentos adiantado.
Olhamos para a rua desolada e o céu carregado. Sabíamos que o preço era abusivo, mas mordemos os lábios. Era o fim da linha; se não fosse, ele não cobraria isso.
— Vocês estão explorando demais! Quando eu voltar, vou trazer meu carro para fazer negócio aqui.
Zé Meio-dia entregou os quinhentos com extrema má vontade, recostando-se no banco do passageiro e soltando ironias. O motorista, com seus mais de cinquenta anos e muita experiência, ignorava e seguia dirigindo.
Hui Shanshan e eu trocamos um olhar, ela então bateu no encosto do banco e falou:
— Gerente Zé, deixa que pagamos.
Zé Meio-dia hesitou, depois agiu com falsa generosidade.
— Não, não precisa.
— É o certo! — respondeu Hui Shanshan, me cutucando. — Você tem dinheiro em espécie? Depois te transfiro pelo aplicativo.
— De verdade, não precisa. — insistiu Zé Meio-dia, mas quando lhe entreguei os quinhentos, ele segurou firme.
— Bem... ah, deixa pra lá. Quando eu for levar vocês de volta, faço o possível para deixar vocês no lugar certo. Em pleno feriado... ah!
— Muito obrigado, gerente Zé. Só nos leve até Cidade Gorda. — Aproveitei para agradá-lo, tentando tirar o máximo valor daqueles quinhentos.
— Fico sem jeito, mas essa negociação é mesmo cansativa. — suspirou Zé Meio-dia, guardando o dinheiro na carteira.
O motorista lançou um olhar para o gerente Zé, não esquecendo de lembrar:
— Quando descer, tem mais duzentos. Não esqueça, hein.
Zé Meio-dia ficou rígido, respondendo irritado:
— Não vai faltar nem um centavo pra você.
Wang Yuching ajeitou a máscara no rosto e disse:
— Querido, por que você não entrega o dinheiro todo agora?
Hui Shanshan e eu nos arrepiamos com o “querido”; até o motorista se espantou, olhando pelo retrovisor.
Hui Shanshan me cutucou de novo, e eu rapidamente tirei mais duzentos e ofereci:
— É por nossa conta.
O motorista olhou pelo retrovisor, prestes a pegar, mas Zé Meio-dia segurou minha mão:
— Não se apresse, entrega quando chegarmos.
Quando insisti, ele falou baixinho:
— Confia em mim! Quando chegar à minha idade e posição, vai entender: muita coisa só se define no último momento. Além disso... é sempre bom ter cautela!
Talvez Zé Meio-dia falasse por experiência de vida; afinal, era mais velho e conhecia o mundo melhor que nós. O motorista, entretanto, ficou visivelmente incomodado, e senti o carro acelerar.
Depois de um dia difícil, estávamos exaustos. Hui Shanshan logo adormeceu sobre meu ombro; mesmo com a máscara, sentia o leve perfume de seus cabelos, e tive um impulso de acariciá-la. Mas me contive e, encostado no banco, também fui dominado pelo sono.
Adormeci sem perceber, mas não por muito tempo. Um freio brusco nos acordou. Ainda sonolento, vi muitos carros à frente, com agentes de trânsito checando um por um.
— Chegamos? — Wang Yuching perguntou, esfregando os olhos.
— Droga! Estão fiscalizando. — resmungou o motorista, virando-se para nós: — Desçam, sigam pela via lateral. Espero vocês adiante.
— Tem certeza? — Hui Shanshan hesitou.
— Não se preocupem! — explicou o motorista. — Devem estar só testando alcoolemia. Se pegarem serviço ilegal, apreendem o carro. Não é só por mim, é por vocês também! Espero vocês a duzentos metros.
Não tivemos escolha senão descer e seguir a pé. Hui Shanshan, porém, estava preocupada, sem se mover:
— Prefiro não descer! Depois digo que sou sua filha.
O motorista riu, mas sério:
— Não é brincadeira, pode mesmo perder o carro!
Eu ajudei a convencê-la:
— Não complique para ele, são só alguns passos.
Hui Shanshan lançou um olhar de reprovação, resignada ao sair.
O vento frio nos despertou imediatamente. Olhando ao redor, já não havia o brilho da cidade; fábricas e casas espremidas, hortas e postes misturando-se. Pela hora e pelo tempo, o entardecer já parecia noite. Faróis de carros varriam nossos corpos.
Wang Yuching procurava calor no abraço de Zé Meio-dia. Eu e Hui Shanshan sopramos as mãos, ansiosos diante da inspeção, com um sentimento inexplicável de inquietação.
— Será que convenço como filha dele? — Hui Shanshan me chutou, triste.
— Talvez ele não acredite que teve uma filha tão bonita. — Brinquei, sorrindo. — Mas você pode ser nora dele, eu me sacrifico e viro filho?
— Sacrifício grande, não seria injusto? — Hui Shanshan provocou.
— Injustiça não importa, o problema é que ele jamais teria um filho como eu!
— De fato, não teria, você é bem mais feio.
Nesse momento, Zé Meio-dia parou subitamente, desconfiado ao ver os carros passarem.
— Será que ele voltou? — perguntou.
Eu e Hui Shanshan não percebemos nada, apenas balançamos a cabeça olhando adiante, onde os carros se amontoavam, com lanternas vermelhas.
Wang Yuching de repente saltou, apontando à frente, incrédula:
— Ele não está lá! Reconheço aquele caminhão, antes estava à nossa frente.
Eu e Hui Shanshan nos entreolhamos, mas ao olhar para trás, só vimos a noite escura, sem nenhum farol.
— Ele fugiu? — Senti vontade de rir, mas não consegui.
Zé Meio-dia, preocupado com Wang Yuching, a confortou:
— Talvez tenhamos nos enganado, o carro já passou. Ou ele pegou outro caminho, esses motoristas experientes são astutos.
Concordei, sem muita convicção:
— É, talvez o carro tenha algum problema, não quer ser fiscalizado.
— Se havia outro caminho, por que nos fez descer? — Hui Shanshan não se deixou enganar, me chutando novamente. — Culpa sua, eu disse que não queria sair.
— Devíamos ter deixado alguém no carro, foi descuido. — Wang Yuching quase chorando, olhou ao redor e perguntou a Zé Meio-dia: — E agora? Estamos no meio do nada.
— Não se preocupe, querida. — Zé Meio-dia, com todo o cuidado, abraçou Wang Yuching. — Vamos seguir, talvez o motorista esteja esperando. Ainda faltam duzentos para ele.
Olhei discretamente nosso lugar, sentindo amargura. Ainda faltava dois terços do caminho até Água Clara; era pouco justificável confiar por duzentos reais.
Hui Shanshan não queria continuar andando, olhou para baixo e com voz amarga disse:
— Lyu Xia, se o motorista realmente fugiu, vou te matar com as próprias mãos.
Zé Meio-dia riu:
— Shanshan, eu e Yuching te ajudamos a segurá-lo.
Senti injustiça, como se fosse minha culpa.
Ao passarmos pela fiscalização, os agentes nos chamaram, mediram nossa temperatura com um termômetro infravermelho e perguntaram nosso destino. Achei estranho, mas respeitei o uniforme e colaborei. Notei que distribuíam máscaras aos motoristas sem proteção e fui pedir algumas.
— Você é cara-de-pau! — Hui Shanshan disse, trocando a máscara.
— Não pode elogiar de forma mais simpática? Fiz isso por todos.
— Estou elogiando!
— E como respondo? Digo que exagerou, não sou tão cara-de-pau assim?