Capítulo Dezenove: "A Imensidão do Céu"
“Obrigada.” Quando Sun Yuehe foi animada trocar de roupa, Zhang Qing olhou para Qi Juan e disse.
Qi Juan arqueou as sobrancelhas e sorriu, satisfeita: “Foi só um detalhe.”
Liu Shanshan comentou de maneira sarcástica: “De fato, é só um detalhe. Uma Huang Rong encantadora da Ilha Flor de Pêssego, e um Guo Jing meio tolo vindo do deserto do noroeste.”
Qi Juan riu: “Você está enganada quanto a isso.”
“Como assim?” Liu Shanshan perguntou, divertida.
Qi Juan explicou: “Do noroeste não veio só Guo Jing, mas também Ouyang Ke. Você acha mesmo que Guo Jing seria capaz de escrever um best-seller?”
Liu Shanshan caiu na gargalhada: “Verdade, Zhang Qing é Ouyang Ke! Mas espere, Ouyang Ke também foi pedir casamento na Ilha Flor de Pêssego. Zhang Qing, por que não tenta?”
Zhang Qing entrou na brincadeira: “Tenho medo do pai dela me matar com um golpe de palmas.”
“Pfff!” Qi Juan riu: “Se você tiver coragem de ir, talvez ele nem te mate.”
Zhang Qing balançou a cabeça, sensato: “Se eu fosse o tio Qi, bateria até morrer.”
Liu Shanshan olhou para Zhang Qing, admirada: “Depois de tanto tempo convivendo com a Juan, você é o único rapaz que conheço que conseguiu manter a calma e não se apaixonar.”
Qi Juan reclamou, rindo: “Que jeito de falar é esse? Parece até que sou uma mulher volúvel e sem pudor.”
Liu Shanshan apressou-se em explicar: “Quis dizer que eles é que se apaixonam por você, não o contrário.”
Qi Juan resmungou: “Besteira, é tudo a mesma coisa. Se eu não fosse assim tão cativante, por que se interessariam?”
Liu Shanshan, por uma vez, ficou séria e olhou para Zhang Qing: “A Juan sempre foi prestativa, gosta de ajudar colegas e amigos, mas tudo na medida certa, só pequenas gentilezas. Só com você é diferente.”
Zhang Qing assentiu. Qi Juan exclamou: “Ouvindo isso, o que sente?”
Zhang Qing pensou um pouco e disse: “No começo, fico contente em segredo, vaidoso, depois começo a me agitar... mas no fim mantenho a calma.”
Ele falou com sinceridade, mas Liu Shanshan só prestou atenção na parte sobre estar “agitado” e riu maliciosamente ao lado.
Qi Juan protestou, sorrindo: “Você está muito acelerado! Por ora, ficar contente já basta.”
Liu Shanshan ia dizer algo, mas justo nesse momento viu Sun Yuehe sair. Juro, ela tentou se conter, mas não resistiu e caiu na risada.
O rosto áspero de Sun Yuehe ficou imediatamente vermelho de vergonha, e ela disse apressada: “Está muito chamativo, não está? Pareço uma bruxa velha. Melhor eu nem ir.”
No interior de Xinjiang, em 1995, a moda era um casaco grande de pele de carneiro vermelho, bordado com flores – enfim, difícil descrever.
Essa roupa, Sun Yuehe só comprou porque ia à cidade grande e decidiu de todo o coração não fazer o filho passar vergonha, investindo tudo o que podia.
Mas ao ver as roupas modernas de Qi Juan e suas amigas, e as dos professores, Sun Yuehe, de olhos abertos para um novo mundo, de repente percebeu que aquilo não era bonito.
Qi Juan se aproximou sorrindo, segurou Sun Yuehe pelo braço, que queria voltar para trocar de roupa, e disse: “Tia, isso é puro estilo do noroeste! Tenha confiança, ficou ótimo. Se você trouxer outra igual, eu uso junto com você na rua, e aí, quem vai rir da gente?”
Quando Sun Yuehe se acalmou, Qi Juan acrescentou, sorrindo: “Mas é bom levar uma roupa mais leve, o bar tem aquecedor e ar-condicionado, é bem quente.”
“Ar-condicionado?” Sun Yuehe claramente não sabia o que era.
Zhang Qing explicou em voz baixa: “É como nosso fogão de casa, mas funciona com eletricidade e solta ar quente.”
Mesmo em uma cidade grande como Jiangjin em 1995, o ar-condicionado ainda era raro; só a taxa para aumentar a carga elétrica já era cara demais para a maioria das famílias, e mesmo quem tinha dinheiro nem sempre conseguia instalar...
Ao ouvir isso, Sun Yuehe rapidamente disse: “Então melhor trocar por algo mais leve.”
Qi Juan sugeriu: “Pode vestir o casaco, com uma blusa de lã por baixo, aí chegando lá, é só tirar o casaco.”
Sun Yuehe concordou, dessa vez foi bem mais rápido, trocou por uma roupa simples e limpa, e todos pegaram o ônibus para Han Zhengjie, no Bar Amanhã.
...
“Boa noite, seja bem-vinda! Sou o pai da Qi Juan, e Zhang Qing é um ótimo rapaz, muito responsável, gostamos muito dele.”
Qi Ping, depois que foi apresentado por Qi Juan, apertou a mão dela com um sorriso formal.
Qi Ping era alguém realmente experiente, e com o passar dos anos se tornara ainda mais simples e despojado, sem qualquer arrogância.
Sun Yuehe, sem saber quem ele era, cumprimentou-o e comentou: “Meu amigo, tenho inveja de você, sua filha é melhor que uma princesa!”
Qi Ping riu alto: “Essa eu admito, mas, sinceramente, Zhang Qing merece ainda mais elogios. Juan, cuide bem da tia.”
Depois pediu ao garçom que trouxesse sucos, frutas e petiscos para todos.
No palco do bar, alguém cantava, acompanhado por cinco músicos.
Havia várias mesas e cadeiras, as pessoas bebiam, conversavam e, quando o cantor fazia uma boa apresentação, todos aplaudiam.
Os clientes, embora não fossem senhoras aposentadas como Qi Juan brincara, de fato incluíam algumas mulheres mais velhas.
Poucos, porém, incomodavam os outros, diferente do vilarejo, onde mesmo desconhecidos conversavam juntos, e mesas vizinhas acabavam num bate-papo coletivo...
“Zhang Qing, vai cantar uma música!”
O lado brincalhão de Liu Shanshan enfim apareceu: “Você só tem tido alegrias ultimamente, seu pai está cada vez mais saudável, e sua mãe também melhorou. Tenho certeza de que sua família vai ficar cada vez melhor. Num momento tão emocionante, como não compor uma música? Dizem que, depois de casar, homem esquece da mãe, não pode... você entende. Cante para sua mãe, vai!”
Qi Juan observava a cena, rindo. Vendo Zhang Qing olhar para ela, perguntou: “Já terminou aqueles livros? Como está indo? Eu não consegui aprender nada, só de ver os termos ‘bínario’, ‘modulação’, ‘contraponto’ já fico tonta.”
Compor não é apenas ter uma ideia para uma melodia e cantar uns acordes. Exige um conhecimento muito mais amplo do que se imagina.
As músicas populares são desprezadas justamente por sua simplicidade: poucos acordes repetidos, fáceis de decorar. Mas as verdadeiras canções que resistem ao tempo têm uma estrutura complexa e rigorosa, vozes que se sobrepõem em camadas.
Tudo isso envolve regras semelhantes às da gramática na escrita de um texto.
O mestre Hua criticava Mao Xiaochou dizendo que suas composições tinham problemas, e não era só despeito.
Zhang Qing sorriu: “Aprendi um pouco, achei interessante.”
Qi Juan, brincando, ameaçou: “Interessante, não é? Então vai cantar uma! Se cantar bem, ainda ajuda a atrair mais clientes para o bar.”
Sun Yuehe olhou preocupada para o filho: “Qingzi, você sabe mesmo cantar?” Temia que ele passasse vergonha.
Liu Shanshan apressou: “Que tal cantar de novo aquela música que você fez para a Juan?”
Sem dizer mais nada, Qi Juan foi ao balcão, pediu o violão para Qi Ping e entregou nas mãos de Zhang Qing.
Com o violão na mão, Zhang Qing sorriu. Qi Juan sinalizou para o palco e apontou para Zhang Qing. O cantor, espirituoso, encerrou a última frase da música com: “Vamos dar as boas-vindas ao Qingzi!”
Os clientes, que até então conversavam ou ouviam música, voltaram a atenção para o palco; eram mesmo educados, alguns até aplaudiram.
Vendo isso, Sun Yuehe ficou ainda mais nervosa, com medo de o filho passar vergonha.
E ainda estranhou a mudança do nome...
Felizmente, Zhang Qing subiu ao palco sorrindo, ajustou o microfone e disse: “Aprendi um pouco de composição sozinho, sem saber muita coisa escrevi esta canção, perdoem a ousadia.”
Os clientes foram generosos e o aplaudiram, incentivando.
Zhang Qing fez uma pausa e continuou: “Esta canção é para minha mãe, que é a melhor do mundo. E também para todas as mães.”
Sem esperar que Sun Yuehe, já emocionada, ou os clientes aplaudissem, ele começou a cantar:
Mãe, sob a luz do luar
Em silêncio, penso em você
Silenciosa, a saudade corre em meu sangue
Mãe, seu abraço
É o berço de amor da minha vida inteira
Com o cheiro de roupa secando ao sol
Mãe, sob a lua
Só com você eu tenho um lar
Sob as luzes amareladas e nostálgicas do bar, Zhang Qing, de cabeça baixa, dedilhava suavemente o violão enquanto cantava.
Essa cena ficou gravada nos olhos de Qi Juan, e também em seu coração...
...
PS: Agradecimento ao antigo leitor “Longlong Tianxia” pelo apoio – muito obrigado! Hoje vieram vários leitores antigos, estou feliz.