Capítulo Trinta e Oito - O Cão Leal
— Qing, afinal, que tipo de livro você escreveu para ganhar tanto dinheiro assim?
À noite, Zhang Qing e Sun Fusheng dividiam um quarto. Havia um kang quente, e, por serem pessoas casadas, o ambiente era limpo e organizado. Sun Fusheng não conseguiu segurar a curiosidade e perguntou.
Zhang Qing sorriu e respondeu:
— É um romance. Ano que vem deve passar na televisão, você assiste quando chegar a hora.
— Caramba, Qing, você é demais!
Sun Fusheng elogiou com admiração.
Zhang Qing balançou a cabeça:
— Cada um tem o seu talento. Se for para arar ou plantar, eu não chego nem aos seus pés.
Sun Fusheng riu:
— Isso até parece elogio pra mim.
Zhang Qing deu uma gargalhada. Sun Fusheng perguntou de novo:
— Qing, como será morar em um prédio?
Havia desejo em sua voz.
Zhang Qing balançou a cabeça:
— No inverno é mais confortável, tem aquecimento, água encanada, banheiro. Os mais velhos não têm medo de sair e congelar, nem de escorregar na rua, nem de se preocupar se o fogo vai apagar de noite ou se vão se intoxicar com fumaça de carvão. No verão, ainda é melhor ficar na vila.
Sun Fusheng balançou a cabeça várias vezes:
— Quem tem casa na cidade não liga mais para as casas de barro da aldeia.
Zhang Qing sorriu:
— Quando nossa casa estiver pronta, aí você vai ver o valor que tem.
Ao ouvir isso, Sun Fusheng se animou:
— Qing, constrói aqui na nossa vila! Tem um terreno vazio do lado da minha casa, dois hectares e meio, é suficiente. Não vai construir lá na vila da Libertação, lá é muito pobre, tem muitos forasteiros, muita gente de várias etnias, todo dia tem briga ou alguém roubando galinha. Quando vocês eram pobres, tudo bem, mas agora que estão ricos, vai aparecer um monte de gente esquisita pedindo dinheiro. E você nem fica em casa, se acontecer algo, a gente só fica sabendo tarde demais. Constrói aqui perto da gente, quero ver quem tem coragem de vir arrumar confusão.
A família Sun era grande: os irmãos da geração de Sun Mantang eram quatro, sem contar primos e cunhados, formando um clã respeitável, realmente não tinham medo de ninguém.
Zhang Qing ficou tentado; vivendo no campo, conhecia bem os costumes do lugar.
Não se podia dizer que eram pessoas más; quando alguém estava na miséria, todos ajudavam como podiam, sempre mandando comida.
Mas achar que era só bondade era ingenuidade.
De todo modo...
— Isso não depende de mim, tenho que ouvir sua tia e seu tio. No fim, são eles que vão morar lá.
Zhang Qing balançou a cabeça.
Sun Fusheng ficou animado:
— Isso vai dar certo, com certeza! Tia vai querer ficar perto da família, e tio também não gosta do pessoal de lá. Amanhã mesmo falo com a tia, não vai ter problema.
Zhang Qing sorriu:
— Aí vai ter que construir uma casa grande, pra família toda morar junto.
Sun Fusheng logo fez um gesto negativo:
— Ah, poupe a gente! Os velhos gostam de viver juntos, mas se a geração mais nova morar toda junta, vai ser confusão o dia todo, um xingando o outro.
Zhang Qing riu:
— Era só modo de dizer.
Sun Fusheng continuava inquieto, esfregando as mãos:
— Qing, será que vamos mesmo ganhar dinheiro? Parece sonho... Me belisca aí pra ver se eu acordo?
Zhang Qing sorriu:
— Não precisa, é verdade.
Sun Fusheng não entendia:
— Qing, ganhar dinheiro é tão difícil, como você tem essa certeza?
Zhang Qing respondeu:
— Você já está pensando em comprar trator, acha mesmo que não vamos conseguir?
Sun Fusheng caiu na risada:
— Nunca imaginei que eu ia poder comprar um! Daqueles tratores de cinquenta e cinco cavalos, são ótimos! Dá pra puxar carvão, trigo, beterraba, milho, tudo!
Zhang Qing sorriu:
— Decidam vocês, não vou me meter, só entro com o dinheiro.
Sun Fusheng ficou mais sério:
— Qing, a gente garante que vai devolver. Não tem cabimento você perder dinheiro por nossa causa. E não venha com esse papo de que família tem que ajudar, claro que tem, mas se a gente só ficar pedindo, vira vadiagem, e o Yangyang está de olho na gente.
Zhang Qing sorriu:
— Entendi. Só por essas palavras, Fusheng, você vai longe.
Sun Fusheng ficou radiante:
— Chega de conversa, senão não durmo! Vamos dormir, não quero atrapalhar seu sono, sua cabeça é importante, não pode se desgastar.
Zhang Qing sorriu:
— Está bem.
...
Na manhã seguinte, apesar do frio cortante do inverno, o pátio dos Sun estava cheio de alegria e risadas.
Quando Zhang Qing se levantou, sua cunhada, Li Ying, já tinha preparado água quente para lavar o rosto e escovar os dentes, até o creme dental estava pronto, o que o deixou um pouco sem graça.
Após se arrumar, ao sair sentiu o frio cortar o rosto, e despertou de vez.
No quintal, cada galho da macieira estava coberto de geada, brilhando sob a luz da manhã.
No canto sudeste, no canil, um cão de guarda amarelo sacudiu a cabeça e latiu para Zhang Qing.
Era um cão velho, já estava lá quando Zhang Qing estava na escola.
Ele se aproximou para brincar e o cão ainda era animado, pulava de alegria, embora não tão ágil quanto antes.
Sun Mantang viu Zhang Qing brincando com o cachorro e se aproximou sorrindo:
— Esse cão já tem idade, o da sua casa é filho dele. O seu está amarrado atrás, no curral das ovelhas. Quer ir ver?
Zhang Qing assentiu, e junto com Sun Mantang foi até o fundo. Sun Fusheng estava limpando o curral, recolhendo esterco e palha para pôr nova. Ao ver Zhang Qing, falou animado:
— Olha só, até estudante universitário veio trabalhar aqui?
Enquanto Sun Mantang ralhava com Fusheng, Zhang Qing pegou o garfo de aço e começou a jogar o esterco úmido e fedido para fora do curral.
— Pronto, pronto, devolve isso! Se vovô e vovó veem, vão arrancar meu couro!
Vendo o olhar cada vez mais severo de Sun Mantang, Sun Fusheng tirou o garfo da mão de Zhang Qing rindo.
Zhang Qing balançou a cabeça:
— Não é como se eu nunca tivesse feito isso, não sou tão frágil assim.
Sun Mantang riu:
— Naquela época era diferente. Agora não. Se deixarmos você trabalhar aqui, vão dizer que nossa família não tem modos.
Zhang Qing sorriu e, olhando para o cão cinzento e amarelado amarrado sob o álamo, ficou pensativo:
— Naquele ano, a miséria era tanta que, depois que o tio trouxe carne, passamos meio inverno sem ver carne de novo. Aí um dia nevou muito, e quando abri a porta, vi um saco de ureia na entrada, e o colar do Cinzento tinha desaparecido. Ele estava ali deitado. Meu pai abriu e era meio saco de pernas de cordeiro! Depois disso, de vez em quando, o Cinzento trazia carne. Mais tarde parou, porque disseram que os monges do templo, cansados de perder carne, começaram a trancar tudo.
Sun Mantang e Sun Fusheng riram alto:
— Ouvi sua mãe contar isso. Ela ficou preocupada no começo, depois achou que devia ser presente de Buda para vocês, aí comeu mesmo.
Zhang Qing se agachou para acariciar a cabeça do Cinzento:
— Vou te dar mais comida boa daqui pra frente.
Sun Fusheng riu:
— Não basta comida, tem que arranjar uma companheira pra ele, aí sim a vida ganha sentido.
Zhang Qing não conteve o riso e fez um gesto de aprovação ao primo.
Enquanto conversavam e riam, viram Sun Yuantang se aproximar apressado, já gritando de longe:
— Descobri! O Huang San disse que na cidade mesmo tem anúncio de casa à venda. Do pessoal do Departamento de Alimentos, parece que um chefão vai ser transferido, as casas compradas em conjunto ficaram aqui, e o cunhado dele está vendendo. E o mais curioso: são exatamente três casas. Uma era do chefão, outra do cunhado, e outra da cunhada. Agora todos vão embora juntos.
Sun Mantang se preocupou:
— Se a casa é deles, deve ser muito boa, e cara, não?
Sun Yuantang respondeu:
— Já vi tudo. A maior tem cento e quarenta metros quadrados, mobiliada, com eletrodomésticos, televisão colorida de vinte e um polegadas, aparelho de vídeo, até geladeira tem, tudo por trinta e oito mil. As outras duas são um pouco menores, cento e vinte metros, um pouco mais baratas, vinte mil cada. Se negociar bem, setenta mil deve fechar o pacote.
Não era barato. Em Pequim, mesmo fora do terceiro anel, o metro quadrado não passava de dois mil, só nos bairros mais caros passava de dez mil. E aqui, na fronteira do país...
Zhang Qing se levantou ao lado do Cinzento e disse:
— Vamos tomar café, depois vamos pra cidade ver. Se for bom mesmo, compramos hoje e já mudamos.
...
P.S.: A história do cachorro trazendo carne é real, era o Cinzento da nossa família, tenho saudades. Os números deste livro não vão bem, mas estou escrevendo com tanto prazer que não posso reclamar. Já disse à minha esposa que, com este livro, não espero ganhar dinheiro, só quero curtir cada linha.