Capítulo Trinta e Cinco: Não Comprar Casa, Mas Comprar Carro?
— Azul, você realmente vai comprar um apartamento?
A avó, Margarida Zhao, ainda parecia não acreditar, e perguntou.
Azul Zhang assentiu: — Vou comprar. Meus pais estão com a saúde debilitada, não podem mais morar na casa velha.
O avô, Pedro Sun, balançou a cabeça: — Gente do campo, para que morar em apartamento? Eles não vão se acostumar. Com esse dinheiro, não seria melhor reconstruir a casa?
Azul Zhang sorriu: — Vamos reconstruir, sim. A casa velha é toda furada, não mantém o calor. Quando a primavera chegar, mandarei refazer tudo, de forma mais decente. Mas também quero comprar o apartamento, é muito mais confortável no inverno.
Pedro Sun continuou balançando a cabeça: — Que fiquem aqui comigo, não precisam comprar apartamento.
Manoel Sun também sorriu: — Se seus pais ficarem aqui, garanto que será mais prático do que morar no apartamento.
A família Sun abaixou os olhos, o ambiente ficou mais silencioso.
Azul Zhang olhou para os Sun, que tentavam manter a postura, mas não conseguiam esconder o constrangimento, e então sorriu: — Vovô, quando eu era pequena, minha família era pobre, quase nunca comíamos carne. Quando nevava forte, você atravessava a neve com um saco de plástico cheio de carne de boi, andando muitos quilômetros para nos trazer carne. Depois, quando não conseguiu mais carregar, pediu ao meu tio para trazer. Foram muitos anos assim. Aqui, é costume que, quando uma família se divide, não se dá herança para a filha. Mas quando vocês dividiram, deram para nós duas vacas e quatro ovelhas. Embora não tenhamos conseguido cuidar delas, e morreram, essa bondade jamais será esquecida.
Quando meus pais adoeceram, toda vez que você e a vovó vinham nos visitar, sempre ajudavam com algum dinheiro.
Vovô, se você precisar de dinheiro, me diga quanto precisa, eu darei tudo. Se não for suficiente, arranjarei mais.
Pedro Sun, orgulhoso durante toda a vida, sempre teve filhos e netos comportados diante dele. Agora, ouvindo Azul Zhang, sentiu-se emocionado e envergonhado, o rosto corou, a voz ficou presa na garganta: — Eu trouxe carne para minha filha, meus netos, para que falar disso? Preciso de dinheiro? Estou quase morrendo, até o dinheiro do caixão já tenho!
A voz, entretanto, ficou mais baixa, revelando tristeza difícil de esconder: — Só que essa família não tem muito futuro, alguém precisa achar um caminho, ter esperança.
Não conseguiu dizer mais nada…
Margarida Zhao continuou: — Azul, sua mãe disse que você quer comprar apartamento e levar nós dois para aproveitar a vida. Não queremos, não sabemos aproveitar as coisas da cidade. Seu primo disse que está ganhando muito dinheiro dirigindo caminhão, pode tirar vinte mil por ano ou mais. Seu irmão Fábio e Henrique querem pedir dinheiro emprestado para comprar caminhão. Seus pais podem morar aqui, eu cuido deles, garanto que você pode ficar tranquilo!
— Vovó, que história é essa, não faz sentido deixar você cuidar deles.
Azul Zhang ficou sem palavras, rindo e chorando ao mesmo tempo. A tia Lívia rapidamente disse: — Azul, você se preocupa com sua avó, mas não vamos deixar ela cuidar deles. Tem eu, tem a outra tia, tem sua cunhada, tanta gente, ninguém vai deixar seus pais cansados.
Todas as mulheres concordaram, Fábio Sun também parecia desconfortável, abaixou a cabeça, envergonhado: — Azul, eu sei… não devia pedir esse dinheiro. É para cuidar da tia, do tio, dos avós, dos meus pais… Mas, eu prometo devolver, com juros, se faltar um centavo, não sou ninguém!
Azul Zhang respondeu: — Fábio, você está errado…
Guilherme Zhang franziu a testa: — Azul!
A família deles devia muito àquela parte da família.
Azul Zhang balançou a cabeça: — O que quero dizer é: Fábio e os outros querem trabalhar com caminhão, estão precisando de dinheiro para comprar. Podem vir direto falar comigo, não precisam dar tantas voltas. O dinheiro da casa é para a casa, o do caminhão é para o caminhão, não se misturam. Meus pais não precisam que minha avó e tias cuidem deles, não faz sentido, elas não aguentam, é demais.
Somos uma família, somos parentes, só estamos bem se todos estiverem bem. Não adianta só nossa família estar bem, qual é o sentido?
Por ora, fica assim. O dinheiro para o caminhão, Fábio, eu vou dar, depois do Ano Novo passo para vocês. Trabalhem bem, se realmente forem bons nisso, podem crescer ainda mais depois. Se eu puder ajudar, ajudarei.
— Ótimo! Ótimo, Azul! Você é um verdadeiro irmão!
A cunhada Lívia sempre foi espontânea, abraçou Azul Zhang e deu um beijo na testa, fazendo Manoel rir alto.
Manoel Sun, Augusto Sun e os outros adultos ficaram sem saber o que dizer. Manoel hesitou: — Azul, você vai comprar apartamento, emprestar dinheiro para comprar caminhão, construir uma casa na primavera… você tem tanto dinheiro? Faz só alguns meses…
Laura Zhang gritou: — Meu irmão vendeu muitos livros, milhares, e até foi escolhido pela TV de Porto Real para virar série!
Azul Zhang balançou a cabeça: — Isso só rendeu um real, não deu dinheiro. Não sou rico, ainda não chego aos pés do Fábio da cidade, não sou bem-sucedido. Mas acho que dinheiro é para usar, depois de gastar dá para ganhar mais. Se eu ficar sozinho e minha família for pobre, a vida não é feliz. Prefiro usar o dinheiro, cumprir com minha responsabilidade, ajudar todos a ganhar, deixar a família feliz, esse é o propósito de ganhar dinheiro.
— Ah, só quem estudou e tem conhecimento pensa assim!
Lívia, emocionada, elogiou Azul Zhang e depois reclamou: — Agora vejo quem é família de verdade, caramba, Fábio quer comprar caminhão, fui pedir emprestado à minha mãe, três dias para conseguir oitenta reais!
Todos riram, Pedro Sun aconselhou: — A família de vocês também está passando por dificuldade, está bem, lembrem das coisas boas, esqueçam as ruins. Se não for bom, ainda é sua família.
Lívia sorriu: — Depois de ouvir o senhor, me sinto melhor.
Pedro Sun continuou: — Azul, é bonito ver sua dedicação, mas compre apartamento só para você. Não existe sobrinho comprando casa para tio, não é órfão sem filho. Se você comprar, Fábio e os outros não vão conseguir levantar a cabeça na vila. Já faz tudo por eles, para quê?
Manoel Sun falou sério: — O avô está certo, não faz sentido tio morar na casa do sobrinho. Não existe tal coisa.
Azul Zhang perguntou: — E quando eu morei na casa do tio por meio ano quando era criança?
Manoel Sun sorriu satisfeito, mas continuou: — Você pode morar aqui, mas eu não posso morar na sua casa, seria motivo de piada.
Azul Zhang sorriu: — Vamos comprar primeiro, depois a gente vê. Com o apartamento, será mais fácil para Yang e os outros estudarem na cidade, eles vão conseguir entrar.
Com isso, a família Sun ficou balançada.
Estudar é bom? Antes, não sabiam. Ao redor, todos eram agricultores ou pastores, os mais bem-sucedidos eram motoristas ou mecânicos. Estudar para quê? Bastava não ser analfabeto.
Mas agora, Azul Zhang ganhou em meio ano mais do que eles juntos em várias gerações. Quem disser que estudar não serve para nada, vai levar um tapa!
De agora em diante, fariam qualquer sacrifício para que filhos e netos estudassem. Não estudasse, apanhava!
Vendo a família balançada, Lúcia Sun ficou feliz: — Que tal assim? Compramos três apartamentos, todos no nosso nome, e emprestamos para vocês morarem. Pedir um apartamento emprestado para a filha, para os filhos estudarem, ninguém pode falar nada!
Lívia chorou, segurou a mão de Lúcia: — Querida tia, prometo cuidar de você como cuido dos meus pais!
Lúcia sorriu: — Trabalhem bem, se estiverem bem, é sinal de respeito por nós.
Azul Zhang concluiu: — Então está decidido. Vamos jantar, amanhã vamos ver os apartamentos, mudamos logo, passamos o Ano Novo lá!
Essas pessoas são as mais queridas do mundo para ele.
— Azul, podemos ir também?
O filho do quarto tio, Henrique Sun, perguntou sem jeito.
Nos anos difíceis da família Zhang, o avô e o primeiro e segundo tios ajudaram sempre que puderam, mas o quarto e quinto tios mantiveram distância, sempre reclamando de pobreza, e Lúcia nunca pediu nada a eles.
Só houve uma vez, quando Guilherme Zhang adoeceu e não havia dinheiro para mandar Azul e Laura à escola. Já tinham pedido aos dois primeiros tios várias vezes, não tinham mais coragem, então procuraram o quarto e quinto tios. O resultado…
Eles não foram hostis, apenas sorriram dizendo: “Entre parentes não se fala de dinheiro, dinheiro destrói relações”, recusando de forma educada.
A família Sun sabia disso, mas não podia fazer nada. Nem Pedro Sun nem Margarida Zhao podiam obrigar os filhos a emprestar dinheiro à filha, para não causar brigas e divórcios. Não eram ricos. Só reclamaram algumas vezes, mas não adiantou.
Agora Henrique Sun perguntou, e Azul Zhang sorriu: — Com o avô e a avó no apartamento, vocês também podem ir.
Todos entenderam: os apartamentos não seriam para as famílias do quarto e quinto tios.
Mas mesmo os pais, que tinham preferência pelos filhos mais novos, nada podiam dizer.
Lívia logo mudou de assunto, falando sobre o jantar.
Henrique e Humberto Sun voltaram para casa, cabisbaixos…
…