Capítulo Onze: Ninguém é Perfeito

O Sonho Mais Longo O vento soprava frio lá fora. 3140 palavras 2026-03-04 19:35:14

— Ei, Sete, vai lavar os sapatos?
No corredor do dormitório, Li Qiang viu Zhang Qing saindo com a bacia, a escova, os sapatos e o sabão em pó, e o cumprimentou com um sorriso.
Zhang Qing assentiu e respondeu: — Vou sim, e você?
Li Qiang rapidamente fez um gesto de recusa e riu: — Deixa pra lá, ainda aguentam mais um pouco.
Zhang Qing sorriu e saiu pela porta.

Depois que ele saiu, o clima no dormitório ficou meio estranho. Desde que Wang Lei e sua turma forçaram Zhang Qing a ir sozinho ao campo e os outros colegas não o acompanharam, o ambiente entre eles nunca mais foi o mesmo.
Principalmente depois que Zhang Qing passou a sentar-se ao lado de Qi Juan e suas notas melhoraram tanto que deixou todos para trás, parecia que ele e os demais agora pertenciam a mundos diferentes.
Foi tudo tão repentino... Havíamos combinado de ficar todos no mesmo patamar...
Só que, de repente, ele subiu muito acima dos outros, tornando quase impossível se entrosar de novo.
Além disso, Zhang Qing, exceto na hora de dormir, raramente ficava no dormitório conversando fiado com os colegas, então os laços entre eles se esfriaram ainda mais.
— Deixa pra lá, ele agora é outro tipo de pessoa, diferente da gente.
Liu Long, o mais velho, acendeu um cigarro e comentou, sorrindo.
Li Qiang, o terceiro, suspirou: — Isso nem seria o pior, mas como é que ele está aprendendo tanto assim? De repente, melhorou um absurdo, a gente pergunta e ele não fala nada. Uma coisa de outro mundo...
Zhao Derang, o segundo, fez uma careta: — Ué, ele falou que foi porque a colheita de trigo na casa dele foi boa esse ano. Não viu que agora ele já pega comida no bandejão?
Todos caíram na gargalhada. Li Qiang torceu a boca: — Que comida?! Ou é batata ralada de vinte centavos ou repolho de dez.
Yang Liang, o oitavo, riu alto: — Esses dias ele estava comendo tofu vermelho de cinco centavos.
Depois de mais uma rodada de risadas, o silêncio voltou. Liu Long balançou a mão: — Chega, não vamos mais falar disso. Não tem graça e se ele escutar não vai ser legal.
Zhang Wei, o quarto, de repente comentou: — Naquele dia, devíamos ter ido todos juntos. O que tem de mais no Wang Lei? Se fosse pra brigar, a gente brigava. Ver ele ir sozinho...
O silêncio tomou conta. Na verdade, todos estavam arrependidos.
Não era medo, pois na turma avançada de ensino médio, brigar nunca foi problema.
Só que, ao ver o Zhang Qing melhorar tanto nas notas e ainda virar colega de carteira da Qi Juan...
Eles realmente queriam que ele se desse bem, mas não tão bem assim, a ponto de ficar tão distante...
No fundo, desejavam que ele tivesse levado a pior.
Mas pensando agora, foi mesmo falta de lealdade.
Nessa idade, os jovens ainda prezam muito o valor da amizade acima de tudo.

— Ué, por que estão tão calados? Já era hora de comer, ninguém está com fome?
Depois de um tempo, Zhang Qing voltou, e ao ver os sete sentados em silêncio no dormitório, perguntou sorrindo.

Li Qiang foi o primeiro a reagir, ainda com o rosto meio travado, forçou um sorriso: — Estávamos esperando você, né? Sete, ultimamente só acontecem coisas boas pra você, tem que pagar um jantar pra gente, hein... — Mas logo balançou a mão: — Brincadeira, brincadeira, bora, é hora de comer.
Zhang Qing pôs os sapatos para secar na varanda, retornou e sorriu: — Se é pra pagar, pagarei. Hoje vamos ao restaurante Xinjiang lá fora, vou pagar um frango ao molho pra todo mundo.
Os sete, ao ouvirem isso, quase deixaram o queixo cair. Liu Long e os outros ficaram até sem jeito, Zhao Derang franziu a testa: — Sete, o que houve?
Zhang Qing sorriu: — Nada, só que ganhei um dinheiro recentemente, estou mais tranquilo. Vocês me ajudaram tanto nesses dois anos, dividindo comida comigo, agora que posso retribuir, por que não? Se não forem, é porque estão me desprezando, haha.
Esse era o argumento que os outros usavam antes, para forçá-lo a aceitar seus pratos:
Não comer o meu é me desprezar.
Li Qiang respondeu, sem jeito: — Sete, você nem trabalhou, como conseguiu dinheiro? Deixa pra lá, hoje é minha vez de pagar.
A família dele tinha condições melhores, e nos dois anos de ensino médio, foi quem mais dividiu comida com Zhang Qing.
Falar mal pelas costas era uma coisa, mas de verdade, eles não eram maus. Como iam deixar um colega, forçado pela vida, gastar tudo num jantar pra eles?
Não seria justo, nem eles se perdoariam...

Zhang Qing falou sinceramente: — Não tenho voltado tarde todos os dias? É que tenho treinado redação de chinês, imitando os contos da “Antologia de Lendas e Heróis”, escrevi um romance e, acreditem, ele vai ser publicado. Vou receber um bom pagamento. Depois de mandar uma parte pra casa, pros meus pais se tratarem, ainda vai sobrar o suficiente pro meu dia a dia. Não precisam ter cerimônia.
Ele já tinha recebido o telegrama, sabia que o editor viria negociar a publicação e que seria uma grande quantia.
Se isso viesse à tona depois, fingir surpresa seria prazeroso, mas perderia a sinceridade.
Nesses dois anos de convivência, apesar de algumas pequenas brigas, os colegas sempre o ajudaram mais do que atrapalharam.

Todos se entreolharam surpresos. Qiu Lin, o maior fã de romances de artes marciais do dormitório, ficou eufórico:
— “Antologia de Lendas e Heróis”? Eu leio sempre, quando não tem na biblioteca, alugo do lado de fora. Qual deles você escreveu?
Zhang Qing sorriu: — “A Lenda do Herói do Arco e Flecha”.
— Não pode ser!!!
Qiu Lin ficou tão emocionado que sua expressão se deformou, a boca aberta de espanto. A expressão que usou era um palavrão típico de Xinjiang.
Ninguém se importou com o exagero, pois todos liam os livros que Qiu Lin trazia, e o favorito de todos era justamente “A Lenda do Herói do Arco e Flecha”.

Liu Long não acreditava no que ouvia: — O que você está dizendo? Como assim?!
Zhao Derang também parecia chocado: — Jura? O Golpe dos Dezoito Dragões é criação sua?
Li Qiang começou a apontar o dedo, imitando sons de golpes, e gritou alto: — O Toque do Dedo Solar!!!
Zhang Wei, o quarto, se aproximou e encarou Zhang Qing: — Você tá brincando com a gente, né?
Zhang Qing sorriu: — O último capítulo ainda está na minha mochila, não mandei pro editor. Se quiserem ver...
Antes que terminasse de falar, uma turma de marmanjos já tinha pulado em cima da sua cama, junto à porta.
Liu Long, o mais forte, foi o primeiro a pegar, tirando cuidadosamente uma pilha de folhas da mochila. Bastou ler o primeiro parágrafo para perceber que era verdade. Lá estava escrito:

“Ouyang Feng sentiu o corpo em brasa, o convés do barco tremendo fortemente, sabendo que logo afundaria, mas Hong Qigong ainda lutava, sem ceder, e se não usasse logo seu golpe mortal, talvez não escapasse com vida. O bastão de cobra recuou, o braço esquerdo varreu com força. O velho Hong atacou com o bastão de bambu, bloqueou com o braço esquerdo. De repente viu o braço de Ouyang se dobrar, e o punho avançar veloz contra sua têmpora direita. O estilo ‘Punho da Serpente Ágil’ fora aperfeiçoado por Ouyang Feng, que pretendia surpreender os rivais no segundo Torneio da Montanha Hua...”

— Cara, que incrível!

— Não acredito!
— Puxa vida!
Gritos e palavrões se espalharam. Era mesmo verdade, como podia ser?!

Diante disso, nem restava espaço para inveja.
Qual seria o sentido de invejar uma coisa dessas?

Após um longo silêncio...

— Mas é melhor manter isso em segredo, só a gente do dormitório precisa saber por enquanto. Senão vai dar confusão...
Zhang Qing viu que os sete estavam lendo atentos, não sabia se de fato estavam prestando atenção, mas só falou depois de uns dez minutos.

Assim que disse isso, todos mudaram de expressão. Liu Long, envergonhado, largou o manuscrito, e os outros se levantaram da cama dele. Liu Long disse:
— Sete, sobre o que aconteceu da última vez, nós...

Antes que ele terminasse, Zhang Qing riu:
— Eu sabia que vocês estavam encucados com isso, mas não tem porquê. Vocês também sabem: se eu fosse sozinho, acontecesse o que fosse, nada demais. Mas se todos fôssemos, aí sim seria confusão, podíamos acabar até expulsos de Xinjiang.
Bora, bora, comi a comida de vocês por dois anos, hoje é frango ao molho à vontade, cerveja liberada, só faltou nossa Wusu!

Ao ouvirem isso, todos relaxaram, animados, colocaram os braços uns nos ombros dos outros e saíram juntos.
Qualquer ressentimento anterior desapareceu de vez.

Zhang Qing nunca esqueceu a lição simples que aprendeu em casa:
Ninguém é perfeito, lembre-se mais do bem dos outros.
Se por uma pequena falha você apagar todo o bem que alguém te fez, não é sinal de grandeza, nem de alguém digno de respeito.

— Ei, Sete, o Mestre Hong realmente perdeu todos os poderes?
— Pois é, por que escreveu que ele ficou sem forças? Sem habilidades, o velho mendigo acaba sendo morto fácil pelo Ouyang Feng!
— Sete, como termina a história? O Guo Jing casa com a Huang Rong? Tiveram filhos? Acho que o Guo Jing não merece a Huang Rong...
— Ah, para, terceiro, se o Guo Jing não merece, você merece?
— Eu mereço! Sete, por que não cria um personagem genial chamado Li Qiang, que conquista o coração da Huang Rong? Que tal fazer isso acontecer logo?
— Ah, seu sem vergonha!
Li Qiang provocou todo mundo, mas ele mesmo saiu correndo às gargalhadas...

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