Capítulo Sessenta e Oito: Amor
Montanhas de Jundu, Grande Muralha de Badaling.
Como barreira protetora da capital, este lugar é marcado por montanhas sobrepostas e paisagens de tirar o fôlego, de uma imponência singular. A muralha, grandiosa e majestosa, serpenteia para o sul e o norte entre picos íngremes, estendendo-se sem fim à vista. Em ambos os flancos, aproveitando a topografia, ergue-se altiva sobre precipícios e penhascos, onde os antigos gravaram as palavras “Barreira Natural”.
Era feriado de primeiro de maio. Embora o conceito de “semana dourada” ainda fosse desconhecido, não faltavam turistas sobre a muralha. Claro, nem se comparava ao mar de gente de dois mil anos depois.
Zhang Qing e Qi Juan chegaram de ônibus. Zhao Qiang, após resolver os assuntos do pátio quadrado, sentia-se insatisfeita por não ter conseguido convencer Hu Quan e, incapaz de ficar parada, partiu em busca do próximo alvo que pudesse conquistar.
— Não aguento mais subir!
A Grande Muralha de Badaling possui mais de mil torres de vigia. Zhang Qing, carregando o violão recém-comprado, e Qi Juan subiram de uma vez até o quarto bastião; mesmo com a boa forma de Qi Juan, ela já dava sinais de cansaço, e ainda faltavam quatro para chegar à famosa “Ladeira dos Heróis”.
— Força, você consegue! — disse Zhang Qing, com sua habitual sinceridade.
Qi Juan não pôde evitar rir e estendeu a mão: — Me dá uma força!
Zhang Qing hesitou por um instante, mas logo segurou com firmeza aquela mão macia e delicada.
Qi Juan sorriu de canto, apertou a mão dele e, com seu apoio, continuou a escalada.
Ao final da subida, mãos suadas entrelaçadas, chegaram enfim à Ladeira dos Heróis, diante da pedra que traz gravado: “Quem não chega à Grande Muralha não é herói”.
— Uma homenagem... aos heróis! — exclamou Qi Juan, apertando a mão de Zhang Qing e rindo alto.
Zhang Qing retribuiu o aperto e respondeu: — Aos heróis!
Alguns turistas ao redor riram junto.
Os dois se soltaram naturalmente, trocaram olhares carregados de emoção e serenidade.
— Colegas, de que escola vocês são? — perguntou de repente uma jovem, sorrindo.
Zhang Qing nada disse, ainda que os olhares convergissem naturalmente para ele. Qi Juan respondeu: — Somos de Jiangjing, terceiro ano do ensino médio.
A jovem sorriu, surpresa: — Impressionante! Tão novos e já tão animados!
Olhou então para Zhang Qing: — Meu nome é Zhao Qian, sou da Huáqing. E pelo violão Gibson que você carrega, dá para ver que é entendido. Já que nos encontramos aqui, que tal cantar uma música?
Atrás de Zhao Qian havia mais cinco jovens, duas moças e três rapazes, claramente viajando juntos.
Antes que Zhang Qing pudesse falar, um dos rapazes brincou: — Tem mesmo gente que sobe a Ladeira dos Heróis carregando um violão?
Outro entrou na onda: — Só pode ser apaixonado por música!
O terceiro riu: — Igual a nós, então. Alma de artista. Vamos lá, cante alguma coisa! Olhe para essa grandiosidade, essa muralha imponente, como não se sentir inspirado a cantar? A menos que...
— A menos que o quê? — provocou o outro.
O terceiro rapaz sorriu: — A menos que o violão seja só para fazer pose e impressionar as garotas!
Os olhares dos três recaíram, intencionalmente ou não, sobre o rosto radiante de Qi Juan. As estudantes de Huáqing, embora brilhantes, não eram conhecidas pela beleza; talvez uma ou outra se destacasse, mas não era o caso delas, ao menos na opinião dos rapazes. Já o rosto bonito de Zhang Qing era discretamente ignorado por eles.
Afinal, importa se o rapaz é bonito? O que conta é o talento!
Todos tinham idade parecida e não havia má-fé, apenas o entusiasmo da juventude. Zhang Qing não se incomodou e sorriu: — Os de Huáqing são realmente diferentes, até usam provocações sofisticadas. Se somos todos colegas de ofício e vocês são mais experientes, por que não começam?
Entregou o estojo do violão.
As estudantes de Huáqing aplaudiram o gesto. Para elas, beleza importava sim, e Zhang Qing, embora não vestisse marcas famosas, carregava um instrumento de prestígio.
Ser de família abastada pode não ser uma qualidade, mas certamente não é um defeito. Mais do que isso, havia em Zhang Qing uma aura de simplicidade e sinceridade, sem o ar presunçoso ou superior dos rapazes de Huáqing, nem a afetação dos rapazes de Yanda.
Era simplesmente charmoso e luminoso.
Elas sabiam que, em beleza, não podiam competir com Qi Juan, mas não importava; não estavam ali para disputar, apenas para se divertir e fazer novas amizades. E, sendo Zhang Qing calouro, a diferença de um ano — elas estavam no primeiro ano da faculdade — tornava tudo mais leve, pois o ensino médio e a universidade são mundos distintos.
O segundo rapaz, provocado, não se abalou e, de bom humor, pegou o violão, admirando-o cuidadosamente enquanto o tirava do estojo: — Ótimo instrumento!
Tocou um acorde e, ainda mais entusiasmado, disse: — Está bem afinado.
O primeiro comentou: — Claro! Você sabe quanto custa um Gibson desses?
O terceiro preferiu não falar de dinheiro: — Sun Ye, toca aquela sua, “Primavera no Mar do Norte”!
O rapaz, já com o violão em mãos, encostou-se a um canto da muralha, sem se intimidar com os olhares dos turistas, e cantou em alta voz: — “A primavera no Mar do Norte, o gelo e a neve derretem em silêncio. A bela Pagoda Branca, a Ilha Qiong barulhenta...”
Nos anos noventa, os jovens tinham um estilo próprio ao cantar, especialmente os estudantes, com entusiasmo e expressão corporal.
Vendo a apresentação animada, Zhang Qing e Qi Juan precisavam apertar forte as mãos para não rir.
Mesmo assim, ao fim da canção, ambos sentiam um certo desconforto interno.
Mas mantiveram a cortesia e, ao término, aplaudiram junto com os demais.
Sun Ye, num gesto “estiloso”, passou a mão pelo cabelo e soprou algumas mechas para cima antes de devolver o violão: — Ótimo instrumento, faça bom uso; espero que não seja desperdiçado.
Zhang Qing pegou o violão sem se importar com a provocação adolescente e disse a Qi Juan: — A canção que prometi está pronta. Sei que você gosta de músicas em inglês, então tentei compor uma.
Sun Ye, ainda por perto, não conteve o riso, mas ao sentir o olhar cortante de Qi Juan, pediu desculpas de imediato: — Desculpe, foi só que... achei engraçado.
Zhao Qian, constrangida, repreendeu: — Nem sabe quem é, já diz que está mentindo? E você ainda é do curso de filosofia, como fica o seu materialismo?
Sun Ye respondeu, rindo: — O ensino de inglês na China sempre foi deficiente. Mesmo em Huáqing, poucos têm boa conversação, quem dirá cantar em inglês. Ainda mais com a dificuldade das rimas; será que um estudante do ensino médio entende o que é escala musical...?
Zhang Qing não respondeu. Olhou para Qi Juan, sorriu e dedilhou o violão, deixando fluir acordes delicados:
Escondendo-me da chuva e da neve
Tentando esquecer, mas não consigo partir
Observando a rua cheia de gente
Só ouço o meu próprio coração bater
Tantas pessoas por todo o mundo
Diga-me, onde posso encontrar alguém como você, menina...
Como Sun Ye dissera, mesmo sem domínio do inglês ou da melodia, todos compreendiam o significado. E, mesmo analisando apenas a letra, era uma canção capaz de tocar qualquer coração.
Bastava olhar para Qi Juan, cujos grandes olhos brilhantes agora se enchiam de lágrimas, piscando rapidamente.
As moças compreendiam seus sentimentos: ter o rapaz de quem gosta, violão nos braços, cantando para ela sobre a maior maravilha criada pelo homem, não era para qualquer uma.
Deixava qualquer uma emocionada, invejosa, entusiasmada até a loucura!
Os rapazes de Huáqing estavam boquiabertos — como podia um estudante do ensino médio compor algo assim?
As moças pouco importavam com a autoria; mesmo que não fosse de Zhang Qing, cantar com tal beleza já era admirável!
A melodia era sublime, a letra ainda mais, de uma beleza quase dolorosa para aquela época.
Elas não conseguiam imaginar que tipo de garota seria capaz de resistir a uma canção assim...
Leva-me ao teu coração
Deixa-me ficar junto à tua alma
Dá-me tua mão antes que eu envelheça
Mostra-me o que é o amor antes que partamos
Mostra-me que milagres podem acontecer
Dizem que nada dura para sempre
Estamos juntos apenas hoje
O amor é agora ou nunca
Leva-me para longe daqui
Quando o último acorde soou, antes mesmo dos aplausos eufóricos dos turistas, Qi Juan deu um passo à frente, abraçando Zhang Qing sobre o violão.
Os aplausos, já intensos, explodiram em verdadeira comoção!
Zhao Qian e os outros estavam com os olhos marejados, jurando que testemunharam o romance mais belo de todos.
…