Capítulo Noventa e Sete: Cada Vez Melhor

O Sonho Mais Longo O vento soprava frio lá fora. 3644 palavras 2026-03-04 19:36:37

Aeroporto Internacional de Qide, na Cidade Portuária.

Assim que o avião pousou, a atmosfera do aeroporto não era tão... livre e aberta quanto se imaginava.

Em toda parte — no pátio de aeronaves, nos corredores de passageiros, nos postos de verificação, no saguão de embarque — estavam soldados e policiais anglo-portuários, usando boinas, coletes à prova de balas justos e empunhando submetralhadoras compactas.

Eles patrulhavam em duplas sem parar, com olhares inexpressivos fixos em cada pessoa à frente.

O dedo indicador direito permanecia rente ao gatilho, como se, diante de qualquer anormalidade, uma rajada de balas pudesse ser disparada a qualquer momento.

Diante da cena, Lan Zhang sentiu medo.

Afinal, para os chineses desta época, os ocidentais de olhos azuis e cabelos louros pareciam criaturas de outro mundo.

Qing Zhang segurou a mão da irmã e lhe sorriu levemente, sinalizando para que não se preocupasse.

Mas logo ele também franziu o cenho, pois era evidente que aqueles militares e policiais tratavam as pessoas de forma diferenciada.

Para os viajantes europeus ou americanos, de nariz alto e olhos claros, eram muito cordiais, gentis, quase solícitos. Mas para os conterrâneos vindos do interior da China, mostravam-se ameaçadores, com expressões duras, e ao menor desagrado, repreendiam em alto e bom inglês.

Qing Zhang viu um passageiro discutindo com eles e gritando: "Quero ver até quando vocês continuarão assim arrogantes!"

Felizmente, eles não ousavam ir além disso — era apenas para humilhar.

Ao deixarem o aeroporto, Lan Zhang, de olhos atentos, logo avistou Wang Zitong segurando uma placa de recepção e disse entusiasmada ao irmão: "Olha, mano, a irmã Zitong está ali!"

Qing Zhang riu da irmã observadora e, junto de Zhao Qiang e Borboleta, seguiu até ela.

"Ha-ha! Maninho, enfim você chegou!"

Wang Zitong, de natureza expansiva, ao ver Qing Zhang, largou a placa no lixo e foi ao encontro dele, dando-lhe um grande abraço.

Ao ouvir aquele sotaque engraçado, Lan Zhang caiu na gargalhada.

Wang Zitong também a abraçou e lhe deu um beijo, deixando-a corada.

Após Qing Zhang apresentar Zhao Qiang e Borboleta, Wang Zitong sorriu: "Vamos, vamos, primeiro ao hotel para recebê-los como merecem. Vocês realmente não têm dó: o Hotel Península custa três mil dólares por quarto na alta temporada, duas suítes por noite são seis mil. Estão jogando dinheiro fora?"

Zhao Qiang respondeu sorrindo: "Foi ideia minha. Aqui, o capitalismo corrompeu tudo há mais de um século; primeiro se respeita a roupa, depois a pessoa."

Wang Zitong assentiu: "Olham os outros de cima, principalmente os do interior. Esquecem que os próprios ancestrais vieram de lá."

Ficava claro que ela já sofrera bastante com isso.

Zhao Qiang comentou: "A posição de Qing é diferente, não que ele seja nobre, mas representa agora a Graveto, a gravadora, e também a literatura continental, pelo menos a vertente dos romances de artes marciais. Não pode se submeter a humilhações desnecessárias."

Qing Zhang sorriu: "Não represento ninguém além de mim mesmo. Mas os direitos autorais daqui estão no mercado de ações, já renderam bastante; ficar uns dias num bom hotel não é problema, não venho sempre."

Entre risos, o grupo pegou um táxi. Inicialmente, ao perceber que eram do interior, o motorista torceu o nariz, quase sem esconder o desdém. Mas ao ouvir que iam para o Hotel Península, mudou completamente de atitude, numa velocidade digna de artista de ópera.

Qing Zhang e os outros apenas sorriram, sem comentar nada.

A viagem à Cidade Portuária não era tão agradável quanto esperavam.

Mas não importava: ele não estava ali a passeio.

Ao chegar ao Hotel Península, contemplaram o edifício conhecido como “A Dama da Alta Sociedade do Extremo Oriente” — sete andares inaugurados em 1928, com uma nova ala de trinta pisos acrescentada dois anos antes.

Por fora, não impressionava tanto.

Sem o peso das lendas e do glamour, Qing Zhang achava até menos aconchegante que seu próprio pátio tradicional em Pequim.

Zhao Qiang observava Qing Zhang e, percebendo seu olhar tranquilo e até crítico, comentou com Borboleta em tom de brincadeira: "Viu só? Gente extraordinária age de modo extraordinário. Qualquer figurão do interior, ao ver esse hotel, ficaria boquiaberto. Meu pai e meu tio, quando vieram, fizeram questão de vir apenas para admirar e se sentir sofisticados. Veja o nosso amigo!"

Qing Zhang ficou até constrangido com o elogio: "É falta de experiência, não sei distinguir se é bom ou não. Vamos, vamos deixar as malas e descansar um pouco, à noite podemos comer nas barracas de rua."

Zhao Qiang riu: "Você percebeu como as pessoas ao redor olham para você? Ficar no Península e jantar em barraca de rua?"

Qing Zhang respondeu: "A sofisticação local vem toda da cultura ocidental. Para conhecer a verdadeira cultura da ilha, só nas barracas de rua."

Wang Zitong concordou: "Perfeito. Então vamos à Rua do Templo, em Yau Ma Tei. Lá é que se sente o verdadeiro espírito popular!"

"Que delícia! O pão de porco caramelizado é até melhor que o waffle!"

"Os noodles com peito de boi também estão ótimos."

"Prova este, limão crocante."

"Hmmm, maravilhoso!"

Na pequena loja ao lado de uma barraca na Rua do Templo, Wang Zitong e Lan Zhang se deliciavam com a comida.

Borboleta saboreava devagar um bowl de noodles com camarão fresco, enquanto Qing Zhang e Zhao Qiang pareciam menos interessados em comer, preferindo conversar.

"É difícil imaginar que uma cidade tão pequena esconda tanta riqueza. Não é de admirar que nos desprezem..."

Vendo as luzes, o movimento incessante de pessoas e a prosperidade, Zhao Qiang sentiu-se desanimada. Mesmo metrópoles como Xangai e Pequim não ofereciam tal espetáculo, quanto mais as cidades do interior, ainda pobres.

Em sua visão, o continente estava pelo menos trinta anos atrás da Cidade Portuária — que dizer então do Ocidente, ainda mais próspero e forte?

Por que tantos ricos e poderosos preferiam ir embora, ou mandar os filhos para fora?

Talvez quanto mais se conhece, mais se vê, mais se sabe — mais desesperança se sente.

Qing Zhang, porém, sentia-se confiante. Tinha um sonho como guia e sabia, acreditava, que aquele grande povo e aquele país explodiriam em vitalidade e força, criando verdadeiros milagres!

De certo modo, os “atalhos” que o país tomaria nos próximos trinta anos seriam ainda mais extraordinários e lendários que em seus próprios sonhos.

Qing Zhang sorriu: "Irmã Zhao, tenho certeza de que em no máximo vinte anos, talvez dez, você não pensará mais assim."

Entre divertida e comovida, Zhao Qiang olhou para ele: "Não imaginei que fosse tão patriota. Não é à toa que escreveu ‘Cantando à Pátria’, emocionando tanta gente."

Qing Zhang riu: "Ouvi muitas zombarias também, mas não importa. Os detratores da pátria sempre existirão, e muitos ainda têm voz privilegiada na cultura."

Canções patrióticas, nem agora nem daqui a trinta anos, mesmo quando o mundo inteiro passar a olhar para a China de outra forma, deixarão de ser desprezadas por alguns, que continuam odiando seu próprio povo.

E, no presente, com o Ocidente ainda tão forte, os cães de guarda são inúmeros.

É a era dos intelectuais arrogantes, capazes de manipular multidões.

Escrever "Cantando à Pátria" nesse contexto era quase um insulto direto a eles.

"Irmã Zhao, no mundo, quem fala mal nunca decide nada. Alguns se acham nobres, mas não passam de lacaios pagos para difamar o próprio país. Só quem faz realmente conta. Não precisamos duvidar, nem discutir: basta trabalhar duro. Um dia, nosso povo alcançará sua grande renovação!"

Zhao Qiang teve a impressão de que o rosto de Qing Zhang irradiava luz ao dizer aquelas palavras.

Ela murmurou: "Renovação?"

Qing Zhang respondeu: "Sim, renovação! Por milênios estivemos à frente do mundo. Só nos últimos cem anos ficamos para trás, pagando um preço terrível. Já sentimos, na pele, o que é estar atrasados e ser humilhados. Por isso, um dia, a renovação virá. Zhao, nascer nesta época é uma sorte imensa. Vamos testemunhar e participar dessa grande transformação."

Vendo Qing Zhang tão entusiasmado como nunca, Zhao Qiang sorriu.

Sabia que a prosperidade da cidade, a arrogância dos locais, tudo isso também mexia com o coração simples e patriótico daquele jovem.

"Ótimo! Com esse espírito, sigo ao seu lado e não desperdiço a vida! Vamos brindar!"

Ela ergueu seu chá com leite, Qing Zhang levantou um copo de macarrão com almôndegas; brindaram, sorriram e deram um gole.

Borboleta, tocada pelo entusiasmo dos dois, suspirou: "Ah, como é bom ser jovem..."

Ela própria, em outros tempos, fora cheia de sonhos e pureza, mas a realidade...

Enquanto isso, Lan Zhang, entre um prato e outro, observava à esquerda e à direita, preocupada: aquela irmã era bonita, competente e não aprovava o namoro do irmão com Qijuan. Será que isso daria problema? Se ele mudasse de ideia e ficasse com a irmã Zhao, o que fariam ao voltar?

Já Wang Zitong estava tranquila, pois seus pais tinham opinião unânime sobre Qing Zhang: alguém íntegro, simples e confiável!

"Mano, me leva junto!"

Ela também queria participar da animação; afinal, era jovem.

Qing Zhang riu: "Irmã, a Graveto é uma gravadora, ainda não tem departamento de cinema."

Wang Zitong não se importou: "Ora, nos últimos anos todos dependem de suas séries para sobreviver, assino um contrato de agenciamento."

Ela não queria aproveitar-se de Qing Zhang, e, com o contrato, a empresa lucraria com sua porcentagem — uma fatia considerável.

Para iniciantes, um contrato de 30% para o artista e 70% para a empresa já era considerado justo.

Zhao Qiang olhou para Qing Zhang, que pensou um pouco antes de dizer: "Se vier, não vai só atuar, terá que chefiar o setor de artes cênicas. Não precisa atuar tanto, uma boa série é melhor que vinte ruins."

Zhao Qiang brincou: "Sou gerente geral, já temos um diretor de divulgação, um chefe de estúdio, agora um chefe das artes cênicas. Alguém vai achar que é uma grande empresa... mas somos só o comando!"

Todos riram. Depois de saciados, pagaram a conta e saíram. Apesar da multidão, a noite era tranquila.

"Nos filmes daqui sempre dizem que tem máfia em toda esquina, brigas diárias nas barracas. Por que não vimos nada disso?"

Qing Zhang, curioso, olhava em volta.

O apartamento de Hu Quan era mesmo completo: cinema em casa, várias fitas.

Quando não conseguia dormir, Qing Zhang assistia a um ou dois filmes.

Wang Zitong explicou: "Na verdade, esta é uma das cidades mais seguras do mundo. O crime aqui tem seu código. As máfias não exploram o povo, diferente do que ocorre no interior. Não é mesmo?"

Ela lançou um olhar para Qing Zhang na última frase.

Qing Zhang sorriu: "Sou um jovem socialista convicto, mas nunca neguei as mazelas. Ainda assim, acredito: tudo vai melhorar, com certeza."

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