Capítulo Trinta e Quatro - O Retorno ao Lar
Na manhã seguinte, Zhang Qing e sua irmã Zhang Lan chegaram ao aeroporto com duas horas de antecedência. Durante todo o trajeto, Zhang Lan permaneceu nervosa, segurando firme na barra da camisa do irmão. Só depois de trocarem os cartões de embarque, passarem pela segurança e aguardarem mais de meia hora, finalmente embarcaram no avião.
Nos anos noventa, a Administração de Aviação Civil determinava que o preço por quilômetro voado era de setenta e cinco centavos; da Cidade de Jiangjing até a capital de Xijiang eram dois mil e setecentos quilômetros, totalizando dois mil e vinte e cinco no valor do bilhete.
Esse valor equivalia quase à renda anual da maioria dos camponeses, e isso em anos de colheita farta. Mesmo já nos anos noventa, quando os salários dos trabalhadores urbanos aumentaram consideravelmente, poucos tinham um ordenado mensal de dois mil. Viajar de avião era privilégio dos abastados.
— Mano, então isso é um avião mesmo...
Zhang Lan sentia-se como se estivesse sonhando, encostada na janelinha, admirando entusiasmada a asa do avião. Mas assim que o aparelho começou a decolar, seu rosto empalideceu, agarrou-se ao braço de Zhang Qing com medo, quase chorando.
Se caísse, não sobraria nem os ossos...
Principalmente quando o avião balançava por causa das turbulências, ela não conteve o choro. Zhang Qing fez o possível para acalmá-la, mas pouco adiantou.
Felizmente, uma aeromoça que vinha servir bebidas viu a cena e sugeriu que trocassem de lugar. Ela acolheu Zhang Lan no colo e, com voz doce, tranquilizou a menina.
De fato, consolar alguém é tarefa para mulheres, sobretudo belas mulheres. Aquela jovem de Xijiang tinha traços tão delicados que pareciam irreais.
— Muito obrigado.
Quando Zhang Lan acalmou-se, Zhang Qing respirou aliviado e agradeceu à aeromoça.
Ela sorriu e respondeu:
— Não há de quê, senhor. Faz parte do nosso trabalho. Se precisar de algo, é só me chamar.
Depois que ela se afastou, Zhang Lan cochichou:
— Mano, ela é tão bonita... e tão gentil!
Zhang Qing assentiu, afagando os cabelos da irmã:
— Quando crescer, você também será assim. Dorme um pouco, logo chegaremos à capital.
Zhang Lan murmurou um "hum", encostou-se ao braço do irmão, observou as nuvens do lado de fora e logo adormeceu.
Quatro horas depois, o avião pousou no aeroporto da capital. Em Jiangjing, ainda se via muito verde, até mesmo ameixeiras florescendo no inverno. Já em Xijiang, era um mundo de gelo e neve.
Os irmãos encontraram um restaurante, comeram macarrão, embarcaram novamente e, após duas horas e meia, finalmente chegaram em casa.
— Pai, mãe! Estamos de volta!
Os muros baixos de terra, sem nem mesmo um portão no meio, o pátio coberto por uma grossa camada de neve, restando apenas uma trilha aberta para passagem. Tudo ainda pobre, mas tão familiar.
Principalmente agora, depois de escapar de uma situação tão desesperadora, aquele pequeno quintal tinha outro sabor.
Zhang Qing sentiu-se confortado ao perceber que os pais não estavam morando ali desde que voltaram; caso contrário, a neve não estaria tão acumulada e seria impossível não encontrar sinal de galinhas, cães ou porcos.
Mas a luz na casa estava acesa, amarelada como sempre, e fumaça escapava da chaminé, aumentando a sensação de velho e sombrio.
— Olhem só! Qing e Lan estão de volta!
Ouviu-se um grito de alegria vindo de dentro. Logo a porta rangeu e Zhang Guozhong e Sun Yuehe apareceram. Não só eles, mas também o tio Sun Mantang, o segundo tio Sun Yuantang, as tias Li Yun e Liu Xiue, os primos Sun Fusheng, Li Ying, Sun Haijiang, Sun Haiping, Sun Haiyan e a prima Sun Hairong, todos vieram às pressas.
Zhang Lan estava radiante, gritou e se atirou nos braços dos pais, enquanto Zhang Qing puxava duas malas, cumprimentando um por um.
— Menina danada, sai da frente! — Sun Yuehe examinou a filha, vendo que estava mais forte e corada, empurrou-a de lado e voltou-se para o filho: — Você deve estar exausto da viagem, não?
Sun Haiping riu:
— Mãe, que preferência é essa? Até tua voz é mais macia quando fala com o Qing.
Li Yun, a tia, comentou:
— Com um filho tão bom, quem não se orgulha? Quando um vence, toda a família vive melhor!
Sun Mantang olhou Zhang Qing de cima a baixo:
— Chega de conversa, vamos entrar... Aliás, nem vamos entrar nesta casa, vamos direto para a nossa. Teu avô e tua avó estão esperando, olhando para fora todos os dias. Vocês demoraram quantos dias no caminho?
Zhang Lan não se conteve:
— Saímos hoje de manhã!
Sun Yuehe ralhou:
— Que bobagem! Se saíssem hoje de manhã, voaram até aqui?
Zhang Lan sorriu, cheia de orgulho:
— Hahaha! Mãe, viemos mesmo de avião! Quatro horas de Jiangjing até a capital, depois mais uma até Beita, e de lá, uma hora e meia até aqui!
— Uau! — a família toda se admirou. Sun Hairong olhava para Zhang Lan com inveja:
— Mana Lan, você é demais, até de avião andou!
Era esse o momento que Zhang Lan esperava; riu tanto que quase perdeu o fôlego, até Sun Yuehe dar-lhe uns tapas para acalmá-la.
Zhang Guozhong, porém, olhou para o filho com expressão séria:
— Por que vieram de avião? Mesmo tendo ganho algum dinheiro, não é pra desperdiçar assim.
Sun Mantang e Sun Yuantang também concordaram:
— Sempre é bom economizar.
Zhang Qing explicou:
— O marido da nossa professora conhece gente no aeroporto, então conseguimos as passagens bem mais baratas... Pai, mãe, tios, vamos conversar lá dentro.
Sun Mantang insistiu:
— Vamos, vamos logo ver teu avô e tua avó. Teus pais estão hospedados lá desde que voltaram. Aqui faz dias que ninguém acende o fogão, as camas estão geladas.
Li Yun, a tia, vendo Zhang Qing hesitar, provocou:
— O que foi? Antes te expulsávamos de casa e você não queria ir, agora que tem futuro, já não quer entrar?
Zhang Qing sorriu sem jeito:
— É que queria ajeitar as coisas que trouxemos, embrulhar de novo para entregar ao avô e à avó.
Li Yun riu:
— A essa altura, o que mais você vai dar? Teus pais quase trouxeram Jiangjing inteira, levaram bronca do teu avô por vários dias. Ainda quer dar presente?
Liu Xiue, outra tia, comentou:
— Que orgulho da família! Ano passado ainda estavam penando no campo, teu tio e eu dissemos a tua mãe que, na colheita, era só avisar que ajudaríamos num dia e acabava tudo. Depois soubemos que você deu conta sozinho, e teu tio ainda te chamou de teimoso. Mas olha só, é teimoso porque tem capacidade. Isso é diferente.
Zhang Qing não sabia o que responder. Na verdade, depois de ver os tios usando colheitadeira, ele até implorou para usarem na sua lavoura também, mas sequer conseguiu um balde d’água emprestado, quanto mais uma colheitadeira.
Teimoso como era, não pediu mais ajuda a ninguém, colheu tudo sozinho. Agora, aos olhos da família, era alguém fora do comum.
Sun Fusheng ligou o trator, cujo reboque estava forrado com palha e cobertores. Todos subiram animados, deixando Zhang Qing no meio, e o trator partiu soltando fumaça preta.
Quarenta minutos depois, chegaram à casa do tio, no time Oitenta e Um. Todos desceram apressados, tremendo de frio, mas alegres.
— Vovó, vovô!
Ao descer, Zhang Qing avistou os avós que, ouvindo a algazarra, vieram recebê-los na porta. Aproximou-se sorrindo:
— Que bom, Qing, é mesmo você!
A avó Zhao Juxiang apertou a mão de Zhang Qing, examinando-o contente.
Todos riram:
— Quem mais seria?
Zhao Juxiang, séria, disse:
— Sonhei outro dia com um dragão azul saindo do poço da nossa casa...
Antes que terminasse, o avô Sun Qingshi interrompeu:
— Que bobagem! Se sonhasse com algo saindo do poço da casa do Guozhong, até vá lá; agora, sair da nossa, só se fosse um porco, quanto mais um dragão.
Para aquela geração, netos e netos por parte de filha eram bem distintos.
Sun Fusheng, Sun Haijiang e os outros primos abaixaram a cabeça.
Zhao Juxiang ralhou:
— Velho tonto, Qing sempre comeu aqui desde pequeno. Se não voasse da nossa casa, ia voar da casa do Zhang? Aqueles velhos lá nunca deram nem um pão para ele!
Todos tentaram apartar a discussão. Em dia tão feliz, ninguém queria briga.
Dentro da casa, o calor era reconfortante, o aroma de chá de leite impregnava o ambiente. Zhao Juxiang fez Zhang Qing sentar-se na cadeira de couro de cachorro, lugar especial do avô, e pediu para Liu Xiue trazer chá.
A família inteira olhava Zhang Qing radiante; envergonhado, ele mudou de assunto:
— Tio, já escolheram a casa nova?
Com essa pergunta, o calor da sala pareceu congelar de repente...