Capítulo Trinta e Seis: Dívidas de Gratidão e Ressentimento Bem Definidas

O Sonho Mais Longo O vento soprava frio lá fora. 2701 palavras 2026-03-04 19:35:31

— Por que? Por que comprar casa para o mais velho e o segundo, carro para o Fusheng e o Haijiang, e para nós nada? Por acaso somos estranhos?

Ao ouvir o filho contar sobre a agitação na antiga casa, Liu Chunhua, esposa do quarto tio, Sun Chuntang, quase desmaiou de raiva e gritou com ele.

Sun Chuntang, que sempre obedecia à esposa, limitou-se a permanecer calado mesmo sendo duramente repreendido por Liu Chunhua.

Mas Sun Haijun, cabisbaixo, resmungou:
— Mãe, por que briga com o pai? Quando a tia veio pedir dinheiro emprestado, dizendo que o tio estava gravemente doente, que não tinham mais nada e queriam mandar o primo Qing estudar, papai já ia dar o dinheiro. Você ameaçou arranhar o rosto dele se ousasse emprestar, dizendo que estudar não servia para nada. Agora, que ele estudou, ganhou dinheiro e retribui aos avós e aos tios, você, que não ajudou antes, quer receber agora? Com que direito?

Sun Haijun era um ano mais novo que Zhang Qing e já entendia bem das coisas.

— Cala essa tua boca, moleque!

Liu Chunhua, furiosa e envergonhada, deu-lhe um tapa no rosto e gritou:
— E se emprestássemos aquele dinheiro, como iríamos plantar? Vocês iam ficar sem comer?

Talvez por estar acostumado a apanhar desde pequeno, Sun Haijun não se abalou, resmungou ainda mais irritado:
— O molho de soja, o sal, tudo que comemos aqui em casa, fui eu que “emprestei” dos avós. Até os pães estamos sempre lá pegando. Que dinheiro gastamos? Você não quis ajudar porque achava que eram pobres demais para devolver. Já que não soube ser boa antes, agora não venha querer tirar vantagem. Mas Qing disse que no Ano Novo posso ir para o apartamento e passar com os avós.

— Seu desgraçado!

Liu Chunhua quase teve um troço, correu atrás do filho e lhe deu mais uma surra, depois virou-se para Sun Chuntang e esbravejou:
— Vai ficar aí parado até morrer? Pega uns ovos e vai até a casa do irmão mais velho, visitar sua irmã e Qing. Não acredito que, sendo irmão, ela vá mesmo nos abandonar!

...

— O Haijun já foi embora?

Quando arrumava as mesas, Li Ying percebeu que faltava gente e só então soube que Sun Haijun e Sun Haitao tinham voltado para casa.

Li Yun riu e disse:
— Daqui a pouco, os do quarto e do quinto irmão vão aparecer.

Zhang Guozhong, preocupado:
— Será que não vai dar confusão?

Sun Qingshi resmungou:
— Se eles vierem reclamar, deixem que eu falo. Não respondam nada. Ora, vão reclamar do quê?

Zhang Qing sorriu baixinho:
— Se não fosse o dinheiro do carro, até dava para juntar e comprar casa para eles. Era para isso que o avô guardava, caso viessem fazer escândalo. Mas agora, não tem mais jeito.

Sun Qingshi falou com firmeza:
— Eu ia pedir isso? Qing, você acha que sou bobo? Eu posso estar velho, mas meu coração não está cego. Mesmo se pudesse comprar, não compraria. Todos têm sentimentos. Não ajudaram antes, agora querem tirar proveito? Onde já se viu!

A segunda tia, Liu Xiu’e, sorriu de canto de boca:
— Eles ainda são jovens.

Na verdade, era isso que ela mais detestava.

Zhao Juxiang assentiu apressada:
— Isso mesmo, são jovens, não têm juízo.

O filho mais novo era o seu xodó.

Li Yun riu:
— Mãe, jovens? Já têm quase quarenta! São mais velhos que Qing, e você ainda diz que são crianças? Haijun só é um ano mais novo que Qing e ainda quer que Qing cuide deles? Ele que é mais maduro.

Sun Yuehe comentou sorrindo:
— Nossa família e a dos Zhang não se dão muito bem, só esses dois mais novos conseguem conversar com os de lá.

Zhao Juxiang ficou sem palavras, pois sabia que a própria filha detestava tanto a família Zhang que já quase amaldiçoava os ancestrais. Só pôde suspirar.

Mimou o filho a vida toda, mas agora não tinha argumento.

Entre risos, todos se sentaram à mesa. Sun Mantang trouxe o famoso vinho Daohuaxiang, que Zhang Guozhong trouxera de Jiangjin, e, ao abrir, um aroma delicioso se espalhou.

Naqueles tempos, nas zonas rurais de Xinjiang, era praticamente impossível provar um vinho tão bom.

Os olhos dos apreciadores de bebida até lacrimejaram, como a nora de Fusheng, Li Ying...

Ainda bem que a família Sun era de bons costumes; bebida boa era só para saborear, não para criar confusão. Quem bebia demais, só dormia.

No fundo, quem já se embriagou sabe: o entendimento permanece, só os pensamentos se ampliam e o corpo não obedece. Do contrário, por que ninguém se joga da janela depois de beber? Só raramente alguém cai na água.

A mesa farta contava com carne de boi, carneiro, peixe, coelho, cachorro; legumes como nabo, repolho, batata e algumas verduras secas.

Verduras frescas eram raras no interior do noroeste nessa época; mesmo na cidade, poucos podiam pagar.

Ainda assim, a refeição era saborosa e abundante.

Zhang Qing não bebia álcool; brindou aos avós com chá com leite e se pôs a comer.

— Olhem só nosso Qing! Agora sim o reconheço, só vendo ele devorar a carne é que vejo que é o de sempre! — exclamou a tia mais velha, Li Yun, ao vê-lo comer com gosto.

A segunda tia, Liu Xiu’e, também se alegrou:
— Comer bem é importante, ainda mais para quem trabalha tanto com a cabeça. Tem que se alimentar!

A avó Zhao Juxiang perguntou:
— Meu filho, sua mãe disse que você ganhou uma fortuna escrevendo. Que coisa é essa que dá tanto dinheiro? Seus primos também sabem ler, ensina eles?

Antes que Zhang Qing respondesse, o avô Sun Qingshi ralhou:
— Eles têm mãos e pés, não têm? Por que o Feng Datou consegue ganhar milhões e vocês não? Dizem que sabem ler, mas vão lá perguntar se têm coragem de afirmar isso diante do Qing!

Sun Fusheng, satisfeito e sem perder a dignidade, logo defendeu Zhang Qing:
— Vovó, o avô está certo. Perto do Qing, quem de nós se atreve a dizer que sabe ler? Ele é como um campeão, e nós não passamos de estudantes comuns.

Sun Haijiang também riu:
— Vovó, poupe-me. Só de olhar um livro já fico tonto. Vai esperar que eu escreva e ganhe dinheiro?

Zhao Juxiang não se ofendeu, apenas resmungou:
— É cada um...

Todos riram. Li Yun brincou:
— Mãe, você sonha alto demais. Isso é dom, nem eu ouso sonhar.

Zhao Juxiang suspirou:
— Nem tudo é dom. O Qing passou por tantos sacrifícios estudando, vocês viram. Quem aguentaria? Ele merece o que conquistou.

Zhang Qing sorriu para Zhao Juxiang:
— Vovó, deixa disso. Eu ganhar dinheiro é o mesmo que Fusheng ou Haijiang ganharem. Quando eu for para a faculdade, levo vocês para Yanjing, Módou, para conhecerem a Cidade Proibida, a Muralha da China. O avô sempre diz que só os grandes líderes vão a Beidaihe aproveitar a vida. Nós também vamos, ano que vem.

Zhao Juxiang riu:
— Parece até sonho. Esses lugares são para gente como nós? Cuidado para não acabarmos presos como vagabundos!

Todos riram. Sun Yuantang perguntou:
— Qing, e a família Zhang? Anteontem encontrei seus tios, eles já souberam do que aconteceu e querem te procurar quando voltar.

Zhang Qing fingiu não entender:
— Procurar para quê?

Sun Mantang olhou para Sun Yuehe, sem saber o que dizer:
— Sua mãe quitou todas as dívidas, voltou de Jiangjin trazendo presentes para todos e diz que vai comprar apartamento na cidade. O pessoal do seu vilarejo não contou para seus tios? E aqui todo mundo é língua solta, espalharam que você vai comprar casa para a gente, e agora todos riem deles. Seus tios ficaram furiosos e disseram na minha cara que você é Zhang, não Sun.

Sun Yuehe fingiu não ouvir, as noras também baixaram os olhos, como se nada tivessem a ver, apesar de terem sido elas que espalharam.

Zhang Qing não se incomodou, riu:
— Pessoas chamadas Zhang existem aos montes. Somos parentes, não família. Família cuida um do outro, parentes nem sempre. Parentes não misturam dinheiro; dinheiro só traz ressentimento. Não sou idiota, estudei para saber distinguir o certo do errado.

E, dizendo isso, levantou-se para cumprimentar os que acabavam de chegar:
— Tio Quarto, Tio Quinto, Tia Quarta, Tia Quinta.

Mas os recém-chegados entraram com o rosto tenso e, ao ouvir o cumprimento de Zhang Qing, apenas sorriram sem graça e acenaram.

A frase de Zhang Qing, “parente não mistura dinheiro”, deixou-os sem ação...

...