Capítulo Quinze: "Que Assim Seja"
Violão?
Todos ficaram surpresos ao ouvir, e Cipriano sorriu calorosamente: “Claro que pode.”
Ele foi até o balcão, pegou o violão e entregou a João Azul, com um olhar encorajador.
João Azul agradeceu, recebeu o violão e subiu ao palco. Sem usar microfone, olhou para Julieta, que sorria entre o público, e disse: “Eu não sabia que hoje era seu aniversário, mas você, como líder da turma, me ajudou muito, e seus pais também. Os livros que o tio Cipriano me deu, li alguns e aprendi um pouco. Sem saber o tamanho do mundo, arrisquei escrever uma música. Hoje, como presente de aniversário, ofereço ao líder da turma. Feliz aniversário!”
Todos aplaudiram, e Julieta comentou, brincando: “Canta logo, menos conversa!”
Os demais encararam como apenas uma apresentação durante a festa.
Mas o rosto de João Azul mostrava seriedade. E quando tocou os acordes, Cipriano e Julieta ficaram surpresos: eram belos.
Quando começou a cantar, até Lisandra, Susana e Dulce se surpreenderam, pois a letra era muito bonita.
“Que nos invernos te aqueças,
que na primavera não sintas frio,
que nos dias de chuva tenhas abrigo,
que teus sonhos sejam tranquilos,
que tenhas bondade e calor,
que tua alma não se aflija,
que o tempo seja generoso,
que os amigos nunca se afastem!”
No público, o sorriso de Julieta foi se apagando aos poucos; ela olhava fixamente para o palco, e seus olhos radiantes brilhavam, piscando com frequência.
Cipriano observava João Azul com cautela. Como não desconfiar quando um rapaz toca tanto o coração de sua filha?
Lisandra, além de surpresa, sentia admiração: não só pela letra, mas pela sinceridade com que João Azul cantava.
Susana e Dulce ficaram emocionadas a ponto de se sentirem melancólicas. E agora? Nos próximos aniversários, deveriam pedir para alguém cantar músicas folclóricas?
“Que na vida encontre boa companhia,
sem tristeza, mas com alegria,
que teu coração tenha sempre amparo,
que as preocupações sejam passageiras,
que apresses menos teus passos,
e nunca esqueças de olhar para trás,
que vivas plenamente, sem arrependimentos,
que tudo se complete no final.”
O som foi cortado abruptamente.
Era uma canção curta.
João Azul se levantou, com olhar tranquilo e honesto.
Cipriano foi o primeiro a aplaudir, seguido por Lisandra, Susana e Dulce.
Julieta não aplaudiu, mas seu sorriso era radiante, seus olhos mais brilhantes do que nunca.
Cipriano olhou para João Azul descendo do palco e assentiu: “Cantou muito bem, sua voz também é boa. Essa música poderia ser mostrada à Senhora Xu…”
Antes que terminasse, Julieta protestou alto: “Por quê? Essa música é minha!”
Cipriano achou graça: “Está envergonhada? João Azul também precisa de dinheiro.”
João Azul rapidamente respondeu: “Tio Cipriano, não é necessário, de verdade. No momento, estou bem de dinheiro.”
Susana comentou rindo: “Bem de dinheiro? Agora você só come legumes: ou batatas de vinte centavos ou repolho de dez centavos.”
Lisandra lançou-lhe um olhar de reprovação: “Que comentário é esse? Batata e repolho, qual o problema? Vocês estão se tornando senhoritas mimadas que ignoram as dificuldades do povo... E ainda acham que foi um elogio?”
Cipriano também comentou: “Quando passamos por tempos difíceis, era o que comíamos, mas as coisas sempre melhoram.”
João Azul não se ofendeu, explicou: “Não é necessário, realmente não preciso de dinheiro agora.”
Lisandra franziu levemente o cenho: “Julieta me disse que seus pais não estão bem de saúde?”
Ela não gostava de pessoas que fingiam estar melhor do que realmente estavam.
Julieta encarou João Azul, e ele ponderou antes de responder: “Se fosse antes de ontem, talvez precisasse, mas hoje não. Escrevi um romance e publiquei na revista ‘Crônicas de Fantasia e Aventura’. Como teve boa recepção, hoje de manhã um editor veio conversar sobre publicação. Fui com ele falar com o professor de turma, Tiago, e firmamos contrato. A revista irá me pagar direitos autorais, o suficiente para manter meus pais em tratamento médico. Se o livro vender bem, talvez consiga até um transplante para meu pai.”
Ao terminar, o ambiente ficou silencioso.
Dinheiro, para quem estava ali, não era um problema.
Mas...
Era só uma questão de dinheiro?
Ter seu texto impresso, publicado, era motivo de honra, hoje e daqui a vinte anos.
Mas havia algo de mágico, quase irreal.
Um jovem rural, pobre, com pais doentes, escreve um livro e resolve os problemas financeiros?
Julieta olhou para João Azul, rindo: “Você escreveu um romance? Você está sempre ocupado; sei do que faz na maior parte do tempo. E no restante, conseguiu escrever um livro digno de publicação?”
Lisandra perguntou: “Qual o título? ‘Aventuras Fantásticas’ está em nossa sala de leitura, os jovens gostam e discutem muito.”
João Azul respondeu: “O título é ‘A Lenda do Herói do Arco’.”
“Meu Deus!”
Dulce, que já parecia desconcertada, exclamou: “‘A Lenda do Herói do Arco’ é mesmo sua? Você é o Jin Yung?!”
Ela também era fã de literatura popular, comprava todas as edições.
Quando João Azul mencionou, ela suspeitou qual era o livro, mas não podia acreditar. Como seria possível?
Não imaginava que era mesmo ele!
Susana também ficou sem palavras: “O Leandro, aquele bobo, estava lendo ‘Aventuras Fantásticas’ no caminho, queria treinar o ‘Golpe do Dragão’. A Quiana também, dizendo que ia aprender o ‘Manual das Nove Sombras’ para derrotar Leandro. E agora…”
Agora, o livro era escrito pelo colega que eles menos valorizavam.
Que mundo é esse?
Julieta olhou para João Azul e perguntou seriamente: “Pode me dizer, o que mais você sabe fazer?”
João Azul sorriu tristemente e balançou a cabeça: “Quando se está sem saída, sempre se busca uma maneira de sobreviver.”
O ambiente ficou ainda mais silencioso. Essa frase... era dolorosa.
Mas era a verdade.
Lisandra olhou para João Azul e disse: “Na beira do abismo, a maioria culpa o mundo e desiste. Pensam que não vale a pena lutar. Você é diferente, encontrou uma saída onde era impossível. João, meus parabéns.”
João Azul sorriu, meio constrangido. Se não fosse por aquele sonho, também seria apenas mais um entre muitos.
Neste mundo absurdo, apenas o extraordinário pode mudar o destino...
Ele assentiu: “Obrigado, tia, e obrigado, tio.”
Cipriano sorriu: “Íamos te ajudar com um empréstimo sem juros. Julieta disse que seu progresso nos estudos foi grande, e você a ajudou muito. Agora, parece que não precisa mais?”
Julieta apressou-se a dizer: “Ei, uma coisa não exclui a outra. Os direitos autorais não chegam de imediato, ele ainda precisa do dinheiro. E agora, como há garantia, não deveríamos emprestar mais? Cipriano, não seja mesquinho!”
João Azul olhou para Julieta e sorriu: “Não é necessário, a revista já adiantou parte dos direitos autorais, é o suficiente.”
Julieta olhou para João Azul como se ele fosse um bobo e falou alto: “Você sabe o que é um empréstimo sem juros? Você pega o dinheiro sem pagar juros, pode investir e ganhar com isso!”
A última frase era brincadeira. João Azul sorriu novamente e não respondeu, recusando educadamente.
Lisandra olhou para João Azul com simpatia: “Se seus pais quiserem vir para o Estado do Rio Han para tratamento, podem me procurar. Não posso fazer muito, mas posso indicar bons médicos.”
Seu olhar era de admiração, reconhecendo a boa índole.
João Azul respondeu com seriedade: “Muito obrigado, tia!”
Lisandra sorriu e assentiu: “Se ninguém fora daqui sabe disso, melhor manter em segredo por enquanto. Não é necessariamente algo bom, especialmente agora. Sugiro que priorize o vestibular.”
João Azul assentiu: “Sim, só o professor Tiago e meus colegas de quarto sabem. Eles sempre dividiram comida comigo no colégio, quero retribuir agora que posso. Mas se não digo a verdade, eles não aceitam. Então…”
Lisandra sorriu: “Retribuir pequenas bondades com grandes gestos é uma virtude. Acredito que vão guardar seu segredo.”
Julieta brincou: “Comigo é diferente. Sem uns dez mil, não calo a boca!”
Susana concordou rindo: “Eu também, eu também!”
As duas foram devidamente repreendidas.
Cipriano sorriu: “Ver algo assim é mesmo motivo de alegria. Deus ajuda quem se esforça. Continue assim.”
Lisandra, séria, olhou para Julieta, Susana e Dulce: “Com pessoas de caráter, aprendam com seus exemplos. Se estivessem no lugar dele, conseguiriam lutar pela vida dos seus pais? Não é só talento, é suportar pressão, ter força de vontade e passar por muitas dificuldades. Julieta, Susana, vocês são colegas, devem ter visto apenas a ponta do iceberg.”
Julieta, ao ouvir, olhou para João Azul, que estava constrangido com tantos elogios, e sorriu: “Vou aprender, claro, mas vocês não vão precisar que eu salve ninguém. Se tiver problemas, peço ajuda ao João Azul, ele é tão habilidoso. Você ajudaria, não é?”
João Azul assentiu sorrindo. Cipriano, sem querer prolongar, bateu palmas: “Vamos comer o bolo!”
Uma garçonete entrou empurrando um bolo de dois andares, com dezoito velas no topo…
…
PS: Achei que ninguém leria, mas houve algumas discussões, haha. Não se preocupem, por enquanto são só amigos, ainda há muito pela frente. Além disso, as piadas sobre João Azul são feitas porque ele mesmo se autoironiza, sabem que ele tem bom humor, por isso brincam, tudo no seu tempo. Este livro eu queria escrever faz muito tempo, acredito que posso fazê-lo bem.