Capítulo Quarenta: Não Tão Ingênua
— Jovem, em que área você trabalha?
Ao sair pela porta, Zhang Liang começou a investigar suas origens; quem já teve contato com o mundo burocrático sempre gostava desse tipo de abordagem.
Zhang Qing não escondeu nada:
— Sou apenas um estudante do ensino médio.
Zhang Liang achou graça:
— Um estudante do ensino médio pode comprar três apartamentos para a família?
Zhang Qing respondeu:
— Escrevi um livro, foi publicado por uma revista de Xangai, e ganhei algum dinheiro.
Ao lidar com as pessoas, não se deve ostentar, mas também não pode ser modestíssimo; a modéstia exige grande capital, que ele ainda não tinha.
— Vejam só, que coisa! — Zhang Liang exclamou.
Apesar de Zhang Liang ser um filho de família abastada, genro de funcionários, sua família era de professores, seus pais eram jovens intelectuais enviados para regiões distantes nos velhos tempos.
Depois de tantos anos de influência, ele sempre carregou, no fundo, aquela sutil ideia de que “todas as profissões estão abaixo do estudo”.
E, poder ver suas palavras impressas, nesse tempo, era algo que elevava seu status.
Zhang Liang ficou radiante:
— Sorte minha que meu cunhado não está aqui; senão, ele ia te arrastar para ler seus poemas ácidos. Ele só conseguiu casar com minha irmã porque sabia escrever umas poesias. Mas não se compara a você: ele pagava para publicar, e nem as editoras queriam. Você é admirável, escrever romances e ganhar dinheiro suficiente para comprar apartamentos, isso sim é impressionante! Hoje à noite, eu ofereço um jantar, vamos celebrar!
Zhang Qing lamentou:
— Faltam poucos dias para o vestibular, não posso beber agora. Quando terminar a prova e voltar, se Zhang tiver tempo, podemos nos reunir.
Zhang Liang continuava entusiasmado:
— Você é mesmo um homem de cultura, até recusa bebida de maneira elegante, diferente daqueles pseudo-intelectuais como meu cunhado: dizem que têm alergia ao álcool só para evitar beber. Os amigos deles são uns fingidos, só brindam se o outro tem cargo maior. Um absurdo!
Zhang Qing sorriu, preferiu não comentar.
De repente, Zhang Liang bateu na cabeça:
— Esqueci de perguntar: qual seu nome?
Falando com formalidade, Zhang Qing respondeu, sorrindo:
— Não ouso, meu sobrenome é Zhang, meu nome é Qing.
Zhang Liang ficou ainda mais animado:
— Veja só, há quinhentos anos éramos da mesma família! Mas, jovem, o sobrenome Zhang não precisa de humildade, sabe por quê?
Zhang Qing respondeu:
— É porque somos parentes do Imperador de Jade?
Zhang Liang riu alto:
— Sabia que você ia falar do Imperador de Jade! Mas não é só ele, somos também parentes do Senhor dos Infernos!
Zhang Qing se curvou, respeitoso:
— Perdão pela falta de respeito.
Zhang Liang se divertiu ainda mais, rindo enquanto seu cabelo balançava ao vento frio.
Logo chegaram ao departamento de registro de imóveis; realmente, ter conhecidos facilita tudo. Zhang Liang foi direto ao chefe de carimbos, Zhou Qiang. Zhang Qing entregou os documentos de identidade de Sun Yuehe e o registro familiar dos Zhang, depois foi ao escritório beber chá e conversar. Em menos de meia hora, tudo estava resolvido. Os dois seguiram para o banco agrícola, transferiram setenta mil na hora, e o assunto estava encerrado.
Gente de ação, resolve tudo com rapidez.
— Jovem, você disse que depois das festas vai pegar um avião de Beita? Quando passar por lá, precisa visitar seu irmão, senão vou achar que me despreza. Minha irmã e cunhado sempre dizem que só faço amizades com tipos duvidosos, mas agora vou mostrar que também tenho um amigo de verdade, culto.
Antes de partir, Zhang Liang pegou uma bolsa de viagem, jogou nela alguns produtos de higiene e roupas, despediu-se de Zhang Qing.
Zhang Qing tinha nas mãos dois livros, as edições publicadas de “A Lenda dos Heróis do Arco”, sorrindo:
— Minha obra é modesta, apenas para distrair. Se Zhang tiver tempo, pode ler.
Zhang Liang quase não conseguiu conter o riso; quem ouviu a conversa achou que eram malucos.
Depois de se despedir, Zhang Qing voltou ao condomínio dos funcionários do departamento de alimentos. Ao subir, logo ao entrar, ouviu a agitação dentro da casa.
Uns dez parentes estavam reunidos, ocupando todos os lugares, cercando os três títulos de propriedade, entre comentários animados e emocionados.
Ao vê-lo entrar, os chamados aumentaram:
— Qing, venha logo!
Zhang Qing sorriu:
— Por que não vão para o terceiro andar? É maior.
A cunhada, Li Ying, riu:
— Nem fale! Nem me atrevo a pisar naquele piso de madeira, gente do campo tem medo de criar buracos com o peso do pé. Ficar lá, o coração fica apertado. O avô tem razão: nossa sorte ainda não chegou, não conseguimos sustentar aquela casa, melhor que você fique sozinho lá. A tia, o tio e os avós ficam neste lado, três quartos: avós, tio, tia e tio.
Sun Mantang concordou:
— O apartamento de cima é para quem tem cargo, tem aura oficial, não é para nós. Quem for morar lá, acaba doente, nem consegue dormir. Só Qing consegue, Lan Lan talvez, os outros não.
Zhang Qing protestou:
— Não é tão misterioso assim, é só uma casa... Se meus pais ficarem aqui, e Fu Sheng com a esposa e Yang Yang, como fica? Eles vão para o terceiro andar?
Mas, por mais que falasse, a família não concordava.
Sun Fu Sheng sorriu:
— Vamos voltar para casa, lá temos animais, não podemos ficar longe. Yang Yang pode ficar com os avós aqui, só precisa de uma caminha, já é suficiente.
Sun Yuan Tang completou:
— Há outro apartamento ao lado, não falta espaço. Só ficamos aqui no inverno, na primavera voltamos.
Sun Fu Sheng disse:
— Ontem Qing falou em construir uma casa, pedi para fazer na vila Ba Yi, não voltar para a vila Libertação. Todos juntos, podemos nos ajudar. A família da tia agora está com dinheiro, não dá para confiar. Os Zhang são problemáticos.
Zhang Guozhong ficou calado, Sun Yuehe insistiu:
— Não dá, a terra é lá, a casa também, o registro familiar está lá, como vamos mudar?
— Tia, o que está dizendo? Aqui também é sua casa. Lá não é tão bom assim, se fosse, no ano passado Qing não teria que colher sozinho mais de dez hectares, sem ninguém ajudando.
Sun Fu Sheng falou alto.
Zhang Guozhong explicou:
— Não é que não quiseram ajudar, todos estavam ocupados. Depois, até emprestaram espaço para limpar o grão, e emprestaram caminhão.
Sun Hai Jiang também aconselhou:
— Tio, pense bem: se sua casa fosse na vila Ba Yi, Qing conseguiria cultivar sozinho mais de dez hectares? Os parentes dos Zhang não ajudam.
Sun Yuan Tang repreendeu:
— Quem te deu voz? Por mais que os Zhang não sejam bons, Guozhong é Zhang, Qing também.
Zhang Guozhong não se ofendeu, apenas suspirou:
— Não é só por eles, são muitos vizinhos antigos, além da terra e do registro familiar...
Sun Fu Sheng apressou-se:
— Tio, este ano queremos que meu pai seja eleito chefe da vila, antes não tinha chance, mas agora todo mundo vê que nossa família está prosperando. Eu, o segundo tio e Hai Jiang vamos trabalhar para isso, não será difícil. Não precisa se preocupar com terra e registro, vai dar certo.
Quando nossa família for líder na vila, não vamos abusar, mas ninguém vai nos abusar também; na vila Ba Yi, podemos viver livres. Vocês ficam tranquilos, Qing também fica. Se vocês continuarem na vila Libertação, mesmo se ele construir uma bela casa para vocês, vão ficar tendo gente pedindo dinheiro, arrumando confusão, fofocando, isso é de tirar qualquer um do sério.
Zhang Qing olhou para Zhang Guozhong:
— Fu Sheng tem razão, melhor mudar para lá, juntos ninguém nos oprime. Você não consegue mais trabalhar pesado, mãe também não está bem, eu e Lan Lan não estaremos em casa depois. Só se quiser ir conosco para o interior, Pequim ou Xangai.
Zhang Guozhong respondeu rápido:
— Eu não vou, é como prisão, sufoca qualquer um!
Li Yun riu:
— Veja, o rosto de Guozhong já mudou!
Liu Xiu'e brincou:
— Fala que tem dinheiro, mas não quer ir para cidade grande, cheia de prédios e carros?
Zhang Guozhong disse alto:
— Aquele lugar não é para gente como nós, sufoca!
Até Sun Yuehe concordou:
— Se formos, já se vê que somos do campo, ainda mais do extremo oeste. Escuros, com jeito rude, vira motivo de piada, até no shopping as pessoas riem. Dá nojo. Não quero ir, nunca mais. Por melhor que seja, não é melhor que nossa casa.
Sun Qing Shi comentou:
— “Casa de ouro ou prata não é melhor que nosso ninho de cachorro.” Então mudem para cá, Fu Sheng tem razão, mais perto, mais fácil de cuidar uns dos outros.
Li Ying aconselhou:
— Tia, você e tio não conseguem mais fazer serviço pesado. Nem plantar. Se Qing construir uma casa grande, só limpar já não dá para vocês. Melhor mudar para cá, quem sabe conseguimos morar num apartamento bom!
Sun Fu Sheng reclamou:
— Como tem coragem de dizer isso?
Li Ying respondeu, mais forte:
— Minha tia, por que não? Você que não tem coragem, não faz nada, eu ainda posso lavar roupa e limpar para minha tia, e você?
Zhang Qing propôs:
— Construímos uma casa de três andares, maior, para todos morarem. Uma casa pequena não fica bem, se for grande e só meus pais morarem, não é bom para eles, gente junta é mais animado.
Sun Qing Shi balançou a cabeça:
— Por mais próximos que sejam, morar juntos por muito tempo dá problema. De longe é cheiroso, de perto é ruim.
Zhang Qing sorriu:
— Em vida comum, é assim mesmo. Mas nossa família vai melhorar cada vez mais; quando Fu Sheng e os outros ganharem dinheiro, não vão ficar em casa o tempo todo, vão viajar.
Sun Fu Sheng ficou pressionado, olhou para Zhang Qing aflito:
— Eu não posso garantir, não sou como você. Só dirijo, não tenho dinheiro para passagens de avião.
Todos riram, e Sun Hai Ping, já casada, olhou para Zhang Qing:
— Qing, não esqueça de ajudar Fu Sheng, mas não se esqueça desta prima.
Sua mãe, Li Yun, resmungou:
— Filha casada é água derramada; não deixei você casar com a família Wei, mas não adiantou, agora sabe como é difícil ser pobre?
Sun Hai Ping ficou com os olhos vermelhos; realmente, o marido não era bom, a família era pobre, e ele nem trabalhava direito, só falava, era arrogante, o que irritava a família Sun.
Meninas só descobrem o quanto dói cair num abismo depois de passar pelo sofrimento.
Claramente, Sun Hai Ping não falava só por si.
Nem precisou Zhang Qing responder; Sun Mantang explicou:
— Qing comprou casa para nós porque sempre viveu conosco, então agora retribui ao avô, avó e tios. Ajuda Fu Sheng não só por ser primo, mas porque ele e Hai Jiang são honestos e trabalhadores. Você sabe como é o seu marido? Qing não pode ajudar, mesmo que queira. Não fale mais nisso.
Sun Yuan Tang acrescentou:
— Diga ao Wei Qiang que Qing nem faz favores para tios de sangue, só respeita quem cuidou dele. Não precisa se preocupar. Qing é generoso e respeitoso, mas não é bobo. Diga para ele parar de espertezas, para não envergonhar nossa família.
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