Capítulo Quarenta e Seis: O Fresto

O Sonho Mais Longo O vento soprava frio lá fora. 3200 palavras 2026-03-04 19:35:41

— Vovô Wang, vovó Wang, feliz Ano Novo!

Em outra casa vizinha, Zhang Qing cumprimentou com um sorriso. Assim como na casa da vovó Mao, Zhang Qing novamente recebeu atenção especial.

Diferente da vovó Mao, que era de Sichuan, a família Wang vinha da província de Henan e todos falavam com o sotaque característico da região:

— Qingzi, você é mesmo um orgulho!

Zhang Qing sorriu. Ali ao lado, o velho Wang era um homem orgulhoso, geralmente não dava muita bola para as pessoas, mas dessa vez alongou as palavras:

— Estudar é mesmo o melhor caminho! De repente compra três apartamentos, ainda vai comprar carro. Quantas pessoas passam a vida sem juntar esse dinheiro? Guozhong, se não tivesse um filho desses, você conseguiria imaginar uma vida dessas?

Zhang Guozhong riu:

— Por isso, vale tudo para dar estudo ao filho, nem que seja preciso vender o que tiver.

A vovó Wang suspirou:

— Antes todo mundo caçoava da sua família, dizendo que viviam na miséria e ainda mandavam o Qingzi para estudar na cidade. Falavam que vocês estavam loucos, esperando para ver vocês fracassarem. Agora ninguém diz nada. O que vão dizer? Estão é morrendo de inveja, em casa batendo nos filhos todo dia. Se não estudam, batem até cansar. Eu falo para eles: filho não nasceu para isso, bater não resolve. No nosso vilarejo, em todo o coletivo Hongqi, não saiu ninguém como Qingzi!

Sun Yuehe nunca se cansava de ouvir essas palavras, aproveitou aquele momento e perguntou:

— E a Shuihua?

Shuihua era a nora mais nova da família Wang, morava com os idosos e era muito próxima de Sun Yuehe.

A vovó Wang respondeu:

— A família do terceiro filho convidou para almoçar hoje, foram todos. Por que vocês não almoçam aqui? Os raviolis estão prontos, é só cozinhar, tem saladas frias, carne bovina, está tudo preparado.

Os três da família Zhang recusaram, dizendo que não estavam com fome, ficaram mais um pouco e se despediram.

Depois, passaram por mais três casas. Quando já se aproximava o meio-dia, almoçaram na casa de Tie Zhu, grande amigo de Zhang Guozhong.

Tie Zhu era mongol, e os mongóis também celebram o Ano Novo, na verdade, os hábitos deles pouco diferem dos chineses han.

Na casa de Tie Zhu havia quatro filhos, todos estudando, a pressão era tão grande quanto na família Zhang. Depois que Zhang Guozhong ficou doente, a família Tie Zhu ainda trouxe muita carne, eram pessoas leais e generosas.

— Qingzi, ainda brinca com pombos?

Tie Zhu perguntou brincando.

Ele gostava muito de Zhang Qing. Nos anos do ensino fundamental, Zhang Qing era apaixonado por pombos e Tie Zhu criava muitos. Teve um aniversário em que Zhang Qing ganhou apenas um miojo com ovo, o que já era luxo no campo. À noite, Tie Zhu levou um casal de pombos para comemorar. Até hoje, Zhang Qing lembra daquela alegria.

Zhang Qing sorriu:

— Ainda gosto, mas já não tenho oportunidade de criar. Tie Zhu, o senhor ainda tem muitos pombos?

— Meu filho Dongzi gosta, eu já não crio mais — respondeu Tie Zhu.

Dongzi entrou trazendo um grande bule de chá com leite; a matriarca Wang Guihua preparava carne na hora. Dongzi, olhando para Zhang Qing, disse:

— Teus dois tios já estão morrendo de raiva da tua família, passam o dia xingando. No vilarejo todo, quem não conhece o jeito deles? Mas também, quase ninguém defende vocês. Sabe por quê?

Wang Guihua, sem esperar resposta, resmungou:

— E precisa dizer? Sempre fomos os mais pobres, agora demos a volta por cima e ficamos mais ricos que todos. Eles querem mesmo é ver desgraça, senão nem dormem direito.

Tie Zhu riu alto:

— Invejam os pobres e odeiam os ricos, deixa pra lá!

Perguntou a Zhang Guozhong:

— E agora, vão virar cidadãos da cidade? E a terra?

Zhang Guozhong respondeu:

— A terra, talvez eu arrende. Você quer plantar?

Tie Zhu hesitou:

— De uns anos pra cá, plantar não dá dinheiro.

Zhang Guozhong sorriu:

— Se você não quiser, deixo pro Wang Si, ele gosta de plantar.

Tie Zhu olhou Zhang Guozhong com admiração:

— Vai mesmo largar tudo? Vai só aproveitar a vida?

Zhang Guozhong sorriu amargo:

— Quase inválido já, não tenho como trabalhar. Se eu for tentar mais alguma coisa e adoecer de novo, não ia só prejudicar meu filho? Melhor parar.

Wang Guihua, não escondendo a inveja, comentou:

— Com um filho como o Qingzi, precisava trabalhar? Se fosse eu, passava o dia contando dinheiro.

Sun Yuehe riu:

— Que dinheiro? Compramos três apartamentos, o resto do dinheiro emprestamos para os dois tios dele comprarem carro. Os irmãos caçulas não conseguiram empréstimo, fizeram um escândalo antes do Ano Novo, quase viraram a mesa.

Ah, então realmente não sobrou dinheiro.

Wang Guihua se sentiu mais aliviada e, curiosa, perguntou:

— Mas por que quase viraram a mesa? Ouvi dizer que os dois mais novos não têm jeito, parecem com aqueles dois encrenqueiros da família Zhang.

Sun Yuehe balançou a cabeça:

— Tudo por causa de dinheiro, todos querem emprestado do Qingzi.

Dongzi riu:

— Não são só eles, até eu queria pedir. Mas depois pensei: Qingzi não é banco, não tem tanto dinheiro assim.

Zhang Qing disse:

— Dongzi, quanto você precisa? Não tenho muito, mas uns mil ou dois ainda tenho.

Tie Zhu balançou a cabeça:

— Pra quê ele ia querer dinheiro emprestado? Teus tios pegaram pra comprar carro, nós já temos um caminhão, pra quê mais? Se der dinheiro pra ele, vai perder tudo jogando com o Huzi.

Dongzi riu:

— Isso não, eu só vou lá pra olhar, não jogo. O Huzi e uns amigos armam truques, eu já entendi tudo. O filho mais velho da família Zhang Zhenting quase vendeu a esposa.

— Au, au, au!

Enquanto conversavam, ouviram latidos fortes do lado de fora.

Tie Zhu franziu a testa e disse ao filho:

— Vai lá ver quem chegou.

Os três da família Zhang desconfiaram. Dongzi vestiu o casaco e saiu. Assim que abriu a porta, chamou:

— Ué, tio Huzi, o que faz aqui?

Sun Yuehe ficou pálida, Zhang Guozhong também demonstrava nervosismo, mas Zhang Qing sorriu para os dois, sinalizando que não se preocupassem.

Logo entraram três homens com uma postura ameaçadora.

No interior do país, é difícil compreender o que significa esse ar imponente. O que se vê na TV é sempre superficial. No extremo oeste, depois de enfrentar ventos cortantes, verões escaldantes, pastar gado em estepes cheias de lobos e cobras, gente acostumada a portar faca na cintura, esses são os tipos realmente duros.

Os que negociam gado costumam comprar na primavera ou no fim do inverno, quando o gado está magro e os camponeses desesperados por dinheiro. Depois, levam para pastar e, ao final do verão e do outono, os animais engordam e dão lucro — não é pouco. Todo mundo conhece a estratégia, mas poucos suportam o trabalho árduo, ficar meses ao relento, protegendo o rebanho dos lobos.

Huzi e seus dois companheiros eram desse tipo.

— Senhor e senhora Tie Zhu, feliz Ano Novo, viemos trazer nossos cumprimentos!

Ao entrar, Huzi falou alto, a fala um tanto embolada.

Visitantes são sempre bem-vindos. Tie Zhu se levantou sorrindo:

— Feliz Ano Novo, vocês não aparecem muito por aqui.

Huzi sorriu, olhando para a família Zhang:

— Não teve jeito. Maldição, minha mulher morreu, depois de gastar um bom dinheiro arranjei outra, e agora vieram tirar ela de mim.

Tie Zhu entendeu e olhou para Zhang Guozhong:

— Quem levou? Zhang Guozhong? Você deve estar enganado!

Huzi abriu um sorriso torto, com feições até assustadoras, olhando para Zhang Qing:

— Garotinho, você é ousado, hein? Já cresceu tudo e acha que pode roubar minha mulher? Quer morrer? Onde ela está?

Um dos homens ao lado dele, de etnia do extremo oeste, riu:

— A velha Mao saiu dizendo por aí que tu virou um chefe em Pequim, quase um grande líder nacional. Ora, quero ver se é tudo isso mesmo, chama ele aqui!

Mesmo com medo, Sun Yuehe se levantou:

— O que vocês querem?

Vendo seu rosto pálido, os três caíram na risada.

Zhang Qing levantou-se, segurando Sun Yuehe, e sorriu:

— Mãe, não precisa ter medo.

Depois, falou calmamente a Huzi:

— Todo mundo ouviu que fiquei rico. Imagino que hoje vieram em busca de dinheiro, uns poucos milhares, né? De fato, tenho dinheiro. Escrevi um livro, vendeu muito, a TV de Hong Kong se interessou, vai ser coproduzido com o continente como homenagem à volta de Hong Kong no ano que vem... Certamente vocês não entendem, mas o que precisam saber é que vendi o livro para Hong Kong por um preço simbólico, como presente ao país. Por isso, de fato, tenho um cargo em Pequim.

E mais: escrevi uma canção, aquela que a Qin Huimin cantou no festival da Primavera, talvez vocês nem saibam o que isso significa, mas posso dizer: estou famoso, muito famoso. Hoje em dia, quase toda a China conhece essa música.

Uma pessoa como eu, se acontecer algo, do governo provincial ao posto policial, todos vão se mexer. Huzi, eu não sou Liu Senlin, que teve o tendão cortado por você e teve que aceitar calado.

Se tentar tocar em mim hoje, garanto: não é questão de três dias, nem três anos, nem trinta. Vocês não saem mais. Tudo que fizeram antes, o que antes passava despercebido, agora vai ser investigado, vão perder tudo, e talvez até acabem mortos.

Nossa família já está de partida, não sou nenhum herói que vai se meter em tudo, só dei dinheiro à Zhou Yanyan para resolver a situação porque fomos colegas. Não mexi com você porque não quis, não porque não pudesse.

Se quer mesmo confusão, posso resolver com um telefonema.

Dizendo isso, Zhang Qing avançou, encarou Huzi de cima, bateu-lhe com força no rosto e perguntou, sílaba por sílaba:

— E mais: quando entrou, estava xingando quem? Vamos, repete pra eu ouvir...