Capítulo Quarenta e Sete — O Caso Resolvido
O Fenda já tinha passado por muitas brigas na vida e vira demais gente que parecia feroz por fora, mas era covarde por dentro: gritavam alto, porém as pernas tremiam, pois faltava-lhes confiança, sentiam medo.
Mas agora, o Fenda não conseguia entender de jeito nenhum como aquele desgraçado do Wangba tinha tanta ousadia, como ousava olhá-lo como se ele fosse um animal prestes a ser abatido?
Ele não tinha medo de morrer?
— Você acredita que eu te mato agora e nem te dou tempo de telefonar pra ninguém? — rosnou o Fenda, com aquela voz rude de bandido.
Zhang Qing sorriu levemente, e esse sorriso em seu rosto bonito pareceu aliviar um pouco a tensão que pesava no ambiente. Ele disse:
— Você já é um velho malandro, não é desses que fazem besteira só por causa de orgulho e perdem a cabeça. Se puxar a faca, não sei se consegue me matar, mas com certeza sua casa vai acabar destruída. Você quer mesmo esse destino?
O Fenda arregalou os olhos:
— Você ficou com a minha mulher, que homem aguentaria isso?
Zhang Qing balançou a cabeça:
— Eu não roubei sua mulher, só dei um dinheiro para ela tentar a vida por conta própria. Eu vou fazer vestibular em breve, que história é essa de casar?
Foi então que Tiezhu falou:
— Fenda, pensa bem, Qing agora é outra pessoa. Ele está destinado a virar um grande funcionário, como poderia casar antes mesmo de terminar os estudos?
Se hoje houvesse briga, ele protegeria Zhang Qing e sua família, mas depois seria muita dor de cabeça. Por isso, não queria confusão.
Dongzi também disse:
— Tio Fenda, Qing mudou. Como é que ele ia querer casar com uma menina que só terminou o ensino fundamental? E se ele realmente tivesse fugido com a filha dos Zhou, por que continuaria aqui, visitando a família?
O Fenda insistiu:
— De qualquer jeito, foi ele quem deixou ela fugir. Gastei milhares à toa? Não importa quantos amigos ele tenha, se deixou ela fugir, tem que pagar. Se não pagar, vou reclamar em qualquer lugar, foi tudo armação entre você e a família Zhou pra me passar a perna.
Zhang Qing soltou um sorriso frio:
— O dinheiro você deu pra quem? Então vá cobrar de quem recebeu. E lembre-se, tráfico de pessoas é crime grave.
Um dos rapazes atrás do Fenda comentou:
— O Porco Zhou já gastou tudo, vai cobrar de quem agora?
Zhang Qing balançou a cabeça:
— Não é problema meu, cobre de quem recebeu, ou então vá pro tribunal.
Tiezhu sugeriu:
— Faz ele cuidar do seu gado, em uns anos já está quitado.
O Fenda ignorou, olhando para Zhang Qing:
— Quero pelo menos dez mil, senão não vai ficar por isso mesmo. Não importa quem você conhece, fiquei sem mulher e sem dinheiro, vou viver de quê agora?
Zhang Qing encarou o Fenda por um momento, depois sorriu e disse:
— O dinheiro eu dou agora, se você tiver coragem de pegar.
Por algum motivo, quando viu o sorriso de Zhang Qing, o Fenda sentiu um arrepio e praguejou por dentro: “Diacho, ver assombração em plena luz do dia!”
Zhang Guozhong então interveio, sorrindo:
— Vamos fazer assim, três mil pela sua vaca. Fenda, é melhor fazer as pazes do que criar ódio; depois de tantos anos, vão virar mesmo inimigos mortais?
Tiezhu logo apoiou:
— Deixa pra lá, vende a vaca. Somos todos do mesmo vilarejo, se brigarem vão dar motivo pra galera rir. Tem muita gente com inveja do Qing, e outros com medo de você, Fenda. Estão só esperando vocês brigarem pra ver você se dar mal, não importa quem vença, no fim o governo vai te pegar. Pensa bem, quem é o Qing hoje?
Dongzi riu ao lado:
— Por isso vieram tão rápido aqui, tem gente querendo ver sangue. Tio Fenda, se você bater no Qing, vai ser um escândalo. Quando o governo quer ignorar, tudo bem, mas se resolverem agir, você vai ser o primeiro a rodar.
Fenda, experiente, sabia disso; senão não teria chegado onde chegou. Então assentiu:
— Tá certo, vou aceitar, três mil. Mas vocês têm que dizer pra todo mundo que foram trinta mil.
Zhang Qing apenas sorriu, indiferente, e Zhang Guozhong concluiu:
— Fechado, melhor assim do que ficar pedindo dinheiro emprestado.
O Fenda, velho malandro, mesmo que não levasse a sério, fingiu estar satisfeito e perguntou a Zhang Qing:
— Nunca ouvi dizer que você era tão esperto assim, de repente ficou importante. É verdade que o povo da Cidade do Porto está todo comprando seus livros?
Zhang Qing respondeu calmamente:
— No mais tardar em julho do ano que vem, você vai ver o seriado na TV. Se tudo isso fosse mentira, minha casa aqui na cidade não escapava. — Fez uma pausa, olhou para o Fenda e acrescentou: — Por sermos do mesmo vilarejo, vou te dar um conselho: é melhor você se comportar. Lembra da repressão pesada?
Ao ouvir as palavras “repressão pesada”, o rosto do Fenda tremeu. Ele perguntou:
— Como não vou lembrar? Mas já faz tantos anos... Por quê?
Zhang Qing prosseguiu:
— Em 83 teve uma onda dessas. Eu era pequeno, mas você já era grandinho, lembra que cada delegacia tinha uma cota. Muita gente entrou e nunca saiu. Ano que vem a Cidade do Porto volta pra China, mas a bagunça só aumenta; aqui é só confusão pequena, lá no interior é pior. O governo não vai deixar isso continuar; vai endurecer logo. Então é melhor se comportar este ano, senão, quando eu voltar ao Vilarejo Libertação, vocês já não estarão mais lá.
O Fenda realmente ficou com medo e perguntou:
— Você tá... inventando isso, né? Não é possível.
Zhang Qing apenas soltou um sorriso frio, tomou o chá de leite e ignorou o Fenda.
Essa atitude só deixou o Fenda ainda mais assustado.
Um jovem tão arrogante como Zhang Qing, que nem se dava ao trabalho de encará-lo, por que haveria de mentir?
— E se for verdade, o que eu faço? — perguntou o Fenda, já sentindo o couro cabeludo formigar.
Ainda não estava totalmente rendido, afinal, nada tinha acontecido ainda.
Zhang Qing balançou a cabeça:
— Que posso fazer? Em 83, até dono de gado virou alvo, até chefão que era amigo do prefeito rodou. Morreram ou ficaram anos presos. Mas no seu caso... no máximo dá uns dez anos, prisão perpétua não é.
A boca do Fenda quase se rasgou de tanto abrir. Dez anos? Já era dúvida se viveria tudo isso.
Vendo que Zhang Qing não o respondia mais, não insistiu, pegou os dois capangas e saiu depressa.
Depois que saíram, Sun Yuehe soltou um longo suspiro e repreendeu Zhang Qing:
— Como você tem coragem?
Zhang Qing sorriu e disse apenas:
— Está tudo bem.
Tiezhu, voltando a si, olhou Zhang Qing de cima a baixo:
— Qing, você é demais, conseguiu segurar o Fenda. Aquela história da repressão pesada é verdade?
Zhang Qing respondeu:
— Vi no noticiário: em Pequim até empresário foi morto por ladrão, assaltaram carro-forte, está tudo uma bagunça. Ano que vem a Cidade do Porto volta pra China, então com certeza vai ter repressão, não vão sujar o nome do país.
Dongzi então perguntou preocupado:
— Quer dizer que o Fenda vai mesmo ser preso? Não tem jeito?
Zhang Qing olhou para Dongzi com um sorriso enigmático:
— Dongzi, por que pergunta isso?
Ninguém ali era bobo; Tiezhu logo deu um tapa na nuca de Dongzi:
— Deixa de ser besta, quer se envolver nisso?
Dongzi, coçando a cabeça, explicou:
— Só queria saber... Bom, falando a verdade, fiquei com o Fenda pra aprender como ele fazia pra vender gado, já entendi quase tudo e até ajudei algumas vezes. Se ele for preso este ano, vou assumir o negócio! Se não for, espero mais um pouco.
— Espera o quê? — perguntou Zhang Qing.
Dongzi riu:
— O Fenda já não aguenta mais a função, quem faz tudo são os empregados. Eles fingem que obedecem, mas vivem roubando por trás. Acho que, no máximo, ele aguenta mais um ou dois anos; agora só fica em casa jogando. Quando ele parar, aí sim eu começo, mas tinha medo dele atrapalhar, agora estou tranquilo.
Todos ficaram surpresos: o travesso Dongzi tinha mesmo esse sonho?
Zhang Guozhong, preocupado, perguntou:
— Vai precisar de muito dinheiro, não?
Dongzi perdeu o sorriso, baixou a cabeça:
— Vou começar pequeno, se não der pra comprar gado, começo com ovelha. Depois de algum tempo, junto dinheiro pra comprar gado.
Ele sabia que a família não tinha como ajudá-lo. O irmão mais velho, Qiangzi, ainda na faculdade, uma irmã e uma irmãzinha estudando, a família vivia de empréstimos para plantar e garantir os estudos dos filhos, não sobrava nada para investir num negócio desses.
Zhang Guozhong sorriu:
— Que tal pedir emprestado ao Qing?
Podia recusar ajudar os próprios irmãos, mas ajudar a família do Tiezhu era diferente.
Eram amigos há mais de dez anos, já se ajudaram muito, e na verdade a família do Tiezhu ajudou muito mais a dele. Zhang Guozhong queria retribuir na medida do possível.
Dongzi sorriu amarelo, com vontade de aceitar, mas sem coragem de pedir. Tiezhu, entretanto, negou:
— Negócio é risco. Fortuna de família não conta, não dá pra brincar. Se der prejuízo, vamos acabar prejudicando o Qing.
Zhang Guozhong riu:
— Prejuízo como? No máximo vai demorar uns dois anos pra devolver.
No Vilarejo Libertação, Zhang Guozhong se sentia mais à vontade.
Talvez percebendo isso, perguntou a Zhang Qing:
— Agora que o problema com o Fenda está resolvido, por que não reformamos a casa aqui mesmo?
Zhang Qing respondeu:
— O Fenda vai dizer pra todo mundo que pagamos trinta mil. Se ficarmos aqui, não vai faltar quem venha pedir dinheiro emprestado. Mesmo sem isso, árvore grande atrai vento, não é bom. Pai, o Fenda é experiente, sabe se controlar. Se fossem uns moleques, aí sim seria problema.
Sun Yuehe advertiu:
— Não invente, ouça seu filho.
Zhang Guozhong suspirou e desistiu, enquanto Zhang Qing, vendo Dongzi desapontado, disse:
— Depois do Ano Novo, mês que vem, vá à Aldeia Oitenta e Um, procure meu tio Sun Mantang e peça ao meu pai pra te emprestar oito mil de capital.
Dongzi se animou, mas logo ficou preocupado:
— E se eu perder tudo?
Zhang Qing sorriu:
— Se lucrar, paga a dívida; se perder, somos sócios no prejuízo.
Dongzi balançou a cabeça:
— Assim não dá... Qing, não me subestime, também sou homem.
Tiezhu não gostou:
— Qing, a relação entre eu e seu pai já dura quase vinte anos, um ajuda o outro, isso é coisa de adulto, você não precisa se meter. Só porque mandei uns pedaços de carne pra sua casa você quer pagar a dívida? Depois disso, acabou a amizade? Não se meta, nada de empréstimo!
Zhang Qing sorriu, resignado:
— Não é nada disso. Mas também não pode ser só sua família ajudando a minha, certo? Se Dongzi tem iniciativa, faço questão de ajudar. E nunca vamos cortar relações, só vai fortalecer. Já percebi que meus pais não querem ir pra cidade grande; se querem ficar aqui em Xijiang, nossa amizade só vai crescer.
Tiezhu finalmente se deu por satisfeito e disse:
— Então fica assim: as famílias são sócias, mas metade do dinheiro que você colocar é empréstimo. Tem que deixar tudo bem claro, senão dá confusão. Lucro divide igual, prejuízo... se der ruim, minha família devolve a parte que pegou emprestada. Isso eu resolvo com seu pai, você não se mete mais.
Apesar do sucesso de Zhang Qing, para os mais velhos ele ainda era só um menino; jamais iriam tirar vantagem de alguém tão jovem.
...
PS: O capítulo do meio-dia foi bloqueado, alterei algumas palavras sensíveis, vamos ver se passa agora.