Capítulo Cinco: Rumores

O Sonho Mais Longo O vento soprava frio lá fora. 2643 palavras 2026-03-04 19:35:10

— É verdade mesmo? — Após lançar um olhar sedutor para Liu Shanshan, que se virou à sua frente com um sorriso furtivo, Qi Juan aproximou-se de Zhang Qing e perguntou baixinho: — Você decorou a partitura?

Zhang Qing parecia igualmente perplexa, olhando fixamente para os números no papel e balançando a cabeça: — Por que eu faria isso...

Qi Juan ficou ainda mais surpresa, seus olhos brilhantes fixos em Zhang Qing: — Não me diga que no Oeste de Xinjiang vocês ensinam solfejo e treinamento auditivo desde pequenos.

O solfejo e o treinamento auditivo dividem-se em duas partes: solfejo, que é a habilidade de cantar imediatamente ao ver uma partitura; e o treinamento auditivo, que é o desenvolvimento da percepção musical, geralmente identificando notas tocadas ao piano. Solfejar já é difícil, mas o essencial é o treinamento auditivo, que normalmente começa na infância; depois de adulto, não se aprende mais a afinação absoluta, é um verdadeiro talento de criança. Exceto por algum prodígio, um gênio excepcional.

Treinar uma criança para distinguir intervalos, acordes e ritmos pelo ouvido, registrar com precisão as notas ou melodias que escuta numa pauta, identificar acordes e analisar sua natureza e função, criar intervalos e acordes correspondentes... Pelo menos, Qi Juan nunca teve acesso a isso.

Zhang Qing sorriu: — Eu tenho afinação natural.

O que ela adquiriu em sonhos só podia ser atribuído ao talento nato.

Qi Juan olhou para Zhang Qing por um instante, exclamou admirada e riu: — Impressionante. Quando quiser, vá ao meu bar. É um bar tranquilo, cheio de músicos. Eles precisam ver que até entre os colegiais há gênios.

Zhang Qing sorriu amargamente: — Gênio, eu?

Qi Juan ergueu as sobrancelhas: — Com esse talento, não conta? Por que não pensa em seguir a música?

Zhang Qing pensou um pouco: — Se nossa plantação de trigo tiver boas colheitas por alguns anos, talvez eu possa pagar a faculdade de artes.

Em qualquer época, estudar artes sempre foi caro.

Qi Juan sorriu com leveza: — E o jantar? Vamos comer no refeitório?

...

Província do Oeste de Xinjiang, Vila da Libertação, cidade da Torre de Pedra.

Na casa dos Zhang, ao ver o carteiro entregar uma carta, Zhang Guozhong e Sun Yuehe olhavam ansiosos para Zhang Lan.

Ambos sofreram a vida toda por não saberem ler, por isso venderam tudo que tinham para educar os filhos.

Zhang Lan pegou a carta e leu em voz alta: — Pai, mãe, estou bem em Jiangjing, não se preocupem. Tenho mais uma boa notícia: meus textos do semestre passado foram escolhidos por uma revista de Modu, e me pagaram novecentos yuan de honorários! Uau!

Zhang Lan pulava de alegria, vestindo roupas remendadas e sapatos de pano furados, mas nada diminuía sua felicidade.

Ela rapidamente abriu o envelope e, de fato, tirou uma ordem de pagamento de dentro. Depois de conferir, disse alto para Zhang Guozhong e Sun Yuehe: — É mesmo novecentos! Pai, mãe, isso é maravilhoso!

Zhang Lan não sabia o que era chorar de alegria, mas ao final, sua voz já estava embargada.

A mensalidade podia ser adiada até o inverno, só pagaria quando saísse o empréstimo.

Mas, nesse caso, teria de suportar a cobrança constante da escola, o olhar de reprovação dos professores, o desprezo dos colegas...

Mas filhos de famílias pobres acabam por amadurecer cedo. Zhang Lan entregou logo a ordem de pagamento para Sun Yuehe e continuou lendo: — Este é o primeiro pagamento. A revista disse que mês que vem haverá outro, provavelmente mais de novecentos, talvez mil ou dois mil. Aqui está suficiente, vocês não precisam se apressar para pagar as dívidas, cuidem primeiro da saúde, vão ao hospital do condado. A mensalidade de Zhang Lan não pode esperar, e ela é menina, precisa de roupas novas. Quando estava em casa, vi que ela usava as roupas da mãe, não servem. E os sapatos...

— Tem certeza que foi teu irmão que escreveu? Não está inventando isso? — Sun Yuehe desconfiou.

Zhang Lan, indignada, levou a carta até Sun Yuehe: — Veja, mãe, confira você mesma, não li nada a mais!

Sun Yuehe viu os olhos vermelhos da filha e sorriu: — Não duvido! — Depois de hesitar, assentiu: — Certo, faremos como teu irmão diz. Primeiro levamos teu pai ao hospital, trocamos os remédios. O que sobrar, compramos roupas e sapatos para você. Da última vez disseram que era pra você, mas aquele maldito nos enganou.

No mês passado, ao ver as roupas de Zhang Lan em estado lamentável e os sapatos rasgados, e com a escola prestes a ter uma competição esportiva, Sun Yuehe levou dois galos com Zhang Lan ao mercado para vender. Depois, não conseguiram comprar nada melhor, mas o mais barato deveriam conseguir.

Os galos valiam quarenta, mas ninguém queria, achavam caro.

Finalmente apareceu uma mulher elegante, que saiu de um Santana, não pechinchou, deu cinquenta, e Sun Yuehe gastou tudo o que tinha para dar o troco.

Depois que a mulher levou os galos embora, Sun Yuehe e Zhang Lan foram comprar sapatos, mas ao apresentar o dinheiro, disseram que era falso.

As duas ficaram assustadas, trocaram de loja, mas disseram o mesmo.

Zhang Lan nunca esqueceu aquela tarde: de repente choveu forte, e sua mãe chorava no mercado.

Foi a primeira vez que ela compreendeu plenamente a maldade humana.

Mas o povo do campo é forte, e sobreviveram...

Agora, enfim, a tempestade passou!

Ela só desejava que seu irmão fosse cada vez mais capaz, que mandasse mais dinheiro...

— Não é bom... Ele está no último ano do ensino médio. Ouvi dizer que esse é o mais difícil. Talvez mês que vem ele não deva mandar dinheiro, ou mande menos, ele também precisa cuidar de si, não pode só comer picles salgados... — Zhang Lan disse a Zhang Guozhong e Sun Yuehe.

Desde que adoeceu dos rins, Zhang Guozhong quase não falava. Se não fosse o medo de que sua morte desmoronasse a família, já teria seguido o velho da família Gui do outro lado da vila e se enforcado na árvore.

Ao ouvir Zhang Lan, Zhang Guozhong finalmente falou: — Escreva para teu irmão assim. Diga que estamos bem, que não precisa se preocupar, que estude e conquiste seu lugar.

...

— O que Qi Juan falou com você hoje? — Após o jantar, de volta ao dormitório, Zhang Qing foi cercado pelos sete colegas de quarto, que o interrogaram.

Zhang Qing sorriu: — O que poderia ser?

O terceiro, Li Qiang, piscou: — Sétimo, você esconde bem! Qi Juan, a representante da turma, é a musa absoluta do nosso colégio de Jiangjing. Apesar de ser simpática, nunca vi ela tão próxima de nenhum rapaz, cochichando.

O quinto, Qiu Lin, alertou: — Todo mundo está comentando. Sétimo, cuidado. Quem gosta de Qi Juan aqui não são poucos, o grêmio estudantil não é fácil de enfrentar.

Zhang Qing respondeu resignado: — Ela só viu que eu gosto de música e sugeriu que eu estudasse música. Vocês conhecem o jeito dela, não?

Os colegas riram. O primeiro, Liu Long, disse: — É verdade, ela é gentil com todos, especialmente com quem tem dificuldades. É muito generosa...

Zhang Qing deu de ombros: — Eu disse que se nossa plantação de trigo tiver boas colheitas por alguns anos, talvez consiga pagar uma grande aula de música, aí Qi Juan ficou sem argumentos.

Todos riram, dizendo que Zhang Qing era só um sapo querendo voar alto.

Zhang Qing sorriu de si mesmo, colocou tinta e um maço de papel de carta na mochila e saiu.

Os colegas não eram ruins; Zhang Qing só comprava arroz no refeitório, acompanhando com picles caseiro.

Quase todos os dias, os colegas dividiam a comida com ele, e se recusasse, era como desprezá-los.

Mas, entre adolescentes, as emoções são irracionais.

Qi Juan, aquela deusa, só podia ser admirada de longe, nada mais, nem por Zhang Qing.

Ele entendia bem isso, por isso dizia coisas para tranquilizá-los, e, ao espalhar, diminuía muito a confusão.

Ele não tinha tempo para se envolver nesses rumores.

...