Capítulo Oitenta e Quatro: Sonhar é Bom
6 de junho de 1996.
Hoje, as aulas para o terceiro ano do ensino médio terminaram; depois de receber o cartão de admissão, todos podiam voltar para casa e se preparar para a prova do dia seguinte.
O mês de junho em Jiangjing era tão quente que fazia qualquer um duvidar do sentido da vida.
Debaixo de guarda-sóis e chapéus, assim que saíram da escola, Zhang Qing, Qi Juan e Liu Shanshan correram para o Café Balenciaga ali perto, fugindo do sol escaldante.
Embora o café tivesse ar-condicionado, a maioria dos estudantes do ensino médio não costumava entrar, pois o bolso apertado lhes impunha timidez natural.
Afinal, Jiangjing não era a metrópole mágica.
— Vocês dois podiam se controlar? — reclamou Liu Shanshan, quase explodindo ao ver os dois de mãos dadas.
Desde o dia em que Zhang Qing escrevera aquelas duas linhas, Qi Juan parecia ter deixado de lado qualquer reserva; sempre que os professores não estavam por perto, ela tomava a mão de Zhang Qing sem hesitar.
Não ligava para a opinião dos outros.
No começo, Zhang Qing se sentia envergonhado, corava com frequência, mas ao perceber que Qi Juan era sempre espontânea, acabou por se entregar ao encanto da juventude.
Só que, enquanto eles desfrutavam do romance, Liu Shanshan quase enlouquecia: — Por acaso acham que não consigo arranjar um namorado?
Qi Juan a aconselhou: — Tenha calma, não procure só por procurar.
Liu Shanshan, rindo de raiva, respondeu: — É fácil falar! Vocês dois ficam se exibindo e eu tenho que ficar só olhando?
Qi Juan caiu na gargalhada: — Não tenha inveja. Depois do vestibular podemos dar uma volta pela Metrópole Mágica. Ele vai para Pequim, só nos veremos de novo em dois ou três meses.
Liu Shanshan se calou, mas Zhang Qing disse: — Quando eu voltar de Hong Kong, vou te visitar.
— Está combinado! — Qi Juan respondeu imediatamente, como se temesse que Zhang Qing mudasse de ideia.
— ... — Liu Shanshan resmungou, sem força, e olhou para o cartão de admissão nas mãos, onde estava escrito o cronograma das provas:
7 de junho (domingo), das 9h às 11h30, Língua Chinesa; das 15h às 17h, Química (Política).
8 de junho (segunda), das 9h às 11h30, Matemática; das 15h às 17h, Língua Estrangeira.
9 de junho (terça), das 9h às 11h30, Física (História).
Após reler várias vezes, suspirou: — Quando terminar Química, já vou estar mal; Matemática me deixará pela metade, Física vai acabar comigo de vez. Juan, Zhang Qing vai para Pequim dia doze, quando a gente viaja?
Qi Juan sorriu: — Também dia doze, mas vamos de trem. Mesmo sendo leito, não é como o avião dele.
Liu Shanshan, curiosa: — Zhang Qing, por que você não vai de trem? É muito mais barato.
Zhang Qing sorriu, sem saber como explicar.
Agora sentia certo receio de andar de trem, temia acordar e, ao abrir os olhos, se ver de volta naquele vagão verde...
Qi Juan percebeu seu constrangimento e respondeu por ele: — O Qing sempre foi econômico, minha mãe vive elogiando. Mas, às vezes, para ganhar tempo, não faz mal ser um pouco extravagante, certo?
Zhang Qing sorriu: — Estou com pressa, quero te ver logo.
Qi Juan abriu um largo sorriso, enquanto Liu Shanshan, desesperada, olhou para o céu e lamentou: — Por que vocês não vão morrer logo?!
Zhang Qing, então, falou sério: — Shanshan, nesses dias, peça para sua família te buscar e levar...
Liu Shanshan, ainda irritada, arregalou os olhos: — Por quê? Acham que vou atrapalhar o romance de vocês?
Qi Juan tentava acalmar a amiga, enquanto olhava curiosa para Zhang Qing.
Ele balançou a cabeça: — Lembra da Zhang Li? Aquela que mudou de escola.
Liu Shanshan bufou: — Lembraria mesmo que virasse cinzas! O que tem ela?
O semblante de Qi Juan também ficou sério. Zhang Qing explicou: — Alguém do nosso dormitório viu ela rondando a rua de trás da escola, acompanhada de dois sujeitos estranhos. Se sua família não puder ir, avise-me, eu e a Juan te levamos para casa.
Qi Juan zombou: — Com as notas dela, não deve nem ter passado no pré-vestibular. Em vez de pensar no tempo que perdeu, deve pôr a culpa toda em nós, como se tivéssemos arruinado a vida dela. Shanshan, não vacile. Cair numa dessas é pior que ser mordida por cachorro. — Pausou, depois balançou a cabeça: — Deixa que eu resolvo.
Como única herdeira da Indústrias Tianhong, os recursos à sua disposição eram imensos.
Liu Shanshan, ao ouvir isso, olhou orgulhosa para Zhang Qing e sacudiu a cabeça: — Não preciso de você!
Qi Juan, sorrindo maliciosa: — Se dependesse dele, aí sim eu mandaria alguém te dar um corretivo.
Liu Shanshan partiu para o ataque!
Zhang Qing observava as duas brincando e, ao experimentar o café, achou o gosto estranho; ainda não tinha se acostumado.
...
O tempo colaborou.
Na manhã seguinte, o céu amanheceu chuvoso, bem mais fresco que o normal.
Zhang Lan levantou às cinco, preparou ovos cozidos para o irmão, esquentou leite e ainda assou dois pães.
Filhos do noroeste, estavam acostumados a comer pão.
Preparou também escova de dente e toalha, antes de chamar Zhang Qing para acordar.
Enquanto o irmão comia, Zhang Lan revisava o cartão de admissão, lápis 2B, caneta, borracha e outros materiais, checando tudo várias vezes, até o guarda-chuva ela abriu para conferir.
— Toc, toc, toc! —
De repente, alguém bateu à porta. Os irmãos se entreolharam, surpresos, ainda estava escuro lá fora.
— Toc, toc, toc! —
A batida soou de novo. Incomodada, Zhang Lan perguntou: — Quem é?
— Eu! —
Uma voz feminina respondeu do lado de fora.
Surpresa, Zhang Lan olhou para Zhang Qing: — Irmão, é a Zhou Yanyan!
Zhang Qing assentiu, também surpreso, mas disse: — Vai abrir a porta.
Zhang Lan correu e abriu. Zhou Yanyan apareceu na entrada, vestida com capa de chuva e ainda pingando.
— Yanyan, o que te traz aqui? — perguntou, depois de deixá-la entrar.
O olhar de Zhou Yanyan pousou primeiro na mesa diante de Zhang Qing. Ao ver os pães, não conseguiu ocultar a decepção: — Já comeu...
Os olhos espertos de Zhang Lan logo se fixaram no volume que Zhou Yanyan carregava. Sorrindo, perguntou: — O que você trouxe aí?
Zhou Yanyan corou, virou-se e tirou do casaco uma sacola plástica com alguns pães, dois ovos e um pouco de acompanhamento.
Zhang Lan exclamou, contente: — Como adivinhou que eu ainda não tinha comido?
Zhou Yanyan sabia que a menina estava apenas brincando, mas não ficou por menos: — Isso é para o seu irmão, não para você! — Mas, vendo que Zhang Qing já terminava o café da manhã, acabou cedendo, desanimada: — Deixa, pode comer.
Com um sorriso malicioso, Zhang Lan cochichou: — Será que a Juan sabe que você veio? Não vá dar problema para o meu irmão...
Zhou Yanyan retrucou, sem paciência: — Você acha que sou boba ou má? Avisei a Juan e até os pais dela. Vim de boa, só queria ajudar seu irmão, agradecer, não estou fazendo nada de errado!
Conversando, o sotaque do interior escapou...
Zhang Lan, afiada: — Pelo jeito que você fala, dá para ver que não estudou muito, é horrível de ouvir!
Zhou Yanyan revidou: — E os citadinos falam tão bonito assim? Só sabem repetir "caramba"!
Zhang Lan riu alto, e Zhang Qing levantou-se, sorrindo: — Obrigado. Mesmo não tendo comido, agradeço o gesto. Mas amanhã não precisa trazer nada, estude bastante, logo vamos para Pequim. A empresa já foi aberta, estão faltando cantores, a irmã Zhao está procurando nos quatro maiores conservatórios, não está fácil.
Zhou Yanyan, corajosa, disse: — Eu posso cantar! Se você confiar, prometo que não vou te decepcionar!
Zhang Qing sorriu: — Com essa determinação, você vai longe. Mas diga, quanto entendeu dos livros de teoria musical?
Ao ouvir isso, o ânimo de Zhou Yanyan murchou: — Nem metade... Mas ouvi dizer que para cantar nem precisa estudar isso...
Zhang Qing balançou a cabeça: — Minha empresa não será como as grandes, que contratam muitos artistas só para lucrar. Só quero dez pessoas, mas esses dez serão os melhores. Prefiro qualidade a quantidade. Você acha que só ter uma boa voz basta para ser a melhor cantora?
Zhang Lan também incentivou: — Tem que ser a melhor! Imagine quando você for uma estrela, vai ser famosa até o céu! Ainda vai invejar meu voo de avião?
Ao ouvir aquelas confidências, Zhou Yanyan lançou um olhar de canto para Zhang Lan, depois olhou para Zhang Qing, viu que ele sorria, com um olhar calmo, e, sem saber por quê, sentiu um certo temor. Resignada, disse: — Tá bom, vou continuar estudando.
Zhang Lan retrucou: — Não seja ingrata, sabe quantas meninas vão te invejar no futuro?
Zhou Yanyan, sem paciência: — Eu sei!
Zhang Lan, sorridente: — Só saber não basta, quando você ficar famosa, não fuja, não deixe meu irmão ter trabalhado à toa.
— Zhang Lan! — Zhang Qing a repreendeu para não dizer besteira.
Zhou Yanyan, com o rosto tão bonito que calava qualquer um, declarou: — Juro! Se eu for ingrata, ganhar dinheiro e fugir, que eu seja criada como bicho! Se for para morrer, que seja na sua casa, tá bom?
Dito isso, virou-se e saiu!
Zhang Qing não se apressou em detê-la; quando se virou para chamar a atenção de Zhang Lan, viu a irmã correndo até a porta, arrependida: — Que besteira, fui enganada! Morrer na nossa casa? Nem pensar!
...
P.S.: O vestibular de 1996 foi em julho, mas mudei para junho. Além disso, as marcações do livro já ultrapassaram trinta mil, o melhor resultado de um livro novo que já escrevi. Agradeço de coração pelo apoio dos leitores.
Sei que ainda tenho muito a amadurecer, por isso nunca pedi votos ou favoritos, por vergonha. Escrever com sinceridade e escrever bem são coisas diferentes.
Continuarei aprendendo, buscando sempre progredir, sem esquecer o propósito inicial.