Capítulo Quarenta e Cinco: Reviravolta
Os dias do Ano Novo sempre passam velozmente, envoltos em alegria e barulho. Zhang Qing acompanhava os pais, visitando um a um os parentes mais próximos para desejar-lhes felicidades. Depois de terminarem as visitas na Vila Oitenta e Um, no quinto dia, finalmente acordaram o embriagado Fusheng, que, de trator, os conduziu de volta à Vila Libertação.
— Vovó Mao, feliz Ano Novo!
— Qing, você está progredindo, hein!
Na casa ao lado da antiga residência da família Zhang, Zhang Qing, carregando uma caixa de leite e outra de mingau de oito tesouros, ia com os pais visitar a velha senhora para lhe desejar o Ano Novo. Nos anos em que a família Zhang mal tinha o que comer, aquela senhora de cabelos prateados e temperamento explosivo, sempre disposta a xingar alto, nunca hesitou em ajudar: emprestava alguns trocados ou dava uma tigela de carne de galinha ou de macarrão.
Depois de acomodar Zhang Guozhong e Sun Yuehe, vovó Mao serviu chá e, em meio aos protestos, puxou Zhang Qing para saber mais:
— Você está rico de repente? Como conseguiu tanto dinheiro de uma vez?
Zhang Qing sorriu, balançando a cabeça:
— Não é bem riqueza. Escrevi um livro de histórias e ganhei um pouco. Comprei uma casa, depois emprestei dinheiro ao tio para comprar um carro, não sobrou muito, mas posso continuar trabalhando.
Vovó Mao não gostou:
— Está chorando miséria? Tem medo que eu peça dinheiro emprestado a você?
Zhang Qing riu:
— Não importa quando, se a senhora precisar, estarei pronto. Se eu não estiver em Xinjiang, meus pais virão trazer.
Só então vovó Mao ficou satisfeita, batendo na mão de Zhang Qing:
— Com esse coração, fico muito feliz. Eu sabia que você não seria um arrogante por ter conseguido algum sucesso. No dia vinte e oito do mês passado, ouvi sua tia falar de vocês na clínica. Na frente de todo mundo, dei uma bronca nela. São sempre os tios que estendem a mão para vocês. Se não fosse para casar os dois irmãos azarados, como vocês teriam caído tanto na pobreza?
Ela olhou severamente para Zhang Guozhong:
— Guozhong, todo mundo inveja seu filho, mas eu não. Para mim, sua maior sorte foi casar com uma boa esposa. Yuehe passou anos com você, mal teve o que comer ou vestir, ainda teve que ajudar com os irmãos, como se fosse mãe deles. Você foi bom com seus irmãos, mas falhou com sua esposa e filhos. Se fizer outra besteira, vou ao escritório da vila te xingar na porta. Não tem capacidade, mas quer ser pai e mãe para sempre dos outros?
Zhang Guozhong ficou vermelho de vergonha, desejando sumir, e respondeu com dificuldade:
— Tia, fique tranquila, não vou cometer mais erros.
Vovó Mao então se voltou para Sun Yuehe, que enxugava lágrimas:
— Você também não tem ambição, só gostou do Guozhong por ser bonito?
Não era mentira. Zhang Qing e Zhang Lan herdaram a boa aparência de Guozhong. Se não fosse por isso, Sun Yuehe não teria insistido, e a família Sun não teria permitido que ela casasse com um pobre assim.
Depois de dar bronca nos dois, vovó Mao sorriu:
— Pronto, finalmente vocês venceram. Depois de tanto sofrimento, agora podem aproveitar. Mas Qing, tenha parcimônia. Mal ganhou dinheiro, comprou casa para seus pais, mas por que ajudar o tio? Eles têm filhos, não precisam viver na casa do sobrinho.
Zhang Qing explicou as boas ações da família Sun ao longo dos anos, e vovó Mao sorriu:
— É verdade, eu falo demais, minha boca é afiada, só arranjo problemas, fico cuidando de tudo.
Os três Zhang riram. Depois de um tempo na casa da família Mao, quando iam partir para outra visita, alguém apareceu à porta.
— Zhang Qing, lembra de mim?
Uma moça tão bonita que era difícil acreditar ser do campo, cheia de determinação, olhava para Zhang Qing.
Vovó Mao reconheceu:
— Não é a filha do Porco Zhou?
Zhang Guozhong e Sun Yuehe também reconheceram:
— Sua colega do primário... Como está bonita!
Era mesmo. Apesar das roupas simples e remendadas, tudo velho, o rosto dela parecia irradiar luz, tão branco que não lembrava uma camponesa.
Zhang Qing assentiu:
— Zhou Yanyan, feliz Ano Novo.
Yanyan apertou os lábios, fitando Zhang Qing:
— Meu Ano Novo não é feliz. Meu pai quer me casar com o Fendido. Você sabe quem é?
Zhang Qing se espantou e assentiu:
— O... vendedor de gado?
Era mesmo. Um sujeito de caráter duro, com má formação na boca, metade fendida, mas habilidoso em dinheiro, dos mais ricos da vila.
Yanyan continuou:
— A esposa dele morreu, ele me quer, deu dez mil de dote ao meu pai.
Zhang Qing ficou em silêncio por um instante:
— Zhou Yanyan, você veio me procurar por isso... O que posso fazer? Se não quer, pode chamar a polícia.
No rosto belo de Yanyan surgiu uma expressão triste:
— Polícia? Eles não se importam. Mao Sansan comprou esposa, todo mundo sabe, mas adiantou? Zhang Qing, ouvi dizer que agora você tem poder, ganha dinheiro. Quero ir embora com você para sua cidade. Não posso casar com o Fendido, prefiro morrer.
Zhang Qing balançou a cabeça:
— Eu não posso...
Nem terminou, quando vovó Mao já estava xingando:
— Qing, cadê sua coragem? Não vai ajudar numa situação dessas? Pode ganhar uma montanha de ouro, mas eu ainda te desprezarei!
Zhang Qing sorriu amargamente, sabendo que a velha era mais do que palavras.
Quando pequeno, presenciou, numa festa, homens ruins bêbados tentando arrastar uma jovem. Havia muita gente, mas ninguém intervém. Só vovó Mao, tremendo de raiva, acolheu a moça em casa. Chorou e xingou não só os malfeitores, mas os homens da vila, chamando-os de covardes. Começou a nomear um por um, despertando a coragem dos homens, que acabaram por prender os canalhas. Era época de repressão, nenhum deles sobreviveu.
Zhang Qing olhou para vovó Mao:
— Vovó, não se apresse, me deixe terminar.
Sun Yuehe também a acalmou:
— Veja o que Qing vai dizer.
Zhang Guozhong, preocupado:
— Fendido é perigoso, pode causar problemas.
Sun Yuehe zombou:
— Que tente arranjar confusão na Vila Oitenta e Um! Tenho quatro irmãos, quatro sobrinhos, parentes por toda vila, acabamos com ele!
Ela só tinha olhos para Yanyan, nada mais importava. Sun Yuehe nunca foi instruída, mas pensou num provérbio: "Beleza traz desgraça".
A moça era realmente, demasiado bela! Não era uma beleza vulgar, mas de uma injustiça divina. Qijuan era bonita pelos olhos, fazia todos gostarem dela. Mas Yanyan, tudo nela era sem explicação, uma beleza que não se podia negar.
Essa moça, merece meu filho!
Era o pensamento de Sun Yuehe. Quanto ao Fendido... A família Sun podia e devia enfrentá-lo!
— Zhang Qing, meu pai bebeu, eu pulei a janela e fugi. Se não pode me ajudar, vou morrer na tumba da minha mãe. Já preparei veneno…
Yanyan olhava fixamente para Zhang Qing, esperando resposta.
— Não se preocupe, não é um problema enorme. Aqui há lei, um Fendido da vila não pode mandar em tudo.
Zhang Qing sorriu e falou com suavidade.
Ao ouvir isso e olhar o rosto de Zhang Qing, Yanyan relaxou e chorou:
— Fala fácil, ele é tão rico, todos os maus da vila são amigos dele, vivem comendo e bebendo lá. Ninguém o enfrenta. Ao comprar gado, briga, cortou tendão de alguém, ficou preso poucos dias e voltou. Meu pai quer agradá-lo, me casar à força. O que posso fazer?
Zhang Qing pensou um pouco:
— Vou te dar um endereço, e algum dinheiro para a viagem. Você tem coragem de ir sozinha para Jiangjing? Vou ligar para alguém, quando chegar, haverá uma pessoa te esperando com uma placa.
— Não tenho medo de morrer, vou sem medo! Se tiver para onde ir, eu vou!
Yanyan respondeu rapidamente.
Zhang Qing pediu caneta e papel à vovó Mao, anotou o endereço de sua casa alugada em Jiangjing, deixou uma chave no bar, escreveu um número de telefone:
— Se ninguém te esperar na estação, ligue para este número. Não vai ter problemas. Daqui a pouco, cubra o cabelo com um lenço, cabeça baixa, saia da vila. No Ano Novo, há ônibus para a cidade. Chegando à cidade, vá direto ao terminal, compre passagem para a capital. Chegando lá, pegue um táxi até a estação de trem. Compre passagem, ligue para este número, informe o horário de chegada, vou mandar alguém te buscar. Entendeu?
Yanyan só chorava, assentindo.
Zhang Qing tirou a carteira do bolso, pegou um maço de dinheiro, três notas de cem e várias trocadas, entregou a Yanyan e ainda advertiu:
— Separe o dinheiro, não mostre. Não converse muito, exceto com funcionários públicos, não confie em ninguém, homem ou mulher, tráfico de pessoas é frequente. Na viagem, alguém pode tentar te enganar. Não aceite comida ou bebida de estranhos, não tenha medo de gastar, coma no restaurante do trem, entendeu?
Yanyan assentiu. Zhang Qing entregou dinheiro e endereço:
— O que posso fazer é pouco, no fim depende de você. Filhos de família pobre só têm a si mesmos. Vá.
Depois de pegar um lenço velho da vovó Mao para cobrir o rosto, Yanyan saiu.
Depois dela, Zhang Qing olhou para vovó Mao, que sorria:
— Vovó, você vai ter trabalho.
— Que trabalho?
— Agora vá atrás de Yanyan, veja ela embarcar. Depois, vá à loja da vila e espalhe: meu livro vai virar novela de TV, comprado pela emissora de Portocidade, presente para o retorno de Portocidade ao país. Minhas músicas vão ao Festival da Primavera. Conheci muitos líderes importantes, tenho mais talento que o céu.
Embora Sun Yuehe estivesse pronta para enfrentar o Fendido com a família, Zhang Qing achou desnecessário. Não queria deixar o problema para os pais, por isso não partiu.
Um sujeito capaz de competir cortando tendão de rivais é difícil de combater. A família Sun talvez não conseguisse. Mas esse tipo não é um criminoso desesperado. O rival também não é boa pessoa, brigam entre si, a polícia só multa e deixa rolar.
Zhang Qing é diferente. Se mexerem com ele, o Fendido não sai tão fácil. Se for preso, perderá a fortuna. Sendo esperto, ele sabe disso.
Se fosse um jovem, Zhang Qing teria mandado os pais embora antes.
Assim, depois que Yanyan partiu, a família Zhang continuou tranquilamente, visitando outro vizinho para desejar o Ano Novo.
Não só vovó Mao percebeu que Zhang Qing era diferente, até Zhang Guozhong e Sun Yuehe sentiram que o filho tinha uma postura de grande líder. Qualquer outro teria fugido...
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