Capítulo Quinze: Volte Agora!
Por causa de uma coisa tão pequena, eles começaram a brigar: "Cem reais, deu, pronto, não foi? Meu pai não explicou já?"
"Explicou nada! Por uma besteira dessas, eu nem precisava ficar brava, mas pergunta pra ele mesmo, é só isso?" Minha mãe lançou um olhar de desprezo para o meu pai: "Depois que teu pai deu cem reais para aquele mendigo, ele agradeceu, aí disse que sabia ler o destino das pessoas. Cobrou só mil reais por uma leitura. Garantiu que era certeiro."
"E o teu pai realmente foi até o caixa eletrônico, tirou mil reais e deu pro homem, acredita? Deu mesmo!" Minha mãe já estava furiosa nessa altura: "Eu tentei impedir, ele me xingou no meio da rua. Você já viu coisa dessas?"
"Sério?" Eu ouvi aquilo e não sabia se ria ou chorava. Dar mil reais para um pedinte em troca de uma leitura de sorte?...
"E não acabou aí!" Eu ia falar alguma coisa, mas minha mãe me interrompeu, gritando: "Depois de ler o destino do teu pai, o mendigo disse que esse ano o filho dele, no caso você, ia passar por um grande perigo, de vida ou morte. Aí deu um amuleto pra ele e pediu cinco mil reais pra entregar o tal amuleto. E o teu pai, adivinha? Deu os cinco mil."
"O quê?" Dessa vez nem eu consegui me controlar. Aquele mendigo só podia estar louco. Ainda diz que eu vou me meter em encrenca? Que perigo eu poderia correr? É golpe, claro!
"Tá aqui o amuleto, leva contigo, filho. Teu pai gastou mais de seis mil reais nisso." O tom de minha mãe era puro sarcasmo. Ela tirou o amuleto do bolso e jogou na minha frente. Peguei na hora, olhei de cima a baixo.
O amuleto tinha o tamanho da palma da mão, costurado com pano vermelho, um cheiro suave, e uns desenhos estranhos. Mas não passava daquelas bugigangas que custam dois reais nas feiras.
"Pai..." Falei num tom de lamento. A gente não é rico, seis mil reais é praticamente um mês de salário dos meus pais. Perderam tudo assim, no golpe...
"Mãe, vamos chamar a polícia." Eu já não sabia mais o que fazer, segurando aquele "amuleto", entre incrédulo e irritado.
"Que polícia, nada disso!" Mal terminei de falar, meu pai explodiu: "O homem leu o destino direitinho! Por que você diz que ele é charlatão?!"
Suspirei fundo. Pronto, meu pai tinha sido lavado o cérebro. Esse negócio de ler o futuro é só jogada psicológica, nunca acerta. Se acertasse, por que o tal homem não mudava a própria sorte ao invés de pedir esmola?
"Pai, o que foi que ele disse para você achar que é tão certeiro assim?" Perguntei, sem paciência.
"Ele disse que eu tinha só um filho, nem rico nem pobre. E acertou até o salário meu e da tua mãe." Meu pai se justificou: "Falou até quanto eu ganhei no mês passado, contando com o bônus. Três mil, duzentos e dezesseis. Até os centavos. Como pode saber disso? Ele sabe mesmo das coisas!"
"Acertou assim?" Ao ouvir aquilo, eu fiquei intrigado. Como um mendigo saberia do salário dos meus pais? Tinha seguido eles antes? Não acredito em leitura de sorte nenhuma.
"Sim, foi exato. Disse que meu salário com o bônus deu três mil, duzentos e dezesseis. Nem um centavo a mais ou menos. Como explicar isso? Ele é bom mesmo!" Meu pai, vendo meu espanto, reforçou.
Passei a mão pela testa, olhei para minha mãe: "Chega, pai, mãe, parem de brigar. Perdemos seis mil, paciência, considera um preço para evitar uma desgraça." Sacudi a mão, calcei os sapatos, abri a porta: "Vão trabalhar, vou pra escola."
Saí de casa, fechando a porta atrás de mim. Eu conhecia bem meus pais, sabia que eles nunca se separariam. Brigam a vida toda, mas é o jeito deles.
Só achei um desperdício gastar tanto dinheiro nisso. Peguei o amuleto, dei uma risada amarga. Não vai dar em separação, mas minha mãe e meu pai ainda vão discutir uns dias por causa disso.
Guardei o amuleto no bolso. Olhei o relógio e me apavorei!
Droga, já eram sete e meia! Geralmente, às sete eu tinha que estar na escola. Hoje estava atrasado e aquela tal de Zhao Qian ia reclamar. Com isso em mente, corri para o térreo, peguei um táxi e fui direto para a escola. No caminho, Hao Long e Zhao Xue me ligaram, cada um perguntando por que eu ainda não tinha chegado. Respondi que estava quase lá.
Hao Long, do outro lado da linha, abaixou a voz: "Corre, Zhao Qian está te xingando na sala, e quando você chegar, ela não vai te deixar barato."
Droga! Que raiva! Só porque me atrasei hoje, ela vai descontar em mim? Quero ver até onde ela vai!
Meu rosto se fechou, segurei o celular com força e abri o vídeo. Ali estavam guardados os segredos de Zhao Qian. Será que ela percebeu que o diário sumiu? Sorri friamente. Menos de dez minutos depois, já estava na porta da escola. Desci correndo e entrei no prédio. Naquele horário, todos estavam na aula de reforço matinal, o prédio estava em silêncio total. Fui até a porta da minha sala e, pela janela, olhei para dentro. O que vi me fez franzir a testa.
Zhao Qian estava sentada na mesa, olhando friamente para a turma. Nenhum aluno ousava encará-la. Com expressão impassível, ela transmitia um ar ameaçador, como se fosse explodir a qualquer momento.
Respirei fundo. Para falar a verdade, não senti medo, pelo contrário, fitei Zhao Qian com firmeza.
Ela usava uma calça jeans clara, suéter branco, sentada com a perna esquerda cruzada sobre a direita, o corpo perfeitamente desenhado. O rosto, frio e belo, me fez sorrir internamente. Caminhei até a porta da sala e bati.
"Entre." Assim que ouvi sua voz gelada, abri a porta e fiquei na entrada.
No mesmo instante, todos os olhares se voltaram para mim! Havia pena e malícia nos olhares dos colegas. Principalmente Wang Qiang, que ria sem conseguir fechar a boca. Todos sabiam que Zhao Qian estava furiosa.
De fato, naquele momento, Zhao Qian levantou-se e veio direto em minha direção!
Ao se levantar, seu corpo atraente ficou ainda mais evidente. Eu, distraído, nem reparei na raiva estampada em seu rosto; antes que pudesse reagir, ela me deu um tapa na cara!
O estalo ecoou e uma dor ardida percorreu meu rosto. Por um instante, a sala ficou em silêncio total, como se o tempo tivesse parado.
"Atrasado? De novo? Não sabe pedir licença? Olhe para os outros sessenta alunos, vê se alguém se atrasa como você!" Ela quase gritava, tão pálida de raiva que parecia doente.
Fiquei atordoado. Sabia que Zhao Qian às vezes batia nos alunos, mas não pensei que faria isso na frente de toda a turma. Meu corpo recuou, paralisado, e encarei Zhao Qian.
"O que está olhando? Ficou mudo? Não sabe falar?" Ela não parou, agarrou minha gola e me puxou para o centro da sala: "Fale, diante de todos, por que você sempre se atrasa? O que você pensa que é?"
A voz de Zhao Qian machucava meus ouvidos. Eu, parado, vermelho de vergonha, não pelo tapa, mas porque toda a turma estava olhando. Onde ficava meu orgulho?
A raiva crescia dentro de mim, descontrolada. Minha mente ficou vazia e, num tom frio, respondi: "Não sou nada. Sou só um aluno comum. Me atrasei, qual o problema? Quando outros se atrasam, você não faz isso!"
Respirei fundo, tentando controlar minhas emoções, virei as costas e saí.
"Professora, preciso falar com você." Saí da sala e parei no corredor.
"Quem você pensa que é para falar comigo? Volte aqui agora!" Zhao Qian gritou, cheia de raiva, apontando para mim.