Capítulo Vinte e Três: Que Mistério!
... Fiquei olhando para aquele idoso, atônito. Medo, sim, era medo o que eu sentia no coração. Impossível! Mesmo que fosse uma técnica de disfarce, até o tom de voz dele agora era diferente do de antes, muito mais vigoroso.
— Sua voz... — olhei para o idoso, gaguejando.
— A voz sou eu que controlo. É tudo técnica. Não é algo que você conseguiria aprender. — Ele fez um gesto de desprezo e apontou para a casa de pastéis do outro lado da rua, sorrindo de repente: — Haha, chega, vamos logo comer pastéis! — Sem se preocupar comigo, seguiu direto para o restaurante. Eu fui atrás dele.
Observei suas costas, com a testa franzida. Esse homem era misterioso demais. Quem seria ele afinal?
Respirei fundo. Sem perceber, já estávamos dentro da casa de pastéis. Assim que entramos, a garçonete ficou furiosa, apontando para o idoso e gritando: — Sai, sai, mendigo, vai pra fora!
— Viemos comer — ouvi o empregado falando assim e franzi o cenho, tirando do bolso quinhentos reais, dinheiro que peguei com Hao Long. Nesta altura, economizar não era mais prioridade: — Temos dinheiro.
Eu sabia que mostrar quinhentos reais e dizer que sou rico era meio idiota, mas se não fizesse isso, a garçonete realmente não nos deixaria entrar.
De fato, ao ver o dinheiro, o rosto dela mudou na hora. Fiz um gesto: — Tem sala reservada?
— Tem sim, por favor, os dois podem subir. — Ela nos levou ao segundo andar e abriu uma pequena sala privativa. Mas, na hora de pedir, o idoso pediu logo dez pratos de pastéis. Maldição, meu coração sangrava!
— Você consegue comer tudo isso? — Depois que a garçonete saiu, falei para o idoso. Comer pastéis e gastar mais de duzentos reais... sem comentários.
— Consigo! — Ele riu alto. Eu, sem saber o que dizer, insisti: — Você podia ao menos me dizer como soube que eu e minha professora somos próximos.
— Calma, depois de comer — ele respondeu, impaciente. Meu Deus, estava prestes a enlouquecer. Olhei para o celular: já tinha faltado uma aula. Embora Zhao Qian fosse compreensiva, se eu desse azar e o diretor ou o reitor fizessem uma inspeção, estaria perdido.
Cada minuto parecia uma eternidade. Finalmente, a garçonete trouxe os dez pratos de pastéis. Antes mesmo de eu comer, o idoso pegou um prato e começou a devorar, pastéis após pastéis, como se fosse uma máquina.
Meu Deus, aquilo era assustador! Quanto tempo ele não comia?...
Olhei com os olhos arregalados, nem ousando pegar os talheres. Se ele não ficasse satisfeito e pedisse mais, eu não teria dinheiro. Olhava fixamente para ele, e no fim, estava completamente atônito, totalmente paralisado.
Dez pratos de pastéis, cada um com doze ou treze. Ele comeu mais de cem! Se eu não tivesse visto com meus próprios olhos, jamais acreditaria. Era só um idoso, mais de sessenta anos, devorando mais de cem pastéis...
Engoli em seco, encarando-o. Ele nem reparou na minha expressão, tomou um gole d'água e estalou os lábios: — Estou cheio...
Meu Deus! Olhei para os dez pratos vazios sobre a mesa, lamentando internamente. Que estômago é esse, capaz de aguentar tanto...
Murmurei, sem tempo para enrolar: — Agora pode me contar, certo?
— Claro, meu nome é Long Yuanzi — disse o idoso.
— Quem perguntou seu nome...? — Eu quase enlouquecia com ele, impaciente. Long Yuanzi? Que nome esquisito, parece nome de estrangeiro.
— Veja só, rapaz, por que tanta pressa? — Long Yuanzi tomou mais um gole d’água e olhou para mim: — Não importa, te contarei. Eu calculei. Sou adivinho, entende?
— Ora, me poupe! — Respondi mal-humorado. — Adivinho? Está brincando comigo?
— Pois é, eu calculei mesmo. Quando seu pai estava aqui, nem quis comentar. Também calculei que você chantageou sua professora com um segredo, obrigando-a a... tsc tsc, com minha idade, até fico envergonhado de dizer. — Ele fez uma careta, sorrindo para mim.
Fiquei chocado! Com aquelas palavras, fiquei parado, sem reação por um bom tempo!
Quem era esse Long Yuanzi afinal? Como sabia tão bem o que eu fiz?
— Quer aprender adivinhação? Se quiser, posso ensinar — ele riu, e só então despertei do choque, sacudindo a cabeça com força.
Aprender? Se eu dissesse que queria aprender, provavelmente ele pediria dinheiro. Agora já tinha quase certeza: Long Yuanzi era só um voyeur e um charlatão dos becos.
— Você está espionando minha família? — Pensei por um instante e disse, desta vez com um tom nada amigável.
— Espionar? Haha! — Mal terminei, ele riu alto. — Pra quê eu ia te espionar? Só se eu fosse doido!
— Então, como sabe de tudo isso? — Agora eu estava realmente irritado. Qualquer um ficaria, naquela situação. Bati na mesa com força, fazendo um estrondo!
Naquele momento, Long Yuanzi sorriu amargamente, balançando a cabeça: — Você ainda é jovem, muito impulsivo. Deixa pra lá, não preciso explicar tanto. Não comi pastéis de graça, tome isto. — Ele remexeu nos bolsos, tirando um papel de couro e jogando na minha frente.
— Temos destino, nos veremos de novo. Espero que até lá você entenda. Percorri muitos caminhos, e já fui chamado de charlatão milhares de vezes, mas depois de comer comigo, só você ainda me chama assim. Se tiver sorte, até logo. — Long Yuanzi fechou os olhos, uniu as mãos e fez um gesto de respeito para mim, antes de virar e ir embora.
Eu observei sua silhueta sem persegui-lo. De qualquer jeito, na minha impressão, Long Yuanzi só queria dinheiro. Certamente era um charlatão de rua!
Foi o que pensei, mas, por hábito, peguei o papel de couro que ele jogara diante de mim.
Segurei o papel de couro nas mãos e o abri devagar. Long Yuanzi tinha dobrado o papel com cuidado. Ao desdobrá-lo, franzi o cenho de repente.
O papel tinha meio metro de comprimento e largura. Nele, pinceladas de tinta formavam desenhos, com alguns textos. No topo, estavam escritas claramente três palavras: Técnica de Disfarce.
Técnica de Disfarce?! Tremi, lembrando do que acontecera antes: Long Yuanzi começou como uma velha, mas ao rasgar a membrana do rosto, virou um idoso.
Será que o papel de couro continha a técnica de disfarce dele? Meu coração pulsava forte, tomado por uma excitação súbita!
Guardei o papel de couro e saí do restaurante. Não fui para a escola, olhei o horário: eram cinco da tarde. Faltavam quatro horas para terminar as aulas. Decidi ir para casa primeiro, ver a técnica de disfarce.
Pensando nisso, apressei o passo para casa. Chegando, meus pais ainda discutiam, como sempre. Quando me viram, meu pai perguntou por que tinha voltado, e eu disse que pedi licença à professora. Ele não comentou.
Fui para meu quarto, ansioso, abri o papel de couro e comecei a examinar atentamente.
“Disfarce é mudança, aparência é rosto. A chamada técnica de disfarce é a arte de transformar o rosto de alguém. Diferente de outras técnicas, a minha é incomparável!” Meus olhos estavam arregalados, lendo cada ponto e vírgula com atenção. Só depois de ler essa primeira frase, sorri ironicamente. Incomparável? Que falta de modéstia...
Continuei lendo, sem pausa.
“Pegue uma chaleira de água quente, coloque numa bacia, junte um pouco de farinha. Deixe de molho por meia hora.”
Dei uma olhada rápida: essa técnica de disfarce se dividia em quatro etapas principais.