Capítulo Trinta e Nove – O Incômodo no Estômago
— Sinto que alguém está nos seguindo — disse Hélio, percebendo minha expressão e tornando-se subitamente sério, falando quase em sussurro.
— O quê?! — Naquele instante, todo o meu semblante ficou paralisado. Alguém nos seguindo? Inspirei fundo, o ar frio parecia atravessar minha espinha, e olhei ao redor. Mas não vi nada de estranho. Apesar de ser pleno dia, as palavras de Hélio fizeram um arrepio percorrer minhas costas.
— Não tem ninguém — murmurei, olhando para ele.
— Você não entende o que eu digo, idiota? Eu disse que sinto, sinto que alguém está nos seguindo, entendeu? — retrucou Hélio, impaciente. — Porque quando olhei para trás, vi algumas silhuetas bem longe de nós. Ou alguém está nos seguindo, ou tem algum eremita nesta montanha.
— Ah, qual é! Não me assuste. Se tem algum eremita aqui, é você! E de dia, que tipo de eremita aparece? Assistiu documentário demais, só pode. Alguém nos seguindo? Menos ainda! Quem perderia tempo com isso? — dei-lhe um tapa de leve, mas não consegui conter a curiosidade e me virei para olhar também.
— Não estou brincando, doido. Vi mesmo algumas pessoas, estavam longe, mas eram claramente pessoas, disso tenho certeza absoluta — Hélio afirmou, com uma convicção que não lhe era comum.
Ao ouvir isso, franzi o cenho. Conheço Hélio bem demais. Ele adora brincadeiras, mas é bastante confiável, e dessa vez percebi que falava sério. Ermitas na montanha? Eu não acreditaria nem sob ameaça. E, sinceramente, quem viria até aqui? Nem pagando eu costumo aparecer nesse fim de mundo! Será que de fato alguém está nos seguindo?
— Doido, pensa bem: de quem é aquela pousada onde vamos? — Hélio me encarou.
— De Vicente Águas Claras — respondi sem hesitar.
— E quem é Vicente Águas Claras? Pai do Wagner. E o que o Wagner pensa de nós? Ele queria que sumíssemos da escola! — Hélio sussurrou, ansioso. — Acho que foi o Wagner quem mandou alguém nos seguir.
— Isso... — calei, pensando rapidamente. Era verdade, tudo fazia sentido. Wagner sempre foi vingativo, não seria estranho se tivesse contratado alguém para nos vigiar, procurando confusão comigo!
Mas, para ser sincero, se Wagner quiser me arrumar confusão, não me importo, nem tenho medo. Mas temo que ele ataque Branca Neve! Naquela noite, ele mandou capangas para cercá-la, e se não fosse por Jandira ter levado aqueles amigos, não sei o que teria acontecido!
Maldito Wagner, se realmente mandou alguém nos seguir para nos atacar, posso garantir que não vou conseguir me controlar!
Senti o coração apertar, e antes que pudesse dizer algo, ouvimos um grito agudo vindo da frente do grupo!
— Aaah! — O grito foi tão forte que fez todo mundo estremecer.
— O que aconteceu?!
— O que houve?! — Muitos rapazes gritaram e correram para lá. O grito tinha vindo da responsável cultural da turma, uma garota encantadora chamada Luna Maio. Ela era uma das mais populares, embora todos dissessem que a mais bonita era Branca Neve. Mas, sinceramente, Luna também era muito bela.
Só que Luna não era igual a Branca Neve. Branca Neve era sensual, provocante. Já Luna podia ser definida apenas como adorável.
Rosto alvo, altura mediana, corpo normal, nem magra nem gorda, bochechas rosadas como uma maçã, despertando vontade de morder. Usava cabelo curto, na altura dos ombros, e era muito tímida, nunca teve um namorado.
A verdade é que sua beleza era pura, inocente. Ninguém conseguia associar algo malicioso a Luna, tamanha a sua candura. Nem mesmo suas pernas ou seu busto chamavam atenção, como se olhar para isso fosse profaná-la.
Por isso, Luna era muito querida na turma. E ao ouvir seu grito, vários rapazes correram para ajudá-la. Troquei um olhar com Hélio e também corri. E o que vi me fez estremecer, assim como a própria Luna e até Hélio!
Bem diante de Luna estava uma pequena cobra, não muito grande, mas com quase meio metro, totalmente verde, claramente venenosa. Ela agitava a cabeça e mostrava a língua, como quem provoca.
— Fiquem parados! — Hélio gritou, levantando devagar o garfo de churrasco, parando no ar, sem coragem de atacar.
Os rapazes se entreolhavam, todos criados na cidade, nunca tinham visto algo assim.
— Me dá isso aqui — disse, impaciente, pegando o garfo da mão de Hélio e, sem pensar, cravei na cobra!
— Ploc! — O golpe fez a cobra se encolher, a boca aberta em espasmo.
— Medo de quê, afinal? — resmunguei, lançando a cobra longe com um gesto. Apesar de sempre ter sido medroso, não sei por quê, desde o assalto de pouco atrás, sinto-me corajoso.
— O-obrigada... obrigada, João — murmurou Luna, corando, ainda mais encantadora.
— Haha, não foi nada — respondi, acenando e seguindo em frente. Subimos até o topo da montanha sem encontrar outra cobra.
No topo, havia menos árvores. Pegamos alguns galhos e acendemos uma fogueira, e todos os mais de sessenta colegas sentaram ao redor, conversando e rindo. Estava animado. Porém, já quase meio-dia, só tínhamos caçado dois coelhos, e com tanta gente, mal daria um pedaço para cada um. Decidimos que as meninas ficariam no topo, enquanto todos os meninos desceriam juntos para caçar mais.
Hélio e eu, claro, fomos junto. Mas a cada passo, meu coração vacilava. Não conseguia tirar as palavras dele da cabeça: será que havia mesmo alguém nos seguindo?
Cerrei os punhos, vendo meus colegas felizes caçando coelhos, mas meu rosto estava sério. Não dava, eu não conseguia relaxar! Se Wagner realmente mandou alguém, a mais ameaçada seria Branca Neve!
— Droga, não dá, preciso voltar! — exclamei, virando e correndo de volta. Os rapazes vieram atrás, perguntando o que houve. Disse que estava com dor de barriga.
Ninguém entendeu, mas Hélio, irmão de longa data, me conhecia bem demais. Ele sabia que eu estava preocupado com Branca Neve, suspirou e disse:
— Doido, vou contigo.
Pensei por um instante e concordei. Com Hélio comigo, me sentiria mais seguro caso algo desse errado. Sem perder tempo, voltamos juntos.
Agora, já não sentíamos cansaço, subimos por quase vinte minutos até o topo, mas, chegando lá, só vi que mais de trinta meninas conversavam alto, inclusive Vitória, todas rindo e alegres. Nenhum problema aparente!
— Droga! — resmunguei, exausto.
— Tem certeza que não se enganou? Wagner não seria tão idiota assim de mandar alguém nos seguir, não é? — falei para Hélio. Nesse momento, as meninas notaram nossa chegada e nos cercaram.
— Ué? Vocês já voltaram? Conseguiram caçar alguma coisa? — perguntou Vitória, aproximando-se.
— Ah... não... não... — fiquei extremamente sem graça, parecia que tinha caído num ninho de mulheres, só Hélio e eu de rapazes. Meu rosto corou, sorri amarelo: — É que... meu estômago não está bem.