Capítulo 01: Xadrez Silencioso
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No meio de uma escuridão sem fim, Luo Yao vislumbrou um fio de luz. Em sua mente, dois espíritos lutavam: ambos eram ele mesmo, como se fossem duas personalidades divididas. Em meio a duas memórias totalmente distintas, ele enxergava um mundo fantástico, onde pessoas, objetos e uma história humilhante se entrelaçavam e coincidiam integralmente com o mundo em que vivia, inseparáveis um do outro.
Certa vez, de repente, ele compreendeu: aquilo representava o futuro.
Era tudo assustadoramente real.
E, entre as realidades, havia terrores imensuráveis!
Como ateu convicto, Luo Yao jamais acreditara em fantasmas ou deuses, mas os acontecimentos aterradores nos sonhos posteriores o deixavam perturbado e incapaz de dormir à noite.
Acordava de sobressalto, noite após noite, com as costas encharcadas de suor.
Ele havia sobrevivido a um mar de cadáveres, mas a realidade era ainda mais cruel que os pesadelos.
Matança, sangue e medo sem fim. Bastava fechar os olhos para que o rosto sorridente dos soldados japoneses, baionetas ensanguentadas e balas cortando o ar surgissem em sua mente, perfurando corpos e abrindo buracos sangrentos...
Em 13 de dezembro do vigésimo sexto ano da República, os japoneses ocuparam a Cidade de Jinling e, logo depois, perpetraram um massacre selvagem, desumano e cruel. Civis inocentes e soldados desarmados eram tratados como animais, empurrados até a margem do rio, onde metralhadoras eram posicionadas e as balas disparadas como tempestade.
As pessoas caíam como trigo cortado, e o sangue tingia de vermelho a lama da margem.
Ele estava lá, entre eles.
...
— Huf, huf... — Acordando do cochilo da tarde, Luo Yao arfava profundamente, os olhos avermelhados e o olhar de um lobo faminto, frio e ameaçador, capaz de assustar quem quer que o encarasse.
— Luo Yao, teve outro pesadelo? — Uma voz sedutora soou atrás dele.
A voz era doce, e Luo Yao nem precisou se virar para saber quem era. Baixando a cabeça, apressou-se em responder:
— Irmã Liu, está tudo bem, já estou acostumado.
Liu Yumei, vice-diretora da sala de estatísticas da Delegacia Central de Jiangcheng, uma mulher de trinta anos conhecida como "Flor Única". Em toda a delegacia, os pretendentes poderiam formar fila da porta até o prédio. Ele, Luo Yao, era apenas um modesto funcionário do setor de estatísticas.
— Você está todo suado, melhor ir lavar o rosto, ou vai acabar resfriando — Liu Yumei se inclinou, piscou os olhos e perguntou, preocupada: — Não pode continuar assim. Quer que eu vá com você procurar um médico?
— Obrigado pela preocupação, irmã Liu. Estou bem melhor que antes, não preciso de médico — Luo Yao recostou-se levemente na cadeira, tentando se acalmar, e sorriu, agradecido. A atenção calorosa de Liu Yumei o deixava sem jeito.
Se não fosse por um empurrãozinho de alguém, estaria como qualquer refugiado ou mendigo nas ruas, lutando até por comida. Como ousaria pensar em qualquer outra coisa?
Depois da queda de Jinling, milhares de refugiados fugiram para o oeste. Ter um emprego para sobreviver já era uma sorte.
A sala de estatísticas tinha quatro pessoas. O diretor Huang Xuning quase nunca aparecia, sua atenção voltada apenas para os superiores. Havia também o velho Liu, que só lia jornais e tomava chá no expediente, fazendo questão de se impor pela idade.
Só quando Luo Yao chegou alguém passou a realmente trabalhar. Logo que se adaptou, ele já havia mapeado toda a situação da delegacia de Xiakou.
Os japoneses estavam prestes a invadir Jiangcheng, mas aquelas pessoas continuavam indiferentes, sem o menor senso de urgência, o que o deixava aflito.
Os japoneses destruíram Jinling, destruíram também sua casa e sua vida. O ódio era tão profundo que nem as águas dos três grandes rios seriam capazes de lavá-lo. Ele queria vingança!
— Irmã Liu, você não anda passando mal do estômago?
— Moleque atrevido, você... — O rosto de Liu Yumei corou instantaneamente. Como ele, mesmo tendo um pesadelo, ouviu aquele "barulhinho"? Tinha sido tão discreto...
Pesadelos constantes deviam ter afetado sua audição, fazendo-o ouvir coisas que não devia.
...
Rua Hualou, número 124 – Loja de Produtos Montanheses Wu.
— Bem-vindo — Disse Wu Zhichao, o dono, ao ver alguém entrando. Ele se apressou em sair de trás do balcão, chamando em voz baixa.
— Me dê duas garrafas de bebida e um maço de cigarros —, pediu Luo Yao, a voz rouca. Não dormira bem na noite anterior, estava resfriado e a garganta doía.
Sem dizer nada, o velho Wu virou-se, pegou duas garrafas de aguardente, um pacote de amendoim e duas caixas de cigarros marca Hardeman.
— Beba menos. Da última vez peguei duas garrafas pra você e já acabaram em poucos dias — avisou Wu, preocupado. — A propósito, sobre aquele aviso interno da delegacia que você me contou, de tirar gente para um treinamento especial, consegui umas informações por outros canais. O tal treinamento tem ligação com o Segundo Departamento de Inteligência Militar. Além do alto nível, os requisitos para os candidatos são rigorosos...
— Segundo Departamento de Inteligência Militar? — Luo Yao assentiu com a cabeça.
A memória foi se reconstruindo em sua mente: não era esse departamento o embrião da futura Agência de Inteligência Militar? O Primeiro Departamento virou a Central de Inteligência, o Terceiro cuidava da vigilância postal, já extinto, e o chefe era Ding Mohan, agora em cargo irrelevante. O infame Número 76 sequer havia sido criado...
Esse curso de treinamento especial seria o famoso "Curso Temporário de Treinamento" da história da Inteligência Militar.
O curso só seria aberto depois do Ano Novo. Por ora, estava em fase de preparação.
A entrada exigia muitos requisitos: ficha limpa, formação mínima de ensino fundamental. Sem um bom contato, era difícil conseguir vaga.
Ele lembrava vagamente que estudantes refugiados estavam sendo recrutados em Zhengzhou e muitos acabaram nesse curso, mas, se entrasse agora, não escaparia de uma futura investigação.
— Velho Wu, acha que eu conseguiria entrar nesse curso? — perguntou Luo Yao. Pensava nisso há tempos, mas só agora verbalizava.
— Está brincando? Como entraria? — Wu balançou a cabeça. — As vagas exigem recomendação e fiador. Você mal entrou no serviço, quem se responsabilizaria por você?
Ergueu os olhos e viu a expressão séria de Luo Yao.
— Você quer mesmo ir?
Luo Yao assentiu.
— Certo, vou tentar me informar. Mas não posso garantir que os de cima aprovem — mudou Wu de opinião. Luo Yao preenchia os requisitos, e se conseguisse entrar, seria uma jogada estratégica.
— Obrigado, velho Wu! Sabia que você era o melhor para mim! — Luo Yao riu, pegou o álcool e os cigarros e saiu. — Anote aí, depois te pago quando receber. Ah, sob o balcão no canto sudeste, nasceu uma ninhada.
— Moleque atrevido, que coisa mais brega...
Vendo Luo Yao já longe, Wu suspirou fundo. Sobreviver ao massacre já era um milagre; acabar assim, nem era o que ele desejava.
Escapara de um mar de mortos, agora era torturado por pesadelos, só conseguia dormir se entorpecido por álcool. Quem poderia compreender tal dor?
Mas... será que os pesadelos teriam fim?
Ninhada debaixo do balcão no canto sudeste? Wu correu, ergueu o móvel e, de repente, seu sorriso congelou: uma ratazana dera à luz ali.
Como Luo Yao sabia disso?
...
Luo Yao tinha ainda uma outra identidade: membro do Partido Comunista clandestino, filiado antes do início da guerra total. Antes, trabalhava no setor de finanças de Jinling.
Funcionário público, expediente das nove às cinco, vida estável.
Com a invasão japonesa em Xangai, tudo foi devastado e as tropas chegaram a Jinling. Sem influência ou poder, ele foi designado para ficar na cidade e acabou preso nela por duas semanas infernais — raiz dos pesadelos que o atormentavam até hoje. Bastava fechar os olhos para rever cenas sangrentas e cruéis.
O ódio, como vírus, devorava sua alma, sufocando-o. Cada vez que acordava de um pesadelo, era como se saísse de um abismo escuro e sem fundo.
Vingança não era questão de coragem cega.
Queria ir para a linha de frente, mas o Partido não autorizou. Restava buscar outro caminho, e esse "curso temporário" era uma chance.
Uma oportunidade de combater os invasores japoneses.
Bebeu um gole de aguardente, tragou o cigarro. Antes, não tocava nem em bebida nem em fumo; agora, não conseguia viver sem eles.
O outro espírito em sua mente lhe dizia que entrar no curso não era difícil; difícil era ter o contato certo. Por enquanto, o curso ainda era um grupo improvisado e sem nome.
Precisava bolar um plano.
Ir diretamente ao chefe de inscrições, Gu Mosheng, diretor da Inspetoria, não era opção. Embora houvesse aviso interno, quase ninguém se inscrevia espontaneamente.
Treinamento especial? Quem tinha juízo sabia dos riscos: muitos acabavam usados como bucha de canhão.
Isso era corriqueiro.
Por isso, Luo Yao não podia se destacar, pois chamaria atenção e suspeitas.
Pensar um pouco além nunca era demais.
Ainda não percebia, mas, por causa do segundo espírito, sua personalidade vinha mudando, pouco a pouco, para melhor.
Como não podia procurar Gu Mosheng diretamente, só restava tentar por meio de seu tio-avô, apesar de não querer incomodá-lo.
Jiangcheng — Vice-diretor e diretor interino da Delegacia Central de Xiakou: Han Liangze.
Com um objetivo em mente, os pesadelos que o atormentavam todas as noites pareciam ter se tornado menos intensos...