Capítulo 46: Fotografias Amareladas

Operação Secreta Silenciosa Vento Longo 3526 palavras 2026-02-07 16:23:39

A fotografia nas mãos de Luo Yao já estava amarelada pelo tempo. Nela aparecia uma família de três pessoas: uma jovem mãe segurava nos braços um bebê de cerca de um ano de idade, em pé sob uma cerejeira em flor. O marido, calçando tamancos de madeira e com uma pequena lâmina presa à cintura — provavelmente uma espécie de faca tradicional —, estava ao lado da esposa, que vestia um quimono.

A julgar pela exuberância das cerejeiras, a foto fora tirada na primavera. No verso, havia uma linha em japonês escrita com tinta azul: “Tirada em Ueno, Tóquio, abril do oitavo ano da era Showa.” Abaixo, um nome, ou melhor, um sobrenome: Yoshida.

“Comissário Luo, esta fotografia...”

“Vejam só: essa linha de costura dentro da mala, ela realmente está unida à camada externa?” Luo Yao sorriu de canto, apontando o local de onde acabara de tirar a foto. Todos se aproximaram e assentiram, concordando.

“Na verdade, ele alterou essa parte, falsificando a costura para que parecesse contínua por dentro e por fora, mas não é. Assim, criou-se um compartimento secreto minúsculo.” Luo Yao enfiou o dedo, abrindo uma pequena fenda. “É um espaço tão estreito que não cabe nada grosso, mas uma foto fica perfeitamente escondida, impossível de ser notada.”

Os demais, surpresos, exclamaram: “Comissário Luo, como descobriu isso?”

“Eu? Não sou de desistir fácil. Achava mesmo que havia algo escondido nesta mala, então insisti em procurar até achar. E, vejam só, dei sorte e encontrei.” Luo Yao deu uma risadinha. Claro que não contaria toda a verdade; afinal, dizer que foi sorte era o suficiente para convencer os outros.

Deixemos assim, como um golpe de sorte.

“Então é isso... Por que nós não temos a mesma sorte que o comissário Luo?”

“Porque você não é o comissário Luo!” brincou um dos presentes. “Acho que o segredo é a atenção aos detalhes. Só assim ele encontrou essa foto. Agora sim, aquele japonês vai abrir a boca.”

...

Mao Qiwu entrou às pressas no escritório de Dai Yunong.

“O quê? Encontraram? E ainda apreenderam um rádio militar japonês?” Dai Yunong se levantou, surpreso.

Wei Daming e sua equipe haviam trabalhado por mais de um mês, usando vários métodos, mas só conseguiram delimitar uma área aproximada. Identificar exatamente o posto de rádio “Fantasma” parecia impossível. Já Luo Yao, em menos de uma semana — cinco dias, para ser exato —, desvendou o mistério e localizou a estação secreta.

“O suspeito foi capturado por Tang Xin, do posto de Jiangcheng, e está sendo interrogado neste momento”, relatou Mao Qiwu.

“O que aconteceu?” Dai Yunong percebeu de imediato que havia algo por trás da história. Luo Yao fora enviado por ele, emprestado de Yu Jie, para ajudar Wei Daming. Por que, agora, estava atuando com Jiangcheng?

Mao Qiwu sorriu constrangido: “Na verdade, Wei Daming não confiava muito nas capacidades de Luo Yao e não queria cooperar. Para evitar conflitos, Luo Yao pediu para investigar sozinho e solicitou que eu lhe arranjasse uma identidade adequada. Assim, o enviei ao posto de Jiangcheng e pedi que Tang Xin colaborasse com ele.”

“Esse Wei Daming tem talento, mas precisa trabalhar o temperamento”, comentou Dai Yunong, sem se irritar. Conhecia bem o perfil dos seus subordinados. Wei Daming era valioso, especialmente na área de comunicações, fundamental para a organização. Desde que não passasse dos limites, podia tolerar certas rivalidades internas, normais em qualquer repartição. O importante era manter o controle e não permitir excessos.

Ser chefe de inteligência não é tarefa fácil. Pode-se até não ser especialista na área, mas é preciso saber como gerir pessoas. Conflitos entre subordinados são inevitáveis; o problema seria se todos fossem uma só massa coesa — aí, sim, seria necessário mudar de posição.

“É, isso o senhor teria que dizer a ele.”

“O rádio já foi entregue por Tang Xin. Devo enviá-lo imediatamente ao departamento de comunicações?” perguntou Mao Qiwu.

“Sim. Preciso saber quanto de informação confidencial foi vazada através da estação ‘Fantasma’. Só conhecendo o conteúdo, poderemos identificar as áreas afetadas e conduzir a investigação de forma direcionada”, respondeu Dai Yunong.

“O operador do rádio era funcionário de um banco estrangeiro em Xiakou, usando o nome falso de Gao Rong. Já o controlamos secretamente e está sendo interrogado. Ainda não sabemos se ele é Lin Miao, o líder do grupo de espiões japoneses.”

Dai Yunong resmungou: “Pelas informações que temos, duvido que seja a pessoa que procuramos. Um simples funcionário de banco? Lin Miao não escolheria um disfarce tão simples.”

“Então, acredita que, novamente, não conseguimos capturar o chefe do grupo de espiões?”

“Não imaginei que Luo Yao localizaria a estação tão rapidamente. Se tivéssemos esperado mais, o desfecho talvez fosse outro.” Dai Yunong demonstrou certo arrependimento por não ter acompanhado o caso de perto.

“O senhor encarregou Luo Yao apenas de encontrar a estação, não era esperado que ele considerasse outros aspectos”, ponderou Mao Qiwu.

“Não estou o culpando”, murmurou Dai Yunong. “Luo Yao é um talento raro. Desta vez, merece uma boa recompensa. O que devo conceder-lhe?”

“Ele tinha um noivado com a filha de Han Liangze, chefe de polícia de Xiakou. Mas Han, preferindo alguém mais rico, rompeu o compromisso e prometeu a filha ao filho de Hu Youyu...”

“Aquele Hu Youyu, o homem mais rico de Xiakou?”

“Ele mesmo.”

“Li o dossiê dele. Entrou na primeira turma do curso especial, por indicação de Gu Mosheng, certo?”

“Isso. Han Liangze, apesar de romper o noivado, ainda arranjou um bom futuro para Luo Yao, pedindo a Gu Mosheng que o recomendasse para a turma inaugural do treinamento especial”, explicou Mao Qiwu.

Dai Yunong olhou de esguelha para Mao Qiwu. Um homem tão interesseiro e bajulador seria realmente tão generoso? Óbvio que aproveitou a oportunidade para afastar Luo Yao de Jiangcheng. Quando a filha estivesse casada com o filho dos Hu, tudo estaria resolvido — não haveria mais compromisso algum. Mesmo que Han Liangze quisesse reatar, a família Hu jamais aceitaria devolver a nora.

Mao Qiwu entendia perfeitamente, mas, por conta da boa relação com Gu Mosheng, evitava tocar no assunto diante de Dai Yunong; não queria prejudicar um amigo.

“Essas questões são pessoais, que eles mesmos resolvam. De qualquer forma, quem entra para nossa organização só pode se casar dentro do próprio grupo. Pessoalmente, acho que Miyako Hui seria uma boa opção. Eles entraram juntos na primeira turma, já trabalharam na mesma equipe e parecem combinar bem”, comentou Dai Yunong.

“O senhor também acha que eles formam um bom par?”

“Você também pensa assim?” Dai Yunong sorriu.

“Acho que trabalham em perfeita sintonia. Se ficassem juntos, seria ideal. Mas, em nosso ramo, sentimentos são perigosos — quanto mais intensos, maior o risco.”

“É verdade. Sentimentos são uma faca de dois gumes: usados com sabedoria, aceleram o trabalho; mal administrados, podem ser fatais. É preciso ponderar cuidadosamente”, disse Dai Yunong, sério.

“Posso conversar separadamente com eles, aconselhando moderação. Ou, talvez, separá-los em equipes diferentes; com o tempo, os sentimentos esfriariam?”

“Agora não é hora de pensar nisso”, respondeu Dai Yunong, balançando a cabeça. “Quando voltarem, convide-os para jantar por mim.”

“Certo.”

...

Wei Daming, do departamento de comunicações, ficou atônito ao saber da notícia. Com tanta gente, recursos e equipamentos, além da colaboração do grupo especial da matriz, não haviam encontrado a estação “Fantasma”. Como aquele tal de Luo Yao conseguira?

Impossível, pensou. Devia ser mentira.

Mas o rádio militar japonês, entregue logo depois, destruiu qualquer dúvida. Dai Yunong jamais permitiria uma fraude envolvendo um novato sem influência.

Mesmo que Dai Yunong quisesse dar-lhe uma lição, não usaria um truque tão simplório.

Isso só podia significar que era verdade.

O jovem Luo Yao, ainda estudante do curso especial, realmente encontrara a estação “Fantasma”.

...

Na sala de interrogatório da Seção de Investigações do Comando de Guarnição de Jiangcheng, o interrogatório prosseguia. O espião japonês, usando o nome falso de Gao Rong, já havia suportado três rodadas de tortura. Desmaiava, era reanimado, e voltava a desmaiar, num ciclo ininterrupto.

Depois de mais uma ducha de água gelada para trazê-lo de volta à consciência, preparavam-se para reiniciar a tortura quando o médico militar interveio:

“Não pode continuar. O corpo dele não aguenta mais. Se morrer, não conseguiremos informação alguma.”

“Comissário Luo, o que acha?” Como o chefe Tang Xin não estava presente e Luo Yao tinha mais autoridade que o próprio chefe, o interrogador voltou-se para ele.

“Miyako Hui?” Luo Yao tocou o nariz, pensativo. “Não sou especialista em interrogatórios. Que tal você tentar?”

“Eu?” Miyako Hui se surpreendeu, mas não era estranha à tarefa — havia interrogado inúmeros criminosos, dos mais ferozes aos mais submissos, todos acabavam pedindo clemência. Mas seus métodos...

“Não se preocupe comigo, desde que não o mate”, disse Luo Yao, sem qualquer compaixão pelo espião. Sabia quem ele era, mas naquele momento, o disfarce era necessário.

Miyako Hui mordeu os lábios e assentiu. Temia que Luo Yao, ao presenciar seu lado “selvagem”, passasse a vê-la com maus olhos. Mas, naquela situação, não podia recuar. No máximo, depois, seria mais gentil com ele.

“Tragam dois palitos de bambu — mais grossos, não muito finos”, ordenou Miyako Hui.

Luo Yao teve um leve sobressalto.

Ele lera no dossiê de Miyako Hui que ela era especialista em interrogatórios. Dada a oportunidade, queria mesmo ver sua atuação.

Um grito dilacerante ecoou — um urro vindo das profundezas da alma...

Todos na sala de interrogatório sentiram-se impactados; alguns correram para fora, vomitando até a última gota do jantar da noite anterior.

Aquilo era tortura de verdade!

Mesmo Luo Yao, apenas assistindo, ficou lívido e com as pernas bambas. Não sabia se, submetido àqueles métodos, conseguiria resistir.

O espião japonês, por sua vez, não aguentou nem dez minutos antes de clamar, em prantos, que estava disposto a confessar tudo.

(Método exclusivo, perdoem-me por não descrever, hehehe...)