Capítulo 70: Pista Crucial
Tang Xin fez uma ligação direta para o Aeroporto Nanhu de Jiangcheng.
No exato momento antes de Clive embarcar, conseguiu interceptá-lo; se tivesse se atrasado por mais alguns minutos, o homem já teria embarcado e seria quase impossível trazê-lo de volta.
A companhia aérea de Hong Kong, afinal, não se submeteria facilmente aos seus pedidos.
— Irmão Luo, você realmente me salvou dessa vez — disse Tang Xin, emocionado. — Na verdade, já estávamos investigando esse Clive, mas por ser estrangeiro, não podíamos simplesmente trazê-lo para interrogatório; precisamos de provas concretas...
— Na verdade, estou ajudando a mim mesmo — respondeu Luo Yao. — Esse Clive está ligado ao caso que estou investigando. Se ele tiver informações importantes de que preciso, então as coisas mudam de figura.
— Sim, sim, tanta gente envolvida, tantas cabeças pensando, e ninguém percebeu que esse Clive conseguiu esconder informações na carta — Tang Xin exclamou, admirado.
Luo Yao sorriu: — Isso é questão de padrão mental. Assim que você rompe com o padrão, tudo se esclarece.
— O difícil é justamente esse estalo, essa ruptura — admitiu Tang Xin. — Irmão, acho que ainda vai demorar até trazerem o homem de volta. Que tal aproveitarmos para comer alguma coisa?
— Ótima ideia. Eu também estava querendo discutir com você nosso plano de “pesca” — Luo Yao concordou.
— Conheço um restaurantezinho ótimo, especializado em frutos do rio. Garanto que, depois de provar, vai querer voltar.
— Se é indicação sua, sei que não tem erro...
...
— O Comando do Nono Distrito Militar aprovou nosso plano. O setor de investigação do Comando vai cooperar conosco. O plano “Pesca” pode começar — informou Tang Xin.
Quem passa pelo treinamento do curso especial sabe que mentir é uma habilidade essencial; para quem se deve mentir, aí já é outra história.
— Sério? — Tang Xin não duvidou das palavras de Luo Yao. Afinal, o setor de investigação do Comando e a agência de inteligência militar eram praticamente do mesmo grupo; colaborar era o normal.
Mal sabia ele que o Comando nunca aprovara coisa alguma. Toda a suposta cooperação do setor de investigação se resumia a Luo Yao pedir, por meio de Gong Hui, a ajuda de colegas do curso especial, algo totalmente informal.
Claro, uma boa dose de persuasão foi necessária.
A promessa da glória por capturar espiões japoneses, somada ao prestígio de Luo Yao entre os colegas, fez com que três deles se juntassem temporariamente ao plano “Pesca”.
— Eu ia enganar você, Tang? Se der certo, quanta glória vamos receber? — Luo Yao riu, satisfeito. Outro no meu lugar dividiria os louros com você?
Tang Xin assentiu: — Pois é. Mas vamos combinar: na hora da captura, tem que me avisar?
— Fique tranquilo, a operação de captura vai precisar mesmo da sua ajuda — Luo Yao concordou. Faltavam-lhe homens, teria mesmo que contar com Tang Xin.
— Vamos, brindemos com chá no lugar do vinho...
— Irmão Tang, será que posso aproveitar e treinar um pouco com esse Clive? — Luo Yao aproveitou para fazer um pedido.
— Sem problema, o interrogatório é seu — aceitou Tang Xin.
...
— Eu sou cidadão do Império Britânico, vocês não têm o direito de me deter! Quero falar com seu superior! — Na sala de interrogatório, Clive estava algemado à cadeira, gritando furioso para a porta.
Estava claro que seu humor era péssimo.
— Quero fazer uma queixa ao seu superior! — bradou.
— Deixem-me sair!
Do lado de fora, Tang Xin e Luo Yao ouviam calmamente os gritos de Clive.
— E então, quer que eu mande alguém tentar antes? — perguntou Tang Xin, receoso de que Luo Yao não conseguisse arrancar nada e acabasse constrangido.
— Não precisa — Luo Yao sorriu, balançando a mão. — Segundo a psicologia, quanto mais impaciente a pessoa, mais ela grita, tentando aliviar o medo e se encorajar.
— Será? Nunca soube disso...
— Peço que retire todos, não deixe ninguém — pediu Luo Yao.
Tang Xin hesitou. Afinal, Clive era britânico; mesmo que provassem que era espião, no fim provavelmente seria deportado.
— Vá com calma — recomendou.
— Pode deixar, eu sei o que faço — Luo Yao assentiu. — E peça para trazerem um livro, dez folhas de papel de arroz e um copo d’água.
— Certo — Tang Xin concordou.
A paciência de um homem é limitada. Luo Yao ficou do lado de fora, observando Clive pela janelinha por quase dez minutos.
Só então, entrou na sala, levando o livro, papel de arroz e um copo d’água.
Assim que entrou, Clive pareceu agarrar-se a uma tábua de salvação:
— Soltem-me! O que estão fazendo é ilegal! Sou jornalista, sou britânico, tenho imunidade diplomática, vocês não podem me deter!
— Imunidade diplomática só vale para funcionários da embaixada. Você é só um estrangeiro comum, nem trabalha no consulado britânico de Jiangcheng, não tem esse direito — Luo Yao riu, sentando-se à sua frente. — E sobre jurisdição consular, já não reconhecemos isso faz tempo.
— Sou cidadão britânico! O que estão fazendo é um ato de bandidagem! Vou denunciar vocês ao governo!
Luo Yao sentou-se e, com calma, disse:
— Se o detivemos, temos nossos motivos. Vai colaborar espontaneamente, ou prefere sofrer um pouco primeiro?
— Não tenho nada a dizer. Se têm provas, processem-me — Clive respondeu com firmeza.
— Tenho duas opções para você. Primeira: coloco um livro grosso no seu peito e desço a marreta — não fica marca alguma. Segunda: aqui chamamos de “colocar o oficial”, consiste em colar folhas de papel molhado no seu rosto, uma a uma. Se escolher, pode experimentar daqui a pouco — Luo Yao explicou. — Dou-lhe cinco minutos para decidir. Ou escolhe, ou eu escolho.
— Não, não! Não escolho nada, não quero nada disso! — Clive estava assustado, era óbvio que queriam matá-lo e ele não queria morrer.
Luo Yao não se importou, apenas olhou o relógio e começou a contar:
— Restam quatro minutos e cinquenta segundos.
— Quero ver aquele oficial de antes!
Luo Yao permaneceu impassível.
— Vocês não podem fazer isso, serão punidos!
— Três minutos e trinta e sete!
— Quero ver o cônsul britânico em Jiangcheng, senhor Wedmore!
— Três minutos e quinze.
— Não escolho nada!
— Não podem matar assim, serão duramente punidos, pagarão caro por isso!
— Dois minutos e quarenta e dois.
Luo Yao não demonstrou a menor compaixão, o olhar frio como quem realmente pretendia matá-lo.
— Por favor, o que querem de mim? Sou só um estrangeiro comum, não sei de nada, estão cometendo um engano!
...
— Senhor Clive, restam vinte e cinco segundos. Já fez sua escolha? Primeira ou segunda opção? — perguntou Luo Yao.
— Não, não pode ser tão rápido! Você está enganado, deve ter visto errado! — Clive já estava sem rumo, não era um espião profissional, o medo da morte era avassalador.
— Não me engano. O relógio está comigo, se eu digo quantos segundos faltam, é isso mesmo — Luo Yao sorriu levemente, levantando-se. — Senhor Clive, decidiu?
— Não, não! Eu falo! Eu falo! Eu sou espião, trabalho para os japoneses! — Clive, ao ver Luo Yao pegar o livro, ficou lívido, encharcado de suor.
Estava realmente apavorado. Acreditava que o jovem chinês à sua frente era plenamente capaz de cumprir o que dizia, e não estava apenas o ameaçando.
Aquele homem era um demônio, um verdadeiro demônio.
Dinheiro algum vale mais que a própria vida.
— Conte como começou a trabalhar para os japoneses. Se mentir uma só palavra, sabe o que o espera — a voz de Luo Yao era gelada, sem traço de emoção.
— Foi há cerca de três anos, por volta desta época. Conheci um chinês chamado Lin Miao...
— Lin Miao, da Transportadora Bida?
— Isso, exatamente ele — Clive engoliu em seco. — Eu estava desempregado, passando dificuldades, e ele sabia que eu fora jornalista. Disse que conhecia o dono de um jornal em Jinghai e podia me indicar para ser correspondente em Jiangcheng. Aceitei, mas depois descobri que o tal dono era japonês, um agente do consulado militar japonês em Xangai. Fiquei atordoado, mas já tinha enviado matérias para eles e até passei algumas informações.
— Você já era um intermediário de informações, para você isso era fácil. Nunca pensou que, depois de embarcar no navio japonês, sair seria difícil? — Luo Yao zombou. Parecia injustiçado agora, mas na época aceitou de bom grado.
— Além de pedir informações sobre Jiangcheng, Lin Miao pediu que fizesse mais alguma coisa? — continuou Luo Yao.
— Quase não nos víamos, uma vez a cada um ou dois meses. Sempre era ele quem me procurava, raramente eu o procurava.
— Onde costumavam se encontrar?
— No Café Crepúsculo, na rua General Xafei, na Concessão Francesa. Esse café é famoso, o café é excelente. Eu mesmo costumava ir lá tomar uma xícara.
Mais um envolvido com o Café Crepúsculo; Lin Miao ia lá com frequência, inclusive com Clive.
— Conhece Sun Jia, confeiteiro do Hotel Deming?
— Sun Jia? — Clive franziu a testa, pensou um pouco e respondeu: — Você quer dizer o jovem confeiteiro que trabalhou no Café Crepúsculo? Ele era amigo de Lin Miao. Não estava satisfeito no café e queria mudar de emprego. O Hotel Deming estava contratando confeiteiros, então Lin Miao pediu que eu o recomendasse. Depois ouvi dizer que ele foi aceito.
— Sun Jia trabalhou mesmo no Café Crepúsculo? — Isso pegou Luo Yao de surpresa. Parece que Katayama Xiaomi realmente tinha ligação direta com o café.
— Certamente, ele me disse isso na minha frente — Clive confirmou.
— Por que Lin Miao pediu que você indicasse Sun Jia para o Hotel Deming? — quis saber Luo Yao.
Clive explicou:
— Acho que por eu ser estrangeiro e conhecer o gerente do hotel, pediu que eu escrevesse a carta de recomendação.
— O que mais sabe sobre Lin Miao? Amigos próximos, lugares que frequenta?
Clive pensou:
— Ele tem poucos amigos além dos parceiros de negócios; conheço uns dois ou três.
— Quem são?
— Um é chefe de seção do Departamento de Transportes da Ferrovia Pinghan, de sobrenome Yuan; outro é subdiretor do Departamento de Trânsito de Jiangcheng, de sobrenome Qian, chamado Qian Junyi; e outro, não sei ao certo, trabalha com comércio de grãos, dizem que tem contatos fortes, sobrenome Guo. Só o vi uma vez, mas parecia muito íntimo deles.
— Pode me trazer um copo d’água? — pediu Clive, aflito.
PS: O grande amigo Zhuo Yiyi lançou hoje seu novo livro “Comunidade Yangang”. Eu faço uma pequena participação por lá — quem gosta de temas do cotidiano, não deixe de apoiar o primeiro lançamento. Obrigado!