Capítulo 45: A Captura
A sorte de Luo Yao realmente era admirável.
Desde que revelou seu talento extraordinário para ouvir, percebeu que alguém que até para voltar para casa agia com tanto cuidado só poderia estar escondendo algo; seria impossível não desconfiar.
Naquela noite, após o expediente, Gao Rong não retornou imediatamente para casa. Primeiro jantou fora, depois foi a uma casa de danças na Rua Jianghan. Parecia bastante familiarizado com a chefe das dançarinas do local. Depois, bebeu bastante, chamou um riquixá…
Não voltou para casa. No meio do caminho, desceu e seguiu para a região onde estava localizada a estação “Número Três”, entrando pela porta dos fundos de uma livraria. Arrombou a porta, e alguém a abriu para ele. Uma vez dentro, mesmo com as cortinas pretas cobrindo as janelas do sótão, ao olhar com atenção era possível perceber um fio de luz escapando. Luo Yao permaneceu parado à sombra de um poste próximo.
O conteúdo das transmissões foi ouvido por ele palavra por palavra, memorizado em sua mente. Naturalmente, não contaria a ninguém que era capaz de tal feito; por vezes, esconder certas habilidades era necessário. Trunfos são para serem usados em momentos críticos para salvar a própria vida.
— Gong Hui, amanhã já pode avisar o chefe Tang para prender o suspeito — disse Luo Yao a Gong Hui assim que chegou em casa.
— Amanhã mesmo? — questionou ela.
— Sim, quanto antes melhor. O front está sob forte pressão, e qualquer vazamento de informações daqui pode causar perdas incalculáveis para as linhas de frente. Não podemos nos dar ao luxo de esperar — explicou Luo Yao.
— Certo, só acho engraçado termos passado apenas uma noite aqui e já...
— Se gostou do lugar, pode comprá-lo — sugeriu Luo Yao com um sorriso maroto. — Assim teremos sempre um refúgio quando voltarmos a Jiangcheng, sem precisar incomodar ninguém.
— Comprar? — Gong Hui demonstrou surpresa. — Mas por quê?
— Para termos um ponto seguro. Aqui é a Concessão Francesa, então é bem mais seguro. Depois de comprar, quando não estivermos, deixamos A Cheng cuidar da limpeza para nós.
— E a casa fica no nome de quem? — perguntou ela.
— O que você acha?
— Então vou ficar com o andar de cima — declarou Gong Hui, assumindo ares de dona da casa.
— Sonha, viu? — Luo Yao olhou para ela com desdém. — Vou deixar uma cama de solteiro para você no quarto de hóspedes lá embaixo, e olhe lá.
— Hmph! — Gong Hui resmungou descontente enquanto o via subir as escadas.
***
Prisão sigilosa.
Luo Yao e Gong Hui haviam treinado isso no curso especial, mas o treinamento nunca é igual à realidade. Ter a chance de participar diretamente era uma oportunidade que não deixariam escapar.
Gong Hui, experiente, lidou com naturalidade, demonstrando habilidade ao capturar suspeitos sem se abalar.
Luo Yao, porém, era novato. Esta era sua primeira operação real de captura.
Na verdade, foi mais simples do que parecia: como Gao Rong trabalhava no banco, bastou um cliente conhecido ligar para ele e marcá-lo para uma conversa. Assim que saiu da Concessão Francesa, a prisão se tornou fácil.
Foi tão simples que nem deu tempo de Gong Hui testar suas habilidades; o tal “Gao Rong” foi rapidamente dominado, e até mesmo um compartimento de veneno foi encontrado com ele.
Estava praticamente confirmada sua identidade como espião japonês. Em Jiangcheng, quem mais teria acesso a esse tipo de equipamento além dos japoneses?
***
Na sala de interrogatório da Seção de Investigação do Comando de Guarnição de Jiangcheng.
O espião japonês “Gao Rong” estava com o torso nu, as mãos penduradas no cavalete de tortura, o corpo coberto de hematomas e sangue no canto da boca — sinais claros de que já havia sido torturado.
Distinguir um chinês de um japonês apenas pela aparência não era fácil, afinal ambos tinham pele amarela. Mas, despido, certas características eram impossíveis de ocultar.
Japoneses costumam usar tamancos de madeira, o que cria uma fenda entre o dedão e o segundo dedo dos pés, que não fecha completamente mesmo com os dedos juntos, sendo simétrica nos dois pés. Além disso, os japoneses usam uma faixa de tecido na cintura, hábito que os chineses não têm, deixando uma marca mais clara na pele ao redor da cintura.
Essas características bastavam para confirmar que o funcionário do banco chamado “Gao Rong” era, na verdade, japonês.
— Chefe Tang, ele ainda não falou? — perguntou alguém.
— Luo, esse japonês é teimoso. Sua identidade foi desmascarada, o rádio confiscado, mas não encontramos o livro de códigos. Perguntamos e ele não confessa — respondeu Tang Xin animado. O caso da “Estação Fantasma” já era de seu conhecimento e ele queria resolvê-lo, mas era um caso do Departamento de Comunicações da Sede, e ele tinha poucas pistas para agir.
Se tentasse, o chefe Wei Daming do Departamento de Comunicações não o pouparia.
Agora, chegaram dois jovens agentes especialmente designados para investigar a “Estação Fantasma”. Era como se um grande prêmio caísse do céu em seu colo.
Com a captura do espião e a descoberta da estação, a maior parte do mérito seria dos agentes, mas restaria uma boa fatia para si, o que era ótimo para estabelecer seu nome no novo cargo.
Independentemente de quem levasse o maior crédito, ele colaborou plenamente, sem obstáculos, ajudando a capturar o espião e apreender o rádio.
O mérito, certamente, seria em parte seu.
Ele também admirava Luo Yao. Afinal, havia sido recomendado pessoalmente pelo chefe Dai. Se não fosse pelo orgulho de Wei Daming, o mérito teria sido dele?
— Não sou especialista em interrogatórios — sorriu Luo Yao. — Mas descobri uma estação de rádio reserva. Se quiser, pode destacar uma equipe para vigiar o local. Imagino que, ao perceberem o desaparecimento do comparsa, tentarão transferir imediatamente o equipamento…
Luo Yao não contou toda a verdade, pois ainda não conhecia bem Tang Xin.
— Luo, está falando sério? — Tang Xin ficou radiante. Havia mais uma estação reserva; isso seria ainda mais importante.
Geralmente, um grupo de espiões japoneses já tinha sorte se tivesse uma estação; esse grupo tinha duas, o que tornava o caso ainda mais significativo.
— Só posso dizer que vale a pena tentar. Talvez consigamos algo a mais. Mas, como já prendemos um deles, é possível que tenham sido alertados e abandonem tudo — ponderou Luo Yao, sem se comprometer demais.
— Entendido, vou providenciar imediatamente — declarou Tang Xin confiante. Com informações tão precisas, se deixasse o mérito escapar, não mereceria o cargo de chefe da estação de Jiangcheng.
Tang Xin saiu satisfeito para mobilizar sua equipe.
Luo Yao permaneceu para observar o interrogatório. Era uma oportunidade rara de aprendizado que poderia ser útil futuramente.
— Agente Luo, trouxemos tudo que encontramos na casa daquele homem. Não sabemos se serve para algo, mas está tudo aqui — disse educadamente um dos assistentes de Tang Xin.
Tudo que estivesse relacionado ao caso, se Luo Yao quisesse examinar, ninguém se oporia.
Havia um relógio, uma carteira, identidade (verdadeira), mas a pessoa, certamente, não era. O verdadeiro “Gao Rong” provavelmente já tinha morrido há tempos.
Em anos de guerra, muitos morriam sem que ninguém soubesse, e assumir outra identidade era fácil e difícil de ser verificado.
O relógio era antigo, usado por pelo menos dez anos. A carteira, de couro de bezerro, de boa qualidade, tinha algumas notas e um crachá de trabalho.
Nada disso parecia relevante.
Luo Yao examinou tudo até que seu olhar se deteve numa pequena maleta de couro vermelho-escuro.
— Agente Luo, quer que eu abra para o senhor? — ofereceu-se o assistente.
— Não, eu mesmo faço — respondeu Luo Yao, aproximando-se da maleta e a observando cuidadosamente. — Vocês a trouxeram assim, sem mexer?
— Sim, já verificamos tudo. Além de alguns livros e roupas, não havia nada — respondeu o assistente.
— Não limparam a parte externa?
— Não.
Luo Yao passou dois dedos sobre a superfície da maleta, olhou os dedos, nada disse, depois desatou o fecho, abriu a tampa e olhou para dentro, colocando a mão lá dentro.
— Agente Luo…
— O que foi? Já não revistaram a maleta? Estão com medo de que haja perigo? — Luo Yao sorriu, respondendo ao cuidado do assistente com gentileza.
Maletas são ideais para esconder compartimentos secretos, e ele confiava que a equipe de Tang Xin não deixaria passar isso, mas queria experimentar pessoalmente o processo.
Retirou as roupas e objetos, verificando se havia algo escondido, pois as informações sobre o verdadeiro “Gao Rong” eram mínimas.
Os assistentes se entreolharam, constrangidos. Será que Luo Yao não confiava neles?
Na verdade, ele só queria praticar, pois no curso especial tudo era muito encenado.
Os itens da maleta foram retirados rapidamente, sem encontrar nada que revelasse a identidade de “Gao Rong”, o que só mostrava sua importância no grupo de espiões.
Ou então, sua habilidade em esconder era realmente grande.
— Pode me arranjar uma lanterna? — pediu Luo Yao.
Rapidamente lhe entregaram uma.
Acendeu a lanterna e iluminou o interior da maleta, que era de excelente fabricação, mostrando sinais de uso antigo.
O tecido do forro era resistente, parecia durável. Luo Yao examinou as costuras, passando os dedos…
Nada parecia fora do comum.
Mas havia algo estranho, embora não soubesse dizer o quê.
— Agente Luo? — chamou o assistente de Tang Xin.
Luo Yao não se moveu. Inclinou-se de novo, passando os dedos pelas costuras internas, atento ao quase imperceptível som de fricção.
Na sala de provas, todos se olhavam confusos, sem entender o fascínio de Luo Yao por uma maleta vazia.
— Agente Luo, se gostar da maleta…
— Silêncio, não o interrompa — Gong Hui interveio com firmeza. Ela conhecia Luo Yao e reconheceu a expressão de concentração em seu rosto.
O assistente imediatamente calou-se.
Comparado à gentileza de Luo Yao, Gong Hui, com seu rosto de menina, era firme e só sorria assim para o agente.
Ninguém entendia como Luo Yao suportava ela.
Para Luo Yao, os sons não mentem. Materiais diferentes produzem sons distintos ao friccionar ou vibrar. O difícil era saber escutá-los.
De repente, entre os dedos de Luo Yao surgiu uma fotografia preta e branca de cerca de três polegadas. Ninguém viu como ela apareceu.