Capítulo 44: Vou te assustar até a morte!
— Nunca imaginei que você sabia cozinhar — disse Maria Hui, apoiada no batente da porta, olhando para Rui Luo na cozinha com olhos brilhando de admiração.
— Vai pra lá, menina. Se não aprender a cozinhar, cuidado pra não ficar solteira.
— Se eu não casar, me agarro a você — respondeu ela, sorrindo travessa.
— Sonha, vai.
Rui Luo passou por Maria Hui carregando uma panela de barro, lançando-lhe um olhar de desprezo:
— Lava as mãos e vem comer.
— Uau, que cheiro maravilhoso!
No momento em que a tampa foi levantada, Maria Hui se rendeu completamente ao aroma daquela peixe cozida na panela de barro. Era tão delicioso, muito mais do que qualquer comida que já experimentara.
— Estou salivando...
— Rui Luo, vamos combinar: posso vir comer na sua casa de vez em quando? — Ela riu, já com os palitinhos mergulhados na panela, pegando um pedaço de peixe e levando à boca, com expressão de puro deleite.
— Nem pensar! — Rui Luo recusou sem cerimônia.
— Que mesquinho!
Maria Hui bufou, revolvendo rapidamente a panela. Em pouco tempo, os dois devoraram um peixe de mais de um quilo e meio.
Claro, a maior parte foi para Maria Hui. O apetite dessa mulher não podia ser subestimado.
— Não dá, comi demais. Preciso me mexer, digerir um pouco... — Ela acariciou o ventre, totalmente alheia ao comportamento de uma dama.
— Isso mesmo, agora que está cheia, pode lavar a louça.
— Tá bom.
Ela concordou, mas se levantou de repente e saiu correndo, deixando a mesa cheia de restos e pratos sujos para Rui Luo, que não sabia se ria ou chorava. Quando foi que ele virou o cozinheiro da casa?
Não, esse termo é ambíguo, melhor evitar e nem pensar nisso.
Após arrumar a mesa, Rui Luo subiu diretamente. Não bebeu à noite exatamente para poder se concentrar e escutar os sons, tentando localizar a estação número 2. Escolheu um bom lugar próximo, acalmou-se e começou a ouvir atentamente.
Se o método funcionaria, ele não sabia, só tentando descobriria. Não havia alternativa melhor.
Por meio de contatos na fiscalização, Rui Luo conseguiu o mapa de distribuição dos edifícios da área da estação 2, além de alguns registros de moradores.
Primeiro memorizou essas informações.
Se tivesse de coletar tudo sozinho, não conseguiria em menos de dez dias. Mas, graças ao poder da organização por trás dele, era fácil e discreto.
Espalhou o mapa, pegou um lápis vermelho e azul, e, tomando o pátio onde vivia como centro, foi ouvindo cada casa, uma a uma.
Era como um radar escaneando.
Marcava as casas sem suspeita, focando nos moradores solteiros. Apesar de famílias serem mais fáceis de esconder alguém, a menos que todos fossem espiões, um indivíduo era o ideal para se ocultar e agir. E havia muitos solteiros; bastava não chamar atenção.
Esta casa não: o idoso está acamado há mais de seis meses, vivem com dificuldades, não conseguem pagar o aluguel, o homem suspira, as crianças não comem carne há três meses...
Esta está sem luz e não há movimento, provavelmente não tem ninguém!
Aqui, uma mãe solteira e sua filha; a mãe é vendedora, traz metade do almoço do trabalho para a filha.
Que tristeza.
Naquela, a criança é travessa, quebrou o vidro do vizinho, o pai está educando...
...
Rui Luo foi ouvindo casa por casa, marcando no mapa com símbolos que entendia, suspirando de vez em quando. A vida do povo era realmente dura.
Antes, isso era abstrato, sem conceito claro, mas ao escutar esses diálogos, sentiu profundamente que a China precisava mudar para renascer.
E a ameaça mais urgente vinha do imperialismo japonês.
Espera aí, essa casa tem rádio!
Naquela época, só famílias ricas podiam possuir um rádio, e os componentes eram controlados, pois serviam também para montar transmissores.
Um especialista poderia facilmente montar uma estação comprando peças; não havia padrão técnico, nem modelo fixo: montava para usar, desmontava para esconder, enganando a todos.
O rádio tocava um trecho da ópera de Pequim "O Cavalo de Crina Vermelha": Wujiapo. Rui Luo conhecia bem, não resistiu e cantarolou junto.
O dono do rádio provavelmente era um idoso viúvo, e havia um gato gordo sempre com ele.
O tempo passava lentamente.
Uma xícara de chá foi colocada discretamente ao lado esquerdo de Rui Luo.
— Obrigado — murmurou ele, reconhecendo o gesto.
Sabia que era Maria Hui.
Ela não disse nada, apenas sentou-se em silêncio num canto do quarto, entendendo que Rui Luo precisava concentração máxima, qualquer ruído poderia quebrar seu estado.
Tic-tac...
O ponteiro do relógio marcou onze horas. Se a estação 2 fosse transmitir naquela noite, seria seu período de atividade.
Rui Luo sabia que aquele era o momento crucial. Esforçou-se para se concentrar, mergulhando no silêncio, como água parada.
Em sua mente, eliminou os ruídos irrelevantes, focando apenas nos sons ritmados de batidas.
Maria Hui sentou atrás dele, nem respirava fundo, e naquele instante, tempo e espaço pareciam suspensos.
Ela se perguntava se era possível ouvir qualquer coisa lá fora, além dos roncos do vizinho e das ruas desertas devido ao toque de recolher...
O rosto de Rui Luo tornava-se cada vez mais sério, quase austero.
Olhando de lado, notou como sua pele era clara e suave. O coração de Maria Hui disparou. Apesar das brincadeiras das colegas, dizendo que Rui Luo era "um rosto bonito", nunca tinha olhado com atenção. Agora, mesmo com barba e pele artificialmente amarelada, o perfil era realmente bonito.
Apaixonada!
— Acorda, acorda! Se quiser dormir, vai para seu quarto lá embaixo — disse Rui Luo de repente, já quase encostando o rosto no dela.
— O que você está fazendo?
— O que eu estou fazendo? Você ficou aqui sonhando acordada e sorrindo feito boba por mais de uma hora — respondeu ele, mexendo as pernas. — Sonhou com coisa boa? Só espero que não tenha nada a ver comigo.
— Quem quer ter algo a ver com você! — Maria Hui corou, levantou-se, sentindo-se nervosa. — Eu... eu vou dormir lá embaixo.
— Espere um pouco!
— O que você quer agora?
— Esse endereço, faça com que Cheng investigue discretamente, descubra quem mora lá — Rui Luo entregou-lhe um papel.
— Achou?
— Não tenho certeza — ele respondeu, balançando a cabeça. — Diga a Cheng para só levantar informações, nada de chamar atenção.
— Entendido.
Ela assentiu, olhou o papel e memorizou o endereço, descendo calmamente.
Se ele soubesse no que ela estava pensando, seria uma vergonha.
...
O que será que essa garota pensou? Certamente tem a ver comigo. Não posso permitir isso, senão toda missão vai sobrar para mim: lavar roupa, cozinhar... Vou acabar exausto. Da próxima vez, chamo Man ou Liu Jinbao.
O esforço foi grande; Rui Luo dormiu até às dez da manhã seguinte. Ao acordar, os ouvidos ainda zumbiam.
Demorou um pouco até voltar ao normal.
Maria Hui não estava em casa, provavelmente havia saído.
Na mesa havia uma cesta de pãezinhos, provavelmente comprados para ele, mas já estavam frios. Rui Luo, faminto, devorou quatro de uma vez, aliviando a fome.
Saiu, foi ao mercado, e ao meio-dia preparou um almoço simples de quatro pratos e uma sopa.
Maria Hui voltou.
— Rui Luo, você cozinhou?
— Sim, lave as mãos e venha comer.
Ele tirou o avental e chamou, cozinhar era uma forma de esquecer o zumbido nos ouvidos.
Ela respondeu, lavou as mãos e veio servir o arroz. Após duas colheradas, lembrou-se de algo, pegou o saco de pano e tirou um maço de cigarros Old Dao:
— Lembrei que seus cigarros estavam acabando, trouxe um maço pra você.
Pronto, o almoço valeu a pena.
— Prove o peixe ao vinagre que fiz hoje, é diferente do de ontem à noite.
— Vou provar.
— Cheng tem novidades? — perguntou Rui Luo, comendo.
— O sujeito que mora lá se chama Gao Rong, trabalha no banco, sai cedo, volta tarde, é pontual, nunca vi ele com visitas, sem parentes na cidade, nem namorada...
— Tem foto?
— Sim, o banco tem fotos dele com outros funcionários. Cheng já está conseguindo por meio de contatos, deve chegar logo.
— Vamos nos esforçar: hoje à noite, nós três em revezamento, confirmar a identidade de Gao Rong e avisar o diretor Tang para agir.
— Esse Gao Rong claramente não está sozinho, não seria melhor esperar?
— Nossa missão é encontrar o "Fantasma", deixe o resto para o diretor Tang e sua equipe — Rui Luo sorriu. Ele e Maria Hui faziam o trabalho, e os outros que se virassem.
Não é preciso fazer tudo sozinho, essa é uma filosofia de vida.
Rui Luo não entendia isso antes, mas depois de integrar aquele espírito em sua mente, compreendeu. Se isso era bom ou ruim, não sabia, mas ajudava em sua infiltração na organização.
Wei Daming não acreditava que ele pudesse encontrar a estação "Fantasma"? Pois vai ver: não só encontro uma, mas três de uma vez, para assustar você!