Capítulo 40: Diretor Dai
Durante todo o trajeto, tanto Ro Yao quanto Gong Hui não podiam conversar, tampouco abrir as cortinas para observar o exterior; tudo era envolto em um mistério profundo.
A Cidade do Rio era agora o centro político e militar do país, um lugar de grandes contrastes, alvo prioritário da infiltração de espiões japoneses. Por segurança, a cautela era justificada. Ainda assim, Ro Yao achava que havia excesso de tensão. Quando se estica demais uma corda, ela pode romper.
A cidade era dividida ao norte e ao sul por um rio; o norte chamava-se Boca do Verão, o sul, Longevidade Próspera, sendo Boca do Verão muito mais movimentada e próspera. Estavam agora em Longevidade Próspera, rumando para o oeste, segundo o conhecimento geográfico adquirido no curso especial.
A viagem não foi longa, cerca de meia hora. O carro seguiu por uma estrada montanhosa, fez várias curvas e parou diante de um pequeno edifício cinzento, situado a meio caminho da encosta. Ro Yao não sabia onde estava; era certo que nunca estivera ali antes.
Ao descer, alguém recolheu suas malas. Olhando ao redor, Ro Yao percebeu rapidamente a abundância de árvores e a presença de numerosos postos de vigilância, tudo sob uma rígida segurança, como um covil de dragões e tigres, indicando tratar-se de um local especial.
A Agência de Segurança Militar já fora estabelecida, com Dai Yu Nong ocupando o cargo de vice-diretor, responsável pelos assuntos gerais; o diretor, He Yao Zu, era apenas um nome na hierarquia, pois, na prática, a agência obedecia às ordens da Sala dos Ajudantes.
Dai Yu Nong, agora vice-diretor e general de brigada, era um homem em ascensão, tornando-se rapidamente alguém impossível de ignorar, um verdadeiro exemplo de como os tempos fazem os heróis.
— Vocês viajaram de trem a noite toda, ainda não comeram, não é? — Um homem de rosto redondo, vestindo um traje tradicional chinês, aproximou-se sorrindo.
— O senhor é...? — Ro Yao perguntou com humildade; aquele homem claramente era alguém perigoso por trás do sorriso.
— Meu nome é Mao Qiwu, sou secretário do chefe Dai. Podem me chamar de secretário Mao. — Mao Qiwu apresentou-se com um sorriso amistoso.
— Olá, senhor Mao! — Ro Yao apressou-se em prestar continência. Era brincadeira: Mao Qiwu, natural da cidade, era um homem da mais absoluta confiança de Dai Yu Nong, certamente entre os cinco mais influentes da agência; tratá-lo como simples secretário seria um erro grave.
Ele era famoso por sua capacidade de suportar afrontas e nunca devolver insultos, mas, por trás do sorriso, sempre guardava ressentimentos; se você caísse em seu desagrado, bastava uma pequena intriga para prejudicá-lo.
O sorriso de Mao Qiwu tornou-se ainda mais radiante; embora fosse apenas secretário-chefe de Dai Yu Nong, apreciava ser respeitado pelos subordinados. Alguns, de longa carreira, eram intocáveis; outros, achando que ele era apenas secretário, menosprezavam-no, e ele nunca esquecia.
— O chefe Dai disse que Ro Yao e Gong Hui são talentos promissores da agência, e me incumbiu de recebê-los bem. — Mao Qiwu ainda não era famoso, e por isso não se atrevia a agir com arrogância.
— Obrigado, senhor Mao.
Depois de um café da manhã simples — apenas macarrão e pães, um pouco melhores que os do povo comum, sendo os pães recheados de carne — Ro Yao e Gong Hui mostraram-se um pouco constrangidos, afinal era a primeira vez ali.
— Descansem um pouco, o chefe Dai virá encontrá-los logo. — Mao Qiwu conduziu-os a uma pequena sala de visitas, fechando a porta ao sair.
Ro Yao não estava cansado, já que dormira no trem. Era uma oportunidade rara, e ele procurava captar qualquer movimento ao redor.
Gong Hui quis conversar, mas viu Ro Yao de olhos fechados e pensou que ele precisava descansar, então ficou em silêncio. Entediada, começou a limpar sua arma.
O edifício estava silencioso; poucas pessoas conversavam em voz baixa, e, nas salas mais distantes, mal se podia ouvir.
No segundo andar, à esquerda, a terceira sala parecia ser o centro de comunicações, de onde vinham os sons de telegrafia, e não era apenas um aparelho.
Após sair da sala de visitas, Mao Qiwu dirigiu-se ao terceiro andar, provavelmente ao maior cômodo do edifício, onde havia pelo menos três pessoas conversando em voz baixa. O isolamento acústico impedia Ro Yao de saber sobre o que falavam.
Na verdade, sentir-se assim fazia Ro Yao sentir-se um homem comum, e não um estranho com habilidades incomuns.
Ro Yao concentrou-se na sala do terceiro andar onde Mao Qiwu entrara. Após cerca de quinze minutos, a porta se abriu, e saiu alguém distinto de Mao Qiwu; pelo som dos passos, Ro Yao reconheceu que não era ele.
— Irmão Montanha, vá com calma.
— Irmão Yu Nong, até logo. — O visitante foi cordial, despedindo-se do anfitrião e saindo apressado.
Montanha? Seria He Zhong Han?
Ro Yao lembrou-se de alguém. Não era ele que já não agradava ao Velho Chiang? Como estava agora envolvido com Dai Yu Nong?
A agência fora recentemente criada; Chen Li Fu ocupou o cargo de diretor por pouco tempo, depois o cargo passou a ser exercido por diretores da Sala dos Ajudantes, sendo He Yao Zu o primeiro após Chen Li Fu.
Dizia-se que o cargo era meramente simbólico, envolto em disputas veladas; He Zhong Han também queria ocupar o posto, mas evidentemente o Velho Chiang não confiava nele.
As lutas políticas no alto escalão do governo eram muito distantes para Ro Yao, e ele não via razão para se preocupar, pois eram irrelevantes para ele.
— Gong Hui, prepare-se, estão vindo. — Vendo Gong Hui limpar a arma, Ro Yao a alertou em voz baixa.
Gong Hui rapidamente guardou a arma, escondendo-a sob as roupas.
Os passos se aproximaram, e Ro Yao e Gong Hui arrumaram as vestes, levantaram-se e posicionaram-se junto à porta, aguardando a chegada de Dai Yu Nong.
Soou uma batida à porta.
Ro Yao respirou fundo, deu um passo à frente e abriu.
Entrou um homem de estatura semelhante à de Ro Yao, cabelos penteados para trás, linha do cabelo alta, sobrancelhas espessas, olhos grandes, nariz forte, o rosto lembrando o de um cavalo — sinal de fortuna, segundo as tradições. Vestia um traje azul escuro, olhos fixos à frente, com um brilho aguçado, como o de uma águia.
Não era outro senão Dai Yu Nong.
— Saudações, chefe Dai! — Ro Yao recolheu os pensamentos, juntou rapidamente as pernas e prestou continência, falando em voz alta.
— Chefe Dai? — Dai Yu Nong se surpreendeu; nunca fora chamado assim. Normalmente, era chamado de chefe, de senhor Dai, ou por amigos, de irmão Yu Nong; mas o mais comum era o apelido de "patrão Dai", que ele já aceitava sem questionar.
— Ro Yao, deve chamar de patrão Dai. — Mao Qiwu apressou-se a corrigir.
Dai Yu Nong levantou a mão, impedindo a correção, e perguntou com forte sotaque local:
— Ro Yao, pode me explicar por que me chama de chefe Dai ao me ver pela primeira vez?
— Chefe Dai, o senhor é nosso orientador no curso especial; somos seus alunos, por isso naturalmente o chamamos de chefe Dai. — Ro Yao explicou em voz alta.
— Muito bem, muito bem, pode continuar assim. — Dai Yu Nong riu satisfeito, assentindo; Ro Yao se posicionara como aluno, tocando no desejo oculto do chefe.
O velho gostava que o chamassem de "diretor", porque fora diretor da Escola Militar de Huangpu, e os maiores talentos do partido vieram de lá.
A escola não só lhe deu prestígio, mas também poder supremo; sem o apoio dos alunos, ele nunca teria alcançado sua posição.
Ele organizava esses cursos não apenas para formar seguidores, mas também para ampliar sua influência futura.
— Sim, aluno, entendido. — Ro Yao respondeu em voz alta.
— Ótimo, sentem-se. — Dai Yu Nong parecia de bom humor, sorrindo todo o tempo, o que surpreendeu Mao Qiwu.
— Já sabem da missão? — Dai Yu Nong perguntou ao sentar-se.
— O vice-diretor Yu explicou brevemente, mas não sabemos os detalhes. — Ro Yao respondeu com humildade, sabendo que Dai Yu Nong não gostava de falatórios.
— Daqui a pouco, Qiwu vai explicar tudo. Espero que possamos contar com sua audição extraordinária para localizar a rádio clandestina dos espiões japoneses. — Dai Yu Nong concluiu.
— Farei o possível, chefe. — Ro Yao respondeu.
— Muito bem, Qiwu, acompanhe Ro Yao e Gong Hui para se familiarizarem com a operação; o objetivo deles é localizar a rádio. Colabore em tudo que for necessário. — Dai Yu Nong ordenou.
— Sim.
— Providencie o almoço; vamos comer juntos. — Era raro que Dai Yu Nong convidasse subordinados para o almoço, demonstrando especial apreço por Ro Yao.
Ro Yao e Gong Hui ficaram visivelmente emocionados, levantando-se para acompanhar a saída de Dai Yu Nong.
— Vocês tiveram sorte; o patrão Dai raramente almoça com subordinados. — Mao Qiwu comentou, pois compartilhar uma mesa com Dai Yu Nong era sinal de confiança.
— Senhor Mao, há algo que o chefe Dai não goste, para evitar no almoço? — Ro Yao perguntou discretamente.
— O patrão Dai é afável, só não o deixe irritado. Ele não fuma, mas gosta de beber; no almoço, normalmente não bebe, pois à tarde há compromissos importantes. Portanto, não se preocupem, sejam naturais. — Mao Qiwu sorriu.
— Entendido.
Ro Yao sabia que Mao Qiwu era ganancioso, mas na primeira vez não ousava dar presentes; deixaria para outra ocasião.
Mao Qiwu conduziu Ro Yao e Gong Hui ao centro de comunicações no segundo andar.
— Gong Hui, você fica fora. — Mao Qiwu disse friamente, virando-se para Gong Hui.
Gong Hui já sabia que sua missão era proteger Ro Yao; não tinha autoridade para saber o que ele faria.
— Qiwu, chegou? — perguntou um homem.
— Irmão Wei, a pedido do patrão, trouxe um talento especial. — Mao Qiwu sorriu, apresentando Ro Yao. — Este é Ro Yao, aluno do curso especial, discípulo de Yu Jie.
— Yu Jie? Ele não entende nada de interceptação. — Wei Da Ming resmungou, desprezando.
— Irmão Wei, foi o patrão que pediu; temos que respeitar a decisão. — Mao Qiwu aproximou-se e sussurrou ao encarregado do centro de comunicações. — O patrão tem grandes expectativas, e pediu que almoçássemos juntos.
— Certo, pode ficar. — Wei Da Ming bufou, sem olhar para Ro Yao, voltando ao trabalho.
Ro Yao ficou constrangido, percebendo a clara desaprovação de Wei Da Ming.
— Irmão Wei, pode explicar sobre a rádio "Fantasma"? — Mao Qiwu insistiu.
— Qiwu, você já sabe tudo sobre a rádio "Fantasma", precisa que eu explique? — Wei Da Ming recusou.
Mao Qiwu sorriu constrangido, sem demonstrar desagrado:
— Ro Yao, deixe-me explicar: a rádio "Fantasma" provavelmente existe há muito tempo, mas foi descoberta há pouco mais de um mês, após desmantelarmos um grupo de espiões japoneses. Esse grupo era muito astuto, infiltrou-se no setor de transportes e roubou informações sobre a movimentação de materiais militares e civis nos últimos seis meses...
O velho Mao realmente sabia suportar afrontas; qualquer outro já teria reagido em seu lugar.
Não era à toa que ele sempre prevalecia no final.
Para sobreviver na agência, Mao Qiwu era alguém que Ro Yao nunca deveria contrariar.