Capítulo 26: Os Ladrões
A influência do Departamento de Agentes da Sociedade para o Renascimento era imensa; logo ao amanhecer do dia seguinte, receberam a notícia de que um carregamento de suprimentos de resgate havia chegado à estação de Yiyang, vindo de Jiangcheng. Shen Yu, acompanhado de Luo Yao e os demais, que haviam descansado durante a noite, apressaram-se em ir com as carroças vazias buscar a carga.
Havia roupas para o frio, cobertores, tendas, e, acima de tudo, medicamentos essenciais... Três grandes carroças abarrotadas. Apenas os feridos graves permaneceram no hospital do condado; os demais não perderam tempo, e, escoltando os suprimentos, puseram-se imediatamente a caminho. Precisavam regressar o quanto antes. As provisões da equipe haviam acabado na noite anterior; mesmo que tivessem dinheiro para comprar comida, seria difícil encontrar algo nos arredores, pois as vilas próximas também haviam sido atingidas pelo desastre e mal conseguiam cuidar de si mesmas.
Na vinda, levaram um dia inteiro de viagem; para retornar, levariam aproximadamente o mesmo tempo, ainda mais porque o desembarque dos suprimentos na estação havia consumido mais algumas horas. Seguindo o mesmo caminho, provavelmente só voltariam ao templo ao cair da noite.
Durante o dia, tudo corria bem. Mas, ao anoitecer, não apenas se tornava difícil distinguir o caminho e a direção, como também, à medida que adentravam as montanhas, a estrada tornava-se cada vez mais perigosa. Por anos, a região de Xiangxi era assolada por bandos de salteadores. Embora percorressem áreas mais periféricas, não era raro encontrarem bandidos, principalmente após o desastre; muitos, sem alternativas para sobreviver, refugiavam-se nas montanhas e tornavam-se foras da lei.
Assim, a praga dos bandoleiros em Xiangxi nunca cessava. O povo, devastado pela calamidade, via os próprios ladrões de montanha em grande penúria. Marchar descaradamente para fora da cidade com três carroças repletas de suprimentos era, sem dúvida, tornar-se um alvo suculento aos olhos alheios.
Por isso, Shen Yu insistira em levar um pelotão de guarda como escolta. Na ida, estavam de mãos vazias; mesmo que os bandidos os avistassem, não se arriscariam a provocar um pelotão regular, bem armado e treinado, ainda mais sem recompensas à vista. Mas, no retorno, transportando tantos bens, tornavam-se uma fortuna ambulante. Muitos arriscam tudo pela riqueza; homens morrem pelo dinheiro, assim como pássaros pela comida.
Luo Yao sabia disso, e Shen Yu ainda mais. Por essa razão, na volta, não seguiram o caminho anterior, mas optaram por outra rota. O início já havia sido cuidadosamente investigado pela equipe de Yiyang e era seguro, mas o trecho final adentrava a serra, onde tudo se tornava incerto. Não podiam seguir pela estrada antiga; era preciso enviar batedores à frente para garantir a segurança antes de avançar com o comboio.
Esse método era prudente, mas atrasava o progresso. Shen Yu estava ansioso, porém sabia que pressa não resolveria nada; agir de modo precipitado poderia pôr tudo a perder, inclusive a si próprio e os preciosos suprimentos de resgate. Se isso acontecesse, Wang Leqing e os demais, que aguardavam ajuda no templo abandonado, estariam em sérios apuros.
Sem comida, sem roupas para o frio, e tantos feridos leves... Uma noite tão gelada poderia ser fatal.
— Luo Yao, se houver perigo adiante, você consegue perceber antes? — Shen Yu chamou Luo Yao e, sem rodeios, fez a pergunta.
Luo Yao ficou surpreso, mas logo entendeu por que Shen Yu o escolhera para integrar o grupo: valorizava sua suposta habilidade de prever a enchente.
Na verdade, talvez houvesse um engano. Luo Yao não previa desastres, mas sim, possuía uma audição muito além do comum; conseguira ouvir o som distante da enxurrada, calcular sua velocidade e tempo de chegada, e assim alertar a todos antecipadamente. Não era sexto sentido, tampouco poder sobrenatural.
Shen Yu, aflito, acabava recorrendo a tudo.
— Instrutor Shen, eu consegui detectar a enxurrada e o deslizamento não por algum dom premonitório, mas porque meus ouvidos alcançam sons muito distantes — explicou Luo Yao, achando necessário esclarecer para evitar futuros problemas desnecessários.
Claro, não revelaria tudo sobre sua audição extraordinária; do contrário, poderia tornar-se alvo de experimentos. Nem ele mesmo sabia explicar de onde vinha tal dom.
— Até que distância você consegue ouvir? — Shen Yu arregalou os olhos, interessado. Também não acreditava em poderes sobrenaturais, mas, se fosse uma audição fora do comum, tudo fazia sentido.
— Duas ou três li, sem dificuldade — respondeu Luo Yao, ainda assim omitindo um pouco.
— Vamos, vamos, tenente Xu! — Shen Yu, ao ouvir isso, arrastou Luo Yao para a frente da coluna.
— Às ordens!
— Leve um grupo cem metros à frente para reconhecimento. A missão de vocês é garantir a segurança do aluno Luo Yao. Ele diz por onde ir, vocês seguem. Entendido? — ordenou Shen Yu.
— Sim, senhor! — Na hierarquia, a patente fala mais alto. O tenente Xu era apenas subtenente, enquanto Shen Yu era major; não ousaria desobedecer. Além disso, sabia que, se não fosse pelo alerta de Luo Yao na outra noite, muitos teriam morrido na enchente e no deslizamento.
O ritmo da marcha acelerou. Luo Yao sabia que não era o momento de esconder habilidades; ele e a equipe estavam todos no mesmo barco. Os bandidos de Xiangxi eram conhecidos por sua crueldade; mesmo que sobrevivesse, cair nas mãos deles não seria destino melhor.
Ajudar Shen Yu era ajudar a si mesmo. Embora não tivesse certeza de quanto poderia colaborar, pois era sua primeira vez numa missão dessas, um erro poderia custar a vida de todos.
O tenente Xu era veterano da Batalha de Songhu, experiente em combate. Luo Yao não perderia a oportunidade de aprender com ele; mesmo que fosse só um pouco, seria útil para se proteger no futuro.
...
A equipe avançava pela sinuosa trilha da montanha, quando, de repente, Luo Yao, à frente, ergueu a mão, sinalizando para o tenente Xu e os demais pararem.
— Pare.
— O que foi, irmão Luo Yao? — O tenente Xu correu até ele, tratando-o com respeito, pois sabia que esses alunos tinham futuro promissor; manter boas relações poderia, um dia, mudar seu próprio destino.
— Tem gente na floresta à frente. Com toda essa chuva e deslizamentos, camponeses comuns não estariam aqui; devem ser batedores dos bandidos — disse Luo Yao.
— E agora? Esse caminho é inevitável; se contornarmos, perderemos pelo menos duas horas, não há tempo — respondeu o tenente Xu, preocupado.
— Se os batedores já estão aqui, é sinal de que a emboscada principal está próxima. Não podemos deixá-los avisar os demais — sussurrou Luo Yao. — Tenente Xu, envie alguém de volta para informar o instrutor Shen. Tenho um plano...
— Certo, faremos como você diz. Esses bandidos não hesitam em matar; se cruzarmos com eles, será vida ou morte — concordou o tenente Xu, acenando com a cabeça.
...
Quatrocentos metros adiante, na floresta da encosta, dois homens estavam agachados entre a vegetação densa, já havia quatro horas. O local permitia observar a estrada lá embaixo sem serem notados. Se não fosse o vento gelado entrando pelas calças, tornando o frio quase insuportável, poderiam até adormecer ali.
— Mano, olha! Vem gente aí... — exclamou o bandido mais baixo, cutucando o companheiro, os olhos arregalados fixos no caminho.
— Ei, o que houve? Fala! — O pequeno bandido, aflito, virou-se e ficou atônito: dois canos de fuzil negros já estavam apontados para sua nuca, dedos no gatilho, prontos para disparar ao menor movimento.
Seu companheiro já estava imobilizado ao lado, amarrado como um pacote, de joelhos, olhando com terror para aqueles homens surgidos do nada.
Foram descobertos.
...
Bandidos não têm honra; por sobrevivência, fariam qualquer coisa. Esses dois batedores, interrogados, confessaram tudo sem hesitar. Luo Yao, porém, não se fiava tão facilmente; entre bandidos, não faltavam os astutos. Era melhor verificar pessoalmente.
— Você disse que há quase cem bandidos emboscados na colina à frente? — questionou Shen Yu, surpreso com o relato de Luo Yao.
Luo Yao assentiu: — Eles estão exatamente no nosso caminho. Se contornarmos, perderemos pelo menos duas horas.
— Faltam menos de duas horas para anoitecer; se desviarmos, além de difícil, corremos risco de nos perder — ponderou Shen Yu, visivelmente preocupado.
— Major Shen, embora sejam mais de cem, esses bandidos são um bando desorganizado, mal armados. Se conseguirmos dar a volta e atacá-los de surpresa pela retaguarda, poderemos derrotá-los e cruzar em segurança, economizando pelo menos uma hora — sugeriu o tenente Xu, — e ainda evitar o desvio.
— A sugestão do tenente Xu é válida. Os bandidos não sabem que conhecemos sua posição. Se surgirmos de repente por trás deles e atacarmos com força, podemos abrir caminho — concordou Luo Yao.
— Tem confiança? — Shen Yu, especialista em operações atrás das linhas inimigas, não tinha tanta experiência em combates diretos, por isso hesitava.
— Sim! — respondeu o tenente Xu com firmeza.
— Ótimo, preparem-se. Partimos em cinco minutos — decidiu Shen Yu, que não era homem de indecisões; se o experiente tenente Xu confiava, valia o risco.
— Instrutor Shen, quero participar da ação! — pediu Luo Yao. Não perderia por nada aquela rara chance de combate real.
— Você não. Sem experiência de combate, só faria o tenente Xu se preocupar em protegê-lo — recusou Shen Yu, sem hesitar.
— Instrutor, posso guiar o grupo até os bandidos sem sermos notados, permitindo que ataquem de perto, e posso me manter seguro à distância, sem participar do combate — argumentou Luo Yao.
— Tem certeza?
— Se preferir, deixe Mancang e Liu Jinbao comigo. Ambos têm experiência e, sem lutar, podem me proteger — sugeriu Luo Yao.
A proposta parecia razoável. Shen Yu chamou Liu Jinbao e Mancang, instruiu-os, e designou-os para proteger Luo Yao, acompanhando o grupo do tenente Xu.