Capítulo 32: Parceiros

Operação Secreta Silenciosa Vento Longo 3760 palavras 2026-02-07 16:23:31

Luo Yao era o capitão e, por isso, desfrutava de alguns privilégios a mais do que os demais cadetes. Claro, privilégios eram uma constante nas fileiras do Exército Nacionalista; era um fato concreto e, pelo menos naquela fase, impossível de mudar.

Esses privilégios tornavam sua locomoção e atuação no campo de treinamento muito mais fáceis; disso, ninguém duvidava. Por exemplo, ele tinha acesso a muito mais informações externas do que os outros, e as cartas que os cadetes enviavam para fora eram submetidas a inspeções menos rigorosas... Além disso, por conta de sua relação com Shen Yu, tinha permissão para consultar arquivos confidenciais já desclassificados, como os relatórios de batalhas do front, que eram enviados pela sede para análise dos instrutores.

Tudo isso era inacessível para um cadete comum, mas não para ele.

Shen Yu também lhe ensinava técnicas de imobilização, embora Luo Yao não tivesse nenhum dom especial para isso — era apenas mediano. Aqueles realmente talentosos aprendiam com uma única explicação; ele, por outro lado, precisava de pelo menos três. O céu jamais concentraria todos os talentos em uma só pessoa.

Não era um homem completo, nem desejava sê-lo. Se alguém faz tudo sozinho, o que sobra para os outros? Qual seria, então, o valor da existência alheia?

Deixar espaço para os demais era também preservar seu próprio espaço.

...

Ao chegar a Linli, Luo Yao passou a acompanhar atentamente o jornal local, o “Diário de Linli”.

Finalmente, encontrou um anúncio de compra de mercadoria.

A chefia havia enviado alguém.

...

Luo Yao procurou seu superior imediato, o chefe de pelotão Xiang Lian.

— Quer uma licença?

— Capitão Xiang, estou há um mês sem pedir folga. Pelo regulamento do campo de treinamento especial, cada cadete tem direito a pelo menos um dia de folga para sair. Eu, como capitão, tenho direito a dois.

— Eu sei. Não é proibido pedir folga, mas você é o capitão e amanhã teremos um treino exaustivo. Quem ficará responsável pelas tarefas em sua ausência? — Xiang Lian assentiu. Não ousava pressionar Luo Yao demais; afinal, ele era protegido do chefe Dai e, quem sabe, depois de formado poderia até superá-lo na hierarquia.

— Já deixei tudo encaminhado. Não prejudicarei o treinamento.

— Certo. Pegue o bilhete de autorização e comunique à sede. Só não se esqueça de voltar no horário — Xiang Lian concordou rapidamente com a licença de Luo Yao.

A cidade de Linli não era grande. De bicicleta, um trajeto de ida e volta não levaria mais de uma hora.

Luo Yao trocou o uniforme por trajes civis e pediu emprestada uma bicicleta a Shen Yu. Poderia ter pego até um automóvel, mas isso chamaria muita atenção.

O encontro estava marcado para as dez da manhã, na primeira mesa à esquerda do segundo andar da Casa de Chá Anfu, no centro da cidade.

Luo Yao prendeu de lado, no bolso superior do paletó, uma caneta-tinteiro preta "Parker". O contato deixaria um guarda-chuva de oleado ao lado direito da cadeira, com a ponta para cima.

Esse era o método de reconhecimento combinado com Wu, seu contato, há muito tempo.

Havia códigos diferentes para encontros em dias de sol e de chuva, dependendo da situação.

Com um terno azul-acinzentado, botas arredondadas de couro, boina de estudante e uma mochila de lona nas costas, além de óculos, Luo Yao parecia um típico universitário.

Em Linli, uma cidade tão pequena, universitários eram raros — mas, após a transferência da sede do governo, muitas universidades também se mudaram. Sem ter onde se instalar, até Linli abrigou duas instituições superiores.

Assim, a presença de estudantes universitários tornou-se mais comum na cidade e seu disfarce não chamava muita atenção.

Apesar de Linli estar na retaguarda, Luo Yao manteve-se cauteloso. Observou primeiro a região em torno da Casa de Chá Anfu. Quando o relógio se aproximou das dez, retirou do fundo da mochila um changshan, que já havia preparado, e vestiu-o em um canto discreto.

Colou um bigode postiço, tirou o boné, colocou pequenos óculos escuros.

Seu aspecto e presença mudaram completamente.

...

O cuidado nunca é demais.

Com a transferência da sede do governo, fábricas, escolas e uma multidão de civis acompanharam o movimento. Cidades pequenas como Linli viram a população explodir.

Com o aumento populacional, cresceu também a demanda e surgiu uma prosperidade distorcida.

As ruas estavam mais cheias, o comércio mais vivo, mas também aumentaram as taxas e impostos de toda sorte. Para o povo, nada melhorou; pelo contrário, a vida estava mais difícil do que antes.

— Senhor, por favor, ao andar de cima.

— Traga uma chaleira de chá de flores.

— Pois não! — respondeu alegremente o atendente. Luo Yao levantou a barra do changshan e subiu. Logo na primeira mesa à esquerda do topo da escada.

Avistou um homem de costas para a entrada, vestido com um changshan marrom de algodão, e usando um chapéu preto elegante.

Ao lado da mesa, encostado na perna da cadeira, o guarda-chuva preto com a ponta para cima.

Era ele.

Faltava ver o rosto, mas todos os demais sinais batiam.

Luo Yao aproximou-se firme, curvando-se levemente:

— Senhor, posso dividir a mesa?

— Há tantos lugares vagos aqui, por que quer sentar justamente aqui? — O homem não levantou a cabeça, apenas pousou a xícara de chá e perguntou em voz baixa.

— Daqui se tem a melhor vista da janela — respondeu Luo Yao com um sorriso, sentando-se sem hesitar na cadeira oposta.

— Pelo sotaque, você é do norte, não?

— Enganou-se, sou um autêntico sulista — respondeu o outro.

— Em pleno dia, por que um guarda-chuva?

— O tempo é imprevisível!

— Nunca se sabe quando uma nuvem vai trazer chuva. E você, trabalha em quê?

— Faço de tudo, desde que dê dinheiro.

— É mesmo?

— Você não cansa de trocar todos os códigos? — O homem ergueu a cabeça, revelando um rosto conhecido. Quem mais poderia ser senão Wu Zhichao?

Luo Yao riu, tirou os óculos escuros.

— Pelo jeito, já achei que conhecia pelo jeito de andar, mas não quis arriscar. Só ao ouvir sua voz tive certeza. Mas e esse seu físico?

— Ordem superior; tive de engordar e assumir outra identidade para continuar sendo seu contato — disse Wu, meio constrangido. Estava pelo menos vinte quilos mais pesado do que há dois meses.

Mesmo quem o conhecesse bem teria dificuldade em reconhecê-lo agora.

— Ótimo, que bom! Pensei que a organização mandaria outro no seu lugar, mas fico contente que seja você — Luo Yao suspirou de alívio.

Wu Zhichao sorriu melancólico:

— Por nossa amizade, fui designado para cá.

— Pelo seu tom, preferia ter ficado em outro posto, não é?

— O que você acha? — Wu respondeu, sem esconder o desagrado.

— Desculpe, mas somos todos peças da revolução. Onde precisarem, lá estaremos. Trabalhando juntos, com certeza faremos um ótimo trabalho.

— Você não perde essa mania — Wu riu. — Olha, se não fosse esse rosto, eu nem reconheceria você!

...

Luo Yao riu:

— As pessoas mudam, ainda mais em um ambiente novo. Se eu não me adaptasse, como sobreviveria?

— Vamos ao que interessa. Agora sou um comerciante atacadista de produtos de bambu, sob o nome de Zhou Jin. Pode me chamar de “velho Zhou”. Vim a Linli para comprar mercadoria. Aluguei um pequeno sobrado no número 16 da Rua Xiarhe, que pode servir de casa segura para você. A chave está escondida atrás do terceiro tijolo azul do portal... — Wu falou em voz baixa.

— Certo. Já levantei informações gerais sobre esse curso especial. Como as entradas e saídas são controladas, não consigo tirar documentos de dentro. Assim que puder, passarei na casa segura e registrarei tudo o que souber. Hoje vou fazer um relatório breve para você.

— Senhor, seu chá de flores — anunciou o atendente, trazendo a chaleira.

— O chá daqui é bom, prove — Luo Yao serviu uma xícara para Wu Zhichao.

— Obrigado.

Luo Yao contou a Wu tudo sobre sua entrada no curso especial, tanto os méritos como as punições, sem esconder nada.

Mesmo assuntos menores eram relatados, por lealdade à organização e para não deixar pontas soltas.

A extinção da Sociedade de Rejuvenescimento também era resultado da luta de seu partido. A organização era odiada por muitos, e certos membros dela eram alvo de inveja e rancor.

Quanto a ingressar na “Sociedade das Três Virtudes Azuis”, Wu não podia decidir; teria de consultar os superiores e só depois dar uma resposta a Luo Yao.

— Segundo nossos informes, o serviço de inteligência japonês já sabe da existência do seu curso especial. Não se sabe se tomarão alguma medida de sabotagem — Wu contou as últimas notícias.

— Isso não me preocupa. Ouvi dizer que os combates em Xuzhou estão intensos, e que sofremos pesadas baixas em Tengxian? — Luo Yao perguntou, apreensivo.

— Não sei muito, mas... Como você tem acesso a essas informações, sendo só um cadete do curso especial? — Wu estava surpreso, pois o regime de treinamento era fechado e rígido.

— Yu Jie me estima muito e, graças à minha amizade com seu cunhado, Shen Yu, consigo acesso privilegiado a relatórios do front — explicou Luo Yao.

— Você é esperto mesmo.

Wu fez uma pausa e continuou:

— Os superiores pedem que, por ora, você só se destaque no curso especial. O objetivo é conseguir, após a formatura, um cargo-chave, de preferência com acesso a informações importantes, mas sem chamar muita atenção.

— Eu sou tão competente que é difícil passar despercebido.

— Aí já não sei como te ajudar. Só estou transmitindo as ordens superiores. Mas, na prática, tudo depende das circunstâncias. Não há regras rígidas; adapte-se conforme necessário — Wu nunca tinha se infiltrado no serviço secreto, mas sabia que o trabalho era delicado e não permitia aplicar ordens administrativas à risca.

— Na verdade, creio que eu seria melhor em missões externas — Luo Yao sentia uma resistência interna ao trabalho de escritório. Apesar de menos perigoso, era monótono e entediante, o que, para alguém de espírito livre, era um tormento.

— É só uma sugestão dos superiores. Decida por si mesmo — Wu compreendia a situação; certas mudanças exigiam autonomia.

Luo Yao assentiu.

— A cada quinze dias venho buscar mercadoria. Em geral, nos dias 10 e 25 de cada mês, passo uma noite na Rua Xiarhe, número 16.

— Wu, tem notícias do meu pai?

— Ainda não. Estamos investigando o máximo possível. Depois da queda de Jinling, os japoneses massacraram mais de trezentos mil civis e soldados, dezenas de milhares de pessoas ficaram sem lar. Seu pai saiu antes da cidade cair, buscando refúgio no interior, mas o lugar que você indicou coincidia com a rota de avanço dos japoneses pelo oeste...

— O Sexto Corpo de Exército de Gu Shoufu? — Luo Yao se espantou.

— Como você sabe?

— Vi em um relatório sobre a defesa de Jinling com Yu Jie. — Luo Yao se apressou em responder. Havia falado demais. Embora o nome do comandante do Sexto Corpo japonês não fosse exatamente segredo militar, não era informação acessível ao cidadão comum.