Capítulo 09: Boa Vontade
— Somos cinco, chamamos muita atenção. Acho melhor nos disfarçarmos, criar uma identidade adequada — sugeriu Gu Yuan, enquanto o grupo de cinco desembarcava num cais de Yueyang.
— Primeiro vamos achar um lugar para nos instalarmos — opinou Mancang, que caminhava ao centro, sempre ponderado e prudente.
Luo Yao seguia atrás, calado e introspectivo. Entre eles, era quase invisível; mesmo tendo dado sugestões que pouparam metade das despesas do grupo, isso não mudara a opinião dos demais sobre ele.
— Senhorita Gong, o que acha? — perguntou Liu Jinbao, virando-se. Se a jovem não concordasse com algo, seria difícil resolver. Apesar de ser o líder, raramente tomava as decisões.
— Melhor acharmos onde ficar primeiro — respondeu Gong Hui, demonstrando certa antipatia por Gu Yuan, mas respeitando Mancang.
— Então vamos.
Ao entrarem na cidade, encontraram ruas movimentadas, carros, pessoas, vendedores ambulantes, num burburinho animado. Apesar da guerra e dos combates sangrentos no fronte, Yueyang, situada na retaguarda, mantinha o cotidiano. Ali, terra fértil e próspera, reinava uma aparente paz.
Dos cinco, só Liu Jinbao conhecia a cidade — quase um guia local. Conduziu o grupo a uma pequena pensão mais em conta, pois o dinheiro não permitia hospedagem luxuosa.
Luo Yao e os outros dividiram um quarto coletivo; Gong Hui ficou num quarto individual. Mesmo assim, uma noite custava três notas de franco.
Com a taxa de câmbio vigente, uma moeda de prata bastava para duas noites. Somando alimentação, cada dia de cinco pessoas consumia ao menos uma moeda de prata. Isso era o básico; com transporte e outros gastos, dez moedas não durariam mais que cinco dias.
Só quem gerencia um lar entende o preço do arroz e do sal.
Liu Jinbao franzia o rosto de preocupação. Se soubesse, não teria competido com Gong Hui na “técnica de fuga”; se perdesse, não precisaria se preocupar com essas coisas.
— Vamos comer? — Depois de se instalarem, Liu Jinbao chamou os outros. No barco, o capitão providenciara alimentação, sem custos. Agora, em Yueyang, era tudo por conta deles.
O dinheiro, guardado por Liu Jinbao, era motivo de discórdia. Gu Yuan perguntou:
— Quem vai chamar Gong Hui?
Os quatro se entreolharam, ninguém se ofereceu.
— Que vá qualquer um, eu não vou — disse Gu Yuan, acomodando-se numa cadeira, distante, alheio.
Mancang ia falar, mas Liu Jinbao olhou para Luo Yao:
— Luo, vai você. Só você não tem medo dela.
Gu Yuan franziu a testa, quis comentar, mas se calou.
Luo Yao suspirou. “Só eu não tenho medo dela?” Na verdade, ninguém queria lidar com Gong Hui.
De fato, diante daquele rosto frio e distante, poucos se animavam a puxar conversa.
— Tudo bem, eu vou.
Sem mais rodeios, Luo Yao assentiu, saiu, subiu as escadas e dirigiu-se ao quarto de Gong Hui.
— Senhorita Gong, o Liu nos chamou para jantar — Luo Yao bateu à porta.
— Não estou com fome, podem ir — respondeu, após um instante, com voz mais fraca e desanimada que o habitual.
— Tem certeza?
— Já disse que não quero, pare de insistir.
— Tudo bem, vamos então.
Com a ausência de Gong Hui, os quatro homens se sentiram mais à vontade. Buscaram um restaurante simples, pediram poucos pratos, pois o dinheiro era curto. O objetivo era só matar a fome.
Após a refeição, decidiram investigar a situação de Yin Tianchou. Dividiram-se em duas duplas: Gu Yuan e Mancang foram até a mansão de Yin Tianchou, para reconhecer o entorno; Luo Yao acompanhou Liu Jinbao até o chefe da célula local da Sociedade do Traje Azul.
Sem apoio de inteligência local, capturar “Duan Coxo” seria quase impossível; a informação sobre ele viera justamente desse grupo.
Foram então se informar e definir o plano de ação. O encontro foi numa casa de chá.
Duan Coxo era um ladrão notório, autor de inúmeros crimes nas províncias vizinhas. Tinha fama de leal, generoso, muitos amigos e era extremamente cauteloso, sempre mantendo várias rotas de fuga. Um adversário difícil.
Na reunião, Luo Yao limitou-se a ouvir, sem opinar.
No caminho de volta, ao passarem diante de uma loja de departamentos, Luo Yao falou:
— Chefe, ainda está cedo. Quero dar uma volta por aqui.
— Está bem, mas não vá longe. Volte antes de escurecer — permitiu Liu Jinbao, ciente de que, como líder, pouco podia controlar. O pedido de Luo Yao não era absurdo.
— Pode deixar.
Na hora do jantar, Gong Hui finalmente saiu do quarto, embora pálida, demonstrando certa fragilidade feminina.
— Luo Yao, obrigada — disse ela, corando levemente ao se aproximar dele.
— Não há de quê — respondeu Luo Yao, com indiferença.
— Luo, Gong Hui, vocês dois estão estranhos! — exclamou Liu Jinbao, chegando e vendo os dois conversando em voz baixa.
Gong Hui virou-se bruscamente, lançando um olhar fulminante:
— Estranho é você!
— Luo, o que houve? — Liu Jinbao sentou-se ao lado, curioso.
— Calma, é só... mulher, sabe, tem aqueles dias do mês — explicou Luo Yao, sereno.
Liu Jinbao arregalou os olhos, como se de repente tudo fizesse sentido, e olhou para Luo Yao, surpreso.
Gu Yuan e Mancang também chegaram. Após o jantar, os cinco reuniram-se no dormitório coletivo. Com a proximidade do Ano Novo, a pensão estava quase vazia.
O dormitório, com dez camas, era ocupado apenas por eles quatro, sem estranhos.
Liu Jinbao repassou as informações obtidas:
— É isso. E agora, o que sugerem?
— Estão exigindo demais da gente. Esse Duan Coxo domina tanto o submundo quanto os círculos legais, e só temos esses poucos dados? Difícil demais — reclamou Gu Yuan, insatisfeito.
Mancang concordou:
— É capaz dele já saber que viemos atrás dele. Liu, você não contou ao pessoal da célula local onde estamos hospedados, contou?
— Claro que não. Não se pode confiar em todo mundo. Não sou ingênuo — respondeu Liu Jinbao, orgulhoso de sua esperteza.
— Ótimo, ao menos nosso paradeiro está seguro — disse Mancang, experiente investigador. Alguém como Duan Coxo, criminoso incansável e ainda livre, certamente contava com muitos amigos e informações circulando rápido entre os dois mundos.
— Primeiro, precisamos garantir que Duan Coxo está mesmo em Yueyang.
— O chefe Deng me disse que, todo ano, na véspera do Ano Novo Pequeno, Duan Coxo janta com o irmão de juramento, Yin Tianchou. Já tentaram prendê-lo antes, armando emboscadas, mas Yin Tianchou é muito influente aqui. Não só não o pegaram, como nem chegaram a ver Duan Coxo. Nos últimos anos, prender Duan Coxo virou tabu até na polícia local — explicou Liu Jinbao.
— Se não conseguirem capturá-lo, eliminam no local. Com tudo que aprontou, Duan Coxo já merecia a morte várias vezes — resmungou Gong Hui, encostada na porta.
— Nosso objetivo é capturá-lo vivo. Se morrer, é outra história — ponderou Liu Jinbao.
— Que exigência! Se fosse só matar, seria fácil; agora, levá-lo vivo, e ainda transportá-lo, é quase impossível... — queixou-se Mancang.
— Chefe, por que querem ele vivo? — perguntou Gu Yuan.
— Não sei, é o que diz a missão, sem explicações — respondeu Liu Jinbao.
— O motivo pouco importa para nós. Agora, precisamos saber se Duan Coxo está mesmo na cidade, se vai jantar com Yin Tianchou na noite do dia 23, e como sairemos daqui caso tenhamos sucesso — analisou Gong Hui.
— Se tivéssemos acesso aos arquivos dos crimes antigos de Duan Coxo, talvez encontrássemos alguma pista útil — refletiu Gu Yuan.
— Com certeza, esses arquivos estão na delegacia de Yueyang...
— Já estive lá ano passado, o layout não mudou. Podemos entrar discretamente e pegar os arquivos — disse Liu Jinbao, que vinha dos serviços especiais e era acostumado a esse tipo de operação.
— Não pode ir sozinho, precisa de cobertura do lado de fora — advertiu Gu Yuan. — Vou contigo. Se algo der errado, ao menos alguém pode avisar os outros.
— De acordo.
— Melhor irmos todos, não consigo dormir mesmo — sugeriu Gong Hui.
— Então vamos nos preparar e saímos em grupos separados — propôs Gu Yuan, lançando um olhar a Luo Yao, que permanecia calado. — Luo Yao, você fica na pensão. Esse tipo de risco não é para você.
Luo Yao pensou: “Que sorte! Ia aceitar, mas...”
Gong Hui interveio:
— Luo Yao vem comigo. Eu cuido da segurança dele.
Luo Yao torceu o nariz: “Cuidar da minha segurança? Ficar na pensão é que seria seguro.”
Mas não havia escolha. Como recusar?