Capítulo 2: A Vaga

Operação Secreta Silenciosa Vento Longo 3640 palavras 2026-02-07 16:23:13

Lavou o rosto com água fria e, ao encarar no espelho aqueles olhos injetados de sangue, Lourenço soube que precisava arriscar-se ao menos uma vez. Certas coisas não se resolvem apenas esperando por um bom desfecho.

Era preciso agir. E isso nem chegava a ser uma infração disciplinar; afinal, um verdadeiro agente clandestino, além de cumprir as missões determinadas pela organização, devia também demonstrar iniciativa própria.

Qualquer um com um mínimo de conhecimento sobre o trabalho nas linhas de frente secretas entendia bem essa verdade.

O curso de treinamento começaria em março; já estávamos em janeiro, não havia tempo a perder. Era imperativo garantir uma vaga — e, pensando bem, só havia uma maneira.

...

Bairro de Wenhua, residência dos Han.

Ao ver o automóvel de Han Leôncio sair pelo portão, Lourenço massageou as faces entorpecidas pelo frio, pegou as guloseimas recém-compradas — bolos, frutas cristalizadas, frutas frescas e alguns suplementos — e dirigiu-se ao portão da residência Han.

Minutos depois, foi recebido por uma senhora imponente, coberta de joias, o rosto espesso de pó e os lábios pintados de vermelho vivo: era Xue Ximena, esposa do seu tio Han Leôncio.

Ximena vinha de uma família tradicional da cidade; Lourenço já conhecia bem seu temperamento e caráter. Naquele dia, seu objetivo era claro: precisava encontrar-se com a tia.

Sabia que ela não tinha simpatia por ele, algo que reconhecia perfeitamente.

Na verdade, estava ali para irritar a tia de propósito. Era muito mais eficaz lidar diretamente com ela do que com Han Leôncio, que, segundo Yumi, era famoso na delegacia por temer a esposa.

— Tia, da última vez que vim, não trouxe nada; foi uma falta de consideração minha. Trouxe uma pequena lembrança, por favor, aceite — disse Lourenço, colocando os presentes na mesa de centro, com expressão sincera.

Ximena sequer olhou para as coisas, mantendo o semblante frio:

— O Leôncio não está em casa hoje. Qualquer assunto, volte outro dia.

Lourenço estreitou levemente o olhar, nervoso:

— Na verdade, vim procurar minha prima Eugênia.

— E por que quer ver a Eugênia? — O olhar de Ximena tornou-se afiado.

— Quando minha mãe era viva, contou-me que, quando éramos pequenos, nossas famílias fizeram um acordo: quando minha prima completasse a maioridade, então...

Nem terminou a frase; Ximena, já de semblante fechado, cortou-o:

— Chega dessa história velha! Isso já passou, para que trazer isso à tona agora?

— Então a senhora quer dizer que o acordo das famílias não será reconhecido?

O rosto de Ximena se fechou ainda mais:

— Que acordo? Tem algum documento? Lourenço, você hoje não passa de um cachorro sem dono. Não se iluda, você e Eugênia jamais acontecerão!

O pescoço de Lourenço ficou vermelho de raiva:

— Não tenho documento, mas o tio confirmou publicamente o compromisso entre mim e minha prima.

— E daí? Os tempos mudaram — Ximena soltou um muxoxo, atirando-lhe palavras como se fossem saliva. — Olhe pra si, usando roupas de segunda mão, sapatos comprados em brechó. Sabe quanto você ganha por mês? Faz ideia de quanto custa manter a Eugênia? Você conseguiria sustentar alguém como ela?

O rosto de Lourenço ficou da cor de fígado, mas ele insistiu:

— Tia, a senhora já perguntou ao tio e à Eugênia o que pensam disso?

— Fora daqui! Leve suas coisas e desapareça!

— Tia, meus sentimentos por Eugênia são sinceros, não vou desistir...

Lourenço foi expulso da residência Han, junto com suas coisas, em total humilhação.

Contudo, seu objetivo fora alcançado.

...

Na delegacia, manter certos assuntos em segredo era tarefa quase impossível, ainda mais quando se tratava de fofocas. Assim que surgiam boatos, de cima a baixo, até os cães da equipe policial já sabiam de tudo.

E se houvesse alguém interessado em espalhar, a notícia corria ainda mais rápido.

— Lourenço, é verdade que você é sobrinho do chefe Han?

— Primo distante...

— Agora entendi por que você já entrou direto no escritório: tem um padrinho poderoso! Quando for promovido, lembre-se da sua colega aqui, hein? — Yumi balançou a cintura ao passar por Lourenço, roçando de leve os dedos e deixando um perfume marcante no ar.

As faces de Lourenço coraram. Yumi era ousada demais, e mesmo com sua experiência, ele se sentia desconcertado.

Na repartição, boatos se espalhavam como fogo. Lourenço nunca revelara intencionalmente sua relação com Han Leôncio, mas para quem quisesse saber, não era difícil descobrir.

...

— Lourenço, que história é essa? Não disse para não mencionar nosso parentesco na delegacia? Isso pega muito mal — Han Leôncio estava furioso.

— Chefe Han, não sei o que aconteceu. Não contei nada a ninguém — Lourenço respondeu, justificando-se com semblante magoado.

Han Leôncio claramente não acreditou. Apontando-lhe o dedo ao rosto, vociferou:

— Se não foi você, como descobriram?

— Eu...

— Não precisa explicar — Han Leôncio estava muito irritado. — Escute bem: não use meu nome aqui dentro. Se eu descobrir que você está fazendo algo errado, não vou aliviar só por ser meu sobrinho.

Lourenço apenas assentiu, cauteloso:

— Sim, chefe Han, entendi.

— E mantenha distância da Eugênia. Você não é do mesmo nível dela.

Han Leôncio aparentava ser um homem gentil, mas em essência era interesseiro; seu pai nunca gostara do primo da mãe.

E nisso o pai tinha razão.

...

Lourenço sabia que a filha de Han Leôncio, Eugênia, mantinha um relacionamento próximo com o filho do homem mais rico de Shakou, Hugo Yizé, e que já pensavam em casamento.

Se tentasse se intrometer agora, só provocaria conflitos, forçando Han Leôncio a buscar uma maneira de afastá-lo — exatamente o que ele queria. Se não fosse por uma vaga no curso especial, não teria nenhum interesse em se envolver com Eugênia.

Não sentia atração alguma por essa prima de fama “romântica”.

Seu tio era zeloso com a própria reputação, ainda mais num momento decisivo de ascensão; não faria nada que pudesse prejudicar sua imagem perante os superiores.

Colocar Lourenço na lista do “curso especial” seria a melhor solução, ainda por cima ganhando a fama de não favorecer a família.

Se Han Leôncio acataria sua vontade ou não, era incerto.

Entrar no curso era fácil, mas a revisão política era rigorosa; se reprovado, as consequências seriam graves.

A inteligência militar preferia errar por excesso do que correr riscos.

...

— Eugênia, consegui dois ingressos para o salão de dança Metropol; hoje, depois do trabalho, vamos juntos...

— Se quiser ir, vá sozinho! Eu não vou!

— Sozinho não tem graça. Que tal um cinema? Você não adora “Romeu e Julieta” do Shakespeare? Sei que hoje vai passar no Cine Da Hua, se formos agora, ainda conseguimos ingressos.

— Não vou! Você não cansa, Lourenço? Já disse: entre nós nunca haverá nada. Olhe-se no espelho! Acha mesmo que está à altura de me cortejar? — Eugênia exibia-se como um pavão orgulhoso.

— Mas sou seu primo...

— Primo, que piada — Eugênia riu com desdém.

Ela herdara perfeitamente os “atributos” dos pais: criada entre mimos, gostava de ostentar certo ar burguês. Talvez, no passado, tivesse olhado para Lourenço, mas depois que começou a sair com o senhor Hugo, não enxergava mais o primo, agora um simples plebeu.

...

À noite, residência Han.

— Pai, já não aguento mais ir trabalhar! O Lourenço me persegue todos os dias: convida para jantar, para cinema... No começo, aceitei sair com ele só porque é filho da tia, mas depois começou a inventar que temos um compromisso de casamento...

Eugênia estava irritadíssima. Já tivera outros pretendentes, mas ninguém tão insistente quanto Lourenço — um verdadeiro chiclete, difícil de se livrar.

Por causa dele, até um encontro com Hugo fora arruinado.

Ao voltar para casa, desabafou com os pais.

— Esse Lourenço, por fora parece honesto, mas por dentro é um aproveitador. Está de olho é na nossa fortuna — Ximena, ouvindo a filha, não poupou insultos. — Já o avisei da última vez, mas ele não desiste!

Han Leôncio suspirou:

— Minha prima e o marido sempre foram bons, mas como puderam criar um filho desses? E ainda estudou na melhor universidade... Só por isso o coloquei na delegacia, mas, pelo visto, é um caso perdido.

— Leôncio, você precisa resolver isso. O presidente Hugo está satisfeito com nossa Eugênia. Se unirmos nossa família à dos Hugo, sua carreira em Jiangcheng vai decolar. Basta uma palavra do presidente Hugo lá em cima, e o cargo de diretor será seu de verdade — Ximena disse, séria.

— Está bem, já entendi. Fique tranquila, vou resolver tudo da melhor maneira possível — Han Leôncio garantiu, batendo no peito.

Agora precisava encontrar um jeito de afastar Lourenço sem prejudicar sua promoção e ainda cuidar do futuro da filha.

...

— Sr. Wu, o que decidiu a organização? Posso ir para o curso especial? — Dois dias depois, Lourenço encontrou-se com o velho Wu na loja de produtos da montanha, indo direto ao ponto.

O velho Wu assentiu:

— A organização já tinha essa ideia, mas faltava alguém adequado. Dessa vez, você deu sorte. Mas, indo sozinho, tudo dependerá só de você. O curso é totalmente fechado; se algo acontecer lá dentro, não poderemos ajudar.

Lourenço respirou aliviado:

— Estou preparado. Quem não se arrisca, não conquista.

— Além disso, conquistar a vaga ainda depende de você. Se precisar de ajuda da organização, peça — disse o velho Wu.

Lourenço pensou um instante e respondeu:

— Preciso que vigie os passos do senhor Hugo.

— Ele não tem nada a ver com isso — o olhar do velho Wu se aguçou. — Não faça besteira.

— Fique tranquilo, conheço meu trabalho — Lourenço não explicou mais nada. Certas coisas só fariam sentido quando realizadas.

O velho Wu advertiu:

— Tome cuidado. Qualquer novidade, eu o aviso. Embora o governo nacionalista e os comunistas estejam unidos contra o exterior, o pessoal da Divisão Dois nos vigia com mais rigor do que os próprios japoneses.